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Rui Dias | O que é que nos faz correr?

Na Europa, a percentagem média de pessoas que não pratica desporto é de 39%, em Portugal são 68%. Os números nacionais não divergem muito do estudo feito em Guimarães, em 2023, mesmo que possamos considerar que, entretanto, houve um aumento da prática: entre os vimaranenses, 33% faz desporto e 67% são sedentários. Estes números são preocupantes não só pela má imagem que dão dos portugueses, na comparação com outros países europeus, mas também porque por que se sabe que a prática desportiva regular reduz a mortalidade por qualquer causa em percentagens que podem ir até aos 30%.

Numa altura em que o Sistema Nacional de Saúde (SNS) está, pelo menos em algumas áreas, à beira do colapso, saber que um dos principais fatores que poderia provocar uma mudança dramática nos indicadores de saúde da população tem números tão reduzidos, devia-nos preocupar. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prática desportiva regular está associada a uma redução média de 25% a 30% no risco de desenvolver doenças cardiovasculares – AVC e diabetes tipo 2. Atendendo a que, em Portugal, as doenças do aparelho circulatório (AVC e enfarte, por exemplo) estão em primeiro lugar na lista das principais causas de morte, é fácil de perceber o que se poderia ganhar em saúde se um maior número de pessoas começasse a fazer desporto.

Durante muitos anos, culpou-se a falta de infraestruturas: não havia piscinas, faltavam locais para correr, não existiam parques, os campos eram pelados. Atualmente, esse já não pode ser o motivo para não fazer exercício. Um pouco por todo o país foram construídos pavilhões, ecopistas, piscinas, parques urbanos e vulgarizou-se o campo sintético, até nos clubes das freguesias mais pequenas. Guimarães é, deste ponto de vista, um excelente exemplo: tem dois parques urbanos, a que se junta a maravilha que é a Penha, piscinas municipais em Moreira de Cónegos e Brito, além do Complexo Municipal, uma pista de atletismo, quilómetros de ecovia, um Pavilhão Multiusos com condições para receber todas as modalidades, uma Academia de Ginástica e um movimento associativo forte que cria as condições para que a prática das mais diversas modalidades se espalhe pelo concelho de forma capilar. Então o que é que falta?

Os inquiridos pelo Eurobarómetro, em Portugal, apontam a falta de motivação como a principal razão para não fazerem desporto (39%), seguida da falta de tempo (31%) e de questões relacionadas com problemas de saúde. Em linha com estes dados, o estudo feito, em Guimarães, em 2023, apontava para as mesmas três razões e colocava-as pela mesma ordem. Comecemos pelo fim: qualquer médico hoje em dia dirá que há muito poucas situações em que a saúde se apresente como um obstáculo à prática de exercício. É um mito que é preciso derrubar. A falta de tempo talvez mereça mais atenção. Considerando toda a parafernália de máquinas que foram inventadas e que supostamente servem para nos facilitar a vida, é curioso que o horário de trabalho só tenha reduzido oito horas desde o 25 de Abril até agora (13 horas no setor público). Mas isso fica para outra análise.

Quero focar-me na motivação, a principal razão apontada pelas pessoas para não praticarem exercício. Os desportistas, profissionais e amadores, envolvidos em atividades competitivas, movem-se pelo prazer da conquista, por estatuto e reconhecimento. Não é invulgar um antigo atleta de elite, depois de abandonar a competição, engordar e apresentar-se em má forma física. Sem medalhas para conquistar, perdem a motivação. As pessoas em geral começam a fazer desporto porque estão mais pesadas ou porque o médico lhes diz que precisam de o fazer para reduzir o risco de doença cardiovascular. Mas o que faz com que adiram ao exercício é a sensação de pertença, a amizade e o compromisso que formam com os pares e os treinadores. Isto deve levar os profissionais do exercício e os responsáveis pelas campanhas para promover a prática desportiva a questionarem-se sobre o que andam a fazer. As pessoas não treinam porque lhes faz bem, fazem-no quando as faz sentirem-se bem. Note-se que outra das razões apontadas para não praticar desporto é a falta de companhia.

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