Vencer a intolerância, em tempo de pandemia

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Os efeitos terríveis do vírus estão aí para quem os quiser ver. Ainda sobram meia dúzia de negacionistas a pregar para um deserto cada vez mais pequeno, mas os factos são esmagadores. Infelizmente, outros há que têm que lidar com a pandemia na primeira pessoa e esses não precisam de ver os telejornais para entender bem o drama que atravessamos.

E no entanto não vimos da missa a metade, pois os efeitos da pandemia ainda se vão fazer sentir fortemente nos próximos tempos. Desde logo, a nível económico e social, onde as sequelas desta travagem a fundo da economia se vão fazer dolorosamente sentir. Nas empresas, nos pequenos negócios, no bolso dos trabalhadores.

Mas não só aí. A pandemia promete deixar outras mazelas e uma delas tem a ver com a forma como cada um de nós se posiciona na relação com o outro. Ainda não terminamos mais um confinamento e estamos todos naturalmente cansados e muitos mesmo zangados com tudo e com todos.

Este é o caldo de cultura ideal onde medra a intolerância. Intolerância para com o que é diferente de nós e intolerância para com quem pensa de forma diferente de nós.

É impossível olhar para os últimos resultados eleitorais das presidenciais sem ter isto presente. Não que explique tudo, longe disso. Mas explica alguma coisa.

Não se ignora que estas não são eleições “partidárias”, mas é fundamental que os partidos delas retirem as devidas ilações. Desde logo o Partido Socialista, que deve resistir a algumas tentações. Uma é a de esmagar os partidos à sua esquerda e que, no parlamento, têm suportado a ação governamental. O alargamento do chamado “arco da governação” significou um verdadeiro desbloqueio do panorama político e é, possivelmente, a mudança estrutural mais importante na política portuguesa das últimas décadas. É um ativo desta liderança do PS que importa não desperdiçar.

Por outro lado, o PS deve resistir à tentação de pensar que o que se passa à direita é um problema “lá deles” e que até é bom, porque fragmenta o espaço rival. Ora, o que se está a passar à direita é um problema de todos. Não é uma pura questão esquerda/direita, mas sim (e à semelhança do que já aconteceu noutros países) uma questão entre a defesa dos valores fundamentais que regem a nossa democracia, ou o ataque a esses mesmos valores.

Essa mesma noção deverão ter os partidos tradicionais da direita. Já se percebeu que só há uma forma de se lidar com o fenómeno dos populismos: traçar uma linha que não se ultrapassa em caso algum. O problema é que, aquando das eleições regionais dos Açores, já se pisou essa linha. E agora não é fácil emendar a mão. Com o CDS já a atravessar uma crise muito séria que ameaça mesmo a sua existência, era bom que o PSD medisse muito bem os seus próximos atos.

Em suma, exige-se dos principais partidos que pensem no longo prazo e não em ganhos imediatos que se podem esfumar num estalar de dedos ou mesmo virar-se contra nós. A democracia não se defende com tibiezas, nem com cedências, nem com calculismos, nem com taticismos. Vence-se pelo exemplo e vence-se com uma total intransigência na defesa das fundações em cima das quais erigimos o nosso estado de direito. É um combate onde todos devemos dizer presente e que se faz todos os dias e a todas as horas. Todos seremos poucos e todos fazemos falta.

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