Utopia da mundança na 11.ª edição do GUIdance

“Retenção e mundança” são os dois pontos essenciais deste Festival Internacional de Dança Contemporânea de Guimarães, disse Rui Torrinha, diretor artístico do GUIdance, na apresentação do festival. O programa de 2022 integra 10 espetáculos, com atuações a estrear ou “pouco vistas”, devido às restrições que resultaram da pandemia, duas estreias nacionais, talks, masterclass’s e debates, que terão lugar em quatro palcos da cidade: os auditórios do Centro Cultural Vila Flor, e a blackbox do Centro de Artes José de Guimarães e da Fábrica ASA.

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A edição de 2022 do festival traz a Guimarães temas de grande abrangência como “uma natureza faminta de verdade, resistência, ironia, contradição, violência, realidade e ficção, perversidade e transformação, luz e escuridão, limites humanos e convívio com o desconhecido” através de espetáculos, mas também através de talks, marterclasses, debates, embaixadores da dança e um ensaio aberto para escolas de dança. Atividades que “estreitam laços e fazem expandir este universo”.

“Em tremenda simplicidade, podemos dizer que este é o ano da mundança (palavra inexistente, surgida da ousadia de fundir a palavra mundo com a palavra dança, para gerar uma ação intencional: a mudança do mundo pela dança). Isto é, precisamos dançar com mais força para mudar o mundo. Com mais intenção, com mais despreocupação, com mais beleza, com mais caos… sobretudo com a vontade de potência que reconhecemos em cada corpo”, partilha o programador do festival, Rui Torrinha, reforçando que mudar o mundo a dançar sempre foi uma das utopias do GUIdance. 

O descolar desta mundança e da 11.ª edição do GUIdance é marcado com a Escala de Sofia Dias e Vítor Roriz no Grande Auditório Francisca Abreu, no CCVF, às 21h30 do dia 3 de fevereiro. Interpretada por Alice Bachy, Bruno Brandolino, Luís Guerra, Natacha Campos, bem como por Sofia Dias e Vítor Roriz, pretende abranger a ideia de corpo coletivo/social que tem permanecido à margem do trabalho predominantemente em dueto desta dupla. 

O segundo dia do festival dá a conhecer a peça TANZANWEISUNGEN (it won’t be like this forever) do criador germânico Moritz Ostruschnjak, que apresenta um solo pleno de referências autorreflexivas e irónicas que desafiam qualquer definição específica. Em TANZANWEISUNGEN (em português, instruções de dança), Ostruschnjak mantém-se fiel ao estilo eclético das suas produções mais recentes e permite que o seu solista, o bailarino Daniel Conant, leve os espectadores por um cânone extremamente diverso e exigente de movimento, assumindo, em rápida sucessão, poses de resistência, de combate e vitória, de masculinidade estilizada, do ballet clássico, das dança de salão e do desporto, num pulsar alucinante de elementos divergentes que se exageram, ironizam e contradizem, como que obedecendo a uma instrução obrigatória que nos leva a um abismo.  

O primeiro fim de semana deste GUIdance convida o público a percorrer vários palcos e a ser contaminado por experiências distintas. Às 18h30 de sábado, 5 de fevereiro, a criadora e intérprete Maria Fonseca apresenta a peça Sahasrara, refletindo em palco, na companhia de Angelica Salvi e Maria Fonseca, sobre o que tem sido viver em tempos de pandemia. “Numa época sem tempo, o tempo chegou sem previsão de fim. Caem as máscaras, a natureza engole-as faminta de verdade.  E deparamo-nos com o desconhecido, com a nossa própria morte mas também com a morte de um futuro que julgámos estar sob controlo”, lê-se na sinopse.

Caindo a noite de sábado, as portas abrem-se para Kind, que oferece um reencontro e um desfecho protagonizado pela consagrada companhia belga Peeping Tom. Reencontro, pela nova visita desta companhia que nutre já uma grande afinidade por este palco que várias vezes pisou perante plateias esgotadas. Desfecho, lembrando que depois de Vader (Pai) e Moeder (Mãe), espetáculos que também subiram ao palco do CCVF, Kind (filho) é a terceira parte da trilogia familiar desta internacionalmente aplaudida companhia. Nesta criação, apresentada às 21h30, Gabriela Carrizo e Franck Chartier exploram diferentes fontes de psicose do ponto de vista da criança. A peça aborda temas como a violência, o paradoxo entre a realidade e a ficção, o outro, o trauma, na tentativa de comprovar que, em grande medida, o meio ambiente em que crescemos pode determinar a pessoa em que nos tornamos. Numa dualidade entre reflexo e resistência, Kind questiona os aspetos perversos da formação da identidade.   

Esta edição prossegue caminho pelas mãos dos mesmos protagonistas que a abriram, com uma tripla apresentação dedicada especialmente às famílias, fechando a primeira semana do festival a 6 de fevereiro, às 16h00, e no dia 7, às 10h30 e às 15h00. Com Sons Mentirosos Misteriosos, Sofia Dias e Vítor Roriz partem à procura da qualidade mágica que emerge da fricção entre som e imagem e questionam: “Pode uma imagem enganar a nossa perceção sobre a proveniência de um som? Ou um som mentir-nos sobre a sua origem?” Sons Mentirosos Misteriosos é mais uma coprodução d’A Oficina, na companhia do LU.CA Teatro Luís de Camões (Lisboa), Materiais Diversos (Cartaxo), Théâtre de la Ville (Paris) e Teatro Nacional São João (Porto). 

Depois de um pequeno intervalo para recuperar o fôlego, a mesma dupla de criadores assume o salto para a segunda semana do festival com Um Gesto que Não Passa de uma Ameaça, apresentado numa remontagem do premiado e viajado espetáculo que em 2012 se apresentou em Guimarães, em plena Capital Europeia da Cultura. Sofia Dias e Vítor Roriz procuram neste trabalho situar-se nesse momento de perda e atribuição de sentido, de degeneração e transformação, indo ao encontro do modo caótico como a nossa mente percebe e associa acontecimentos.

O roteiro proposto pela viagem desta edição conduz os vimaranenses para O Susto é um Mundo, peça de uma das mais reconhecidas criadoras nacionais da dança contemporânea, Vera Mantero, que assume igualmente a interpretação e cocriação com Henrique Furtado Vieira, Paulo Quedas e Teresa Silva. Apresentada no dia 10, às 21h30, esta que é outras das coproduções assumidas pel’A Oficina, juntamente com a Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest, Teatro Municipal do Porto e Teatro Viriato, explora alguns antídotos para os sustos do nosso presente. 

Cabraqimera de Catarina Miranda é apresentada no dia 11, sexta-feira, pelas 21h30. Uma peça de dança para um quarteto em patins, aborda uma contemporaneidade simultaneamente física e tecnológica, onde um sistema de organização espacial, baseado em desportos de velocidade, estabelece um conjunto de códigos de ocupação, interceções e encontros.

O último dia do GUIdance 2022 põe a plateia em contacto com duas criações com formatos bem distintos, desde uma performance a solo durante a tarde para uma atuação conjunta de 10 intérpretes. Começa às 18h30, com Body Monologue da jovem coreógrafa grega Anastasia Valsamaki, interpretada pela bailarina Gavriela Antonopoulou, recuperando uma questão não respondida e evidente em palco: “O que pode um corpo fazer?”. 

Em Hands do not touch your precious Me, Vandekeybus tece um conto mítico de confronto e transformação, luz e escuridão, morte e renascimento. Para a criação deste universo, o coreógrafo convoca, pela primeira vez, o performer e artista visual Olivier de Sagazan, cujo trabalho assenta na transfiguração do corpo e do rosto.

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