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Ana Beatriz Silva | Halloween é uma noite de sustos. Em Portugal, há sustos durante todo o ano.

Um dos terrores começa quando alguém pensa em comprar casa. Os preços parecem saídos de um pesadelo. Adquirir uma casa acaba por se tornar um sonho que vai ficando para mais tarde. Muito mais tarde. Alugar também não é propriamente animador. Uma renda pode levar uma parte significativa do ordenado e, para muitos jovens, sair de casa dos pais deixou de ser um passo natural na vida para passar a quase um luxo.
Depois há os combustíveis. Encher o depósito é quase um exercício de coragem. Olhamos para o preço por litro, para o total no visor e pensamos duas vezes antes de voltar a pegar no carro. Talvez quem inventou os carros voadores possa, daqui a uns anos, (re)inventar carros movidos a água… Sempre se poupava qualquer coisa! E quando os preços sobem, lá aparecem as explicações sobre os mercados internacionais, os impostos e as oscilações do petróleo (o nosso amigo Brent). Tudo muito explicado ou não, a conta continua a chegar à mesma pessoa: a que trabalha e precisa de se deslocar todos os dias.
E, como se tudo isto não bastasse, há declarações políticas que conseguem ser um susto por si só. A propósito do aumento do salário mínimo (50 euros previstos para 2027), houve quem nos explicasse que “50 euros são 50 euros”. Uma descoberta que certamente deixou muitos portugueses mais descansados. Afinal, depois de pagar a renda ou prestação da casa, a luz, a água, o gás, as compras de supermercado e o combustível, ainda podemos contar com esses 50 euros. “Graças a Deus”, ou ao Governo, por estes 50 euros milagrosos. É que há uma diferença entre olhar para os números e olhar para a vida das pessoas. Parece que estamos a falar de dois países diferentes. Num, os indicadores melhoram, os salários sobem e as contas são apresentadas com algum otimismo. No outro, trabalhadores que chegam ao fim do mês sem perceber ao certo para onde foi o ordenado.

Mas há algo que merece destaque: Portugal não ficou assim de um dia para o outro e este problema não nasceu ontem. São anos de dificuldades acumuladas, de promessas por cumprir, de políticas que não conseguiram resolver problemas estruturais, de salários que não aumentam o suficiente e de uma economia que continua a ter dificuldade em transformar crescimento em qualidade de vida.

Chegamos à parte mais assustadora: afinal, qual é a solução?

Se olharmos para a política, encontramos um pouco de tudo. Há os que garantem ter a receita, mas precisam sempre de mais tempo para “cozinhar”. Há os que prometem mudar tudo quando as eleições estão à porta. Há os que passam a vida a apontar o dedo aos outros, como se nunca tivessem tido oportunidade de fazer diferente. E há ainda os que têm uma solução para cada problema, embora, quando questionados a respeito, a conversa fique um bocado mais complicada. Nessa altura, a resposta parece ser qualquer coisa como: “Aqui estão 50 euros e não se fala mais nisso”.
Até o Parlamento se assemelha, por vezes, a uma festa de Halloween. Uns vestem a capa de herói, outros a de vítima… há fantasmas do passado e não faltam os que aparecem com uma abóbora na mão, só à espera do primeiro tropeção alheio para entrar em cena.
Mais uma vez, no final da noite, quem paga os doces são sempre os mesmos. Não faltam anúncios, programas, pacotes, planos e estratégias. O que falta é sentir os resultados na carteira e na vida quotidiana. É ir ao supermercado sem ter de deixar produtos para trás. É trabalhar para algo mais do que sobreviver.

Não há uma varinha mágica. Resolver problemas desta dimensão exige tempo, decisões, continuidade e responsabilidade; exige também que quem governa, já governou e espera governar deixe de olhar para os problemas apenas como argumentos para atacar o oponente, terminando com batalhas entre “Jasons” e “Freddies”.
Estarão já a preparar os sustos para o Halloween de 2027? Escrever exatamente o mesmo artigo sobre as mesmas dificuldades, com outras declarações e outros protagonistas?

Ah! E a reforma… Enquanto jovem, quando chegar a minha vez, essa palavra poderá ser somente mais um fantasma que nos assombra.
Fica o conselho: coloquem de lado os 50 euros extra. Poupem, invistam, “façam” um mealheiro. Afinal, é capaz de ser essa a nossa única reforma.

Halloween dura uma noite. Em Portugal, há assombrações que parecem ter contrato de permanência.
Retirement? In this economy? Good luck.

Feliz Halloween!

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