VERDADE DESPORTIVA

Por Carlos Guimarães

Nunca fui dirigente desportivo e nada me move para que o possa ser. Acredito que seja uma tarefa difícil e ingrata e ao mesmo tempo apetecível, um oxímoro que os entendidos sabem explicar. Tudo o que será descrito adiante pode parecer óbvio a qualquer pessoa relacionada com esta atividade, mas ao comum dos ignorantes nos quais me incluo, não deixa de parecer estranho e causar perplexidade.

Gosto do desporto em geral, aquele de verdade, o que faz bem à saúde e o que encanta os aficionados.

Gosto do Vitória, aquele de verdade, que se mostra como um prolongamento dos nossos afetos e emoções.

Gosto de ver pessoas orgulhosas e felizes com o nosso clube, a ostentar com vaidade o emblema do Vitória.

Gosto das nossas vitórias.

Por tudo o que acabei de exprimir, fiquei estupefacto e um pouco aparvalhado ao saber que nas camadas jovens do Vitória o esforço e o suor das crianças que orgulhosamente defendem as cores do clube acarreta um encargo financeiro relevante a elas próprias e às suas famílias. Confesso a minha falta de conhecimento em dirigismo desportivo, mas não aceito que seja impossível fazer melhor, fazer mais justo e adequado. Acredito que a equação que gostava de ver resolvida até já possa ter sido tentada e a solução furtiva, mas para problemas simples as soluções não podem ser complicadas.

Cada atleta das camadas de formação do Vitória paga uma anuidade e uma mensalidade para honrar o emblema que coloca junto ao peito. Estes atletas de formação do nosso clube também têm de pagar o seu equipamento na íntegra, desde as meias ao calçado até ao blusão. Pagam o tecido, o emblema, a marca, e as inscrições dos patrocinadores que se podem ler no equipamento. No fundo, os pequenos atletas pagam para fazer publicidade nas camisolas que têm de comprar e exibir com orgulho. Os patrocinadores pagam para que o suor da rapaziada corra sobre as suas marcas e esse dinheiro tem destino. Ao que julgo saber a despesa anual de cada atleta ascende a algumas centenas de euros. Ao que julgo saber a autarquia contribui com um envelope financeiro para as camadas jovens do Vitória.

Não é meu objetivo levantar suspeitas sobre pessoas de bem nem difamar quem quer que seja neste complicado e intricado mundo financeiro e empresarial, mas todo o dinheiro tem um destino, todo o dinheiro parece pouco, toda a quietude não leva a lado nenhum e todos estes factos causam estupefação.

Provavelmente nos outros clubes espelha-se o mesmo cenário, eu não sei, nem quero saber, não me dizem nada, não me enchem de orgulho ou melancolia com as suas vitórias e derrotas.

Tenho muitas dúvidas e algumas certezas, e uma dessas certezas assenta no facto inquestionável de que os pequenos atletas do Vitória dignificam ao mais alto nível a bandeira do clube e são verdadeiros desportistas. Gritam de alegria e sorriem perante as vitórias e choram, choram muito em algumas derrotas.

Presumo que os atletas assalariados (ditos profissionais) se recusariam a vestir a camisola do clube se tivessem de a pagar e a razão estaria do seu lado. De que lado estará a razão quando os que nada recebem e tudo dão ainda recorrem ao mealheiro e às poupanças dos pais para fazer acontecer. Se a razão parece estar do mesmo lado, o coração dos mais pequenos está indubitavelmente com a camisola que vestem e com o emblema que fixam junto ao peito..

Acho que é possível fazer melhor.

Vale a pena pensar nisto

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