AS LEIS GERAIS DA GERINGONÇA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Ao fim de onze anos o nosso carro derreou. Aconteceu aqui perto, na autoestrada, à saída para um fim-de-semana. A boa notícia é que lá se remediou e o fim de semana continuou fora aqui dentro. As más notícias vieram depois; afinal era coisa séria, daquelas que atiram um automóvel para os confins da sabedoria automóvel. Um inferno. O arranjo seria maior do que o valor do carro, disse o mecânico, mesmo com peças da sucata. Pois, é certo: apesar de à vista parecer coisa nova e recomendada, o automóvel tinha quase 400 mil quilómetros. Explica-se assim porque nas últimas intervenções tivesse seguido a proposta dos mecânicos; se a peça nova fica por cem, com peça velha paga dez. E anda, diziam! Submetido à plena dureza económica dos tempos que correm forcei a que o carro da família se transformasse numa união de peças de qualidades diversas, uma amálgama de infidelidades tecnológicas. Uma espécie de sociedade das nações de ferro-velho. Ao fim da resolução de algumas avarias na forma da sucata tínhamos uma mecânica tipo patchwork tecnológico.

E contudo, dir-se-ia que não há maior exemplo para explicar a noção de holismo do que um automóvel: como é que milhares de peças se articulam num só sistema, ademais sub-articuladas em vários subsistemas logicamente interligados, não só dando forma útil à locomoção do artefacto mas, ainda mais surpreendente, satisfazendo a sempiterna necessidade de mobilidade humana? O milagre da combinação de peças em estado harmonioso ao ponto de convergirem, funcionando sob variados vasos comunicantes é mistério sobre o qual não nos dedicaremos aqui. O que tratamos é de algo muito mais prosaico, coisa de dia-a-dia, nomeadamente a tendência um tanto ingénua como nos convencemos do funcionamento de uma geringonça.

O que nos engana a todo o momento é a propensão para acreditarmos na superfície; no imediato do que os nossos olhos vêm e nos convencermos que as estruturas mais profundas de qualquer dispositivo se podem confundir com a estética da sua bondosa aparência. Deve ser cultural. Coisa nossa. Portuguesa de lei. Há uns anos gerindo uma empresa que lidava com o mercado alemão acontecia-me muitas vezes ser vítima de geringonças produtivas que falhavam no momento mais dramático. Um dia o meu congénere alemão deixou escapar: mas porque deixas avariar? Mas achas que sou eu que planeio a avaria, retorqui? Sim, disse-me, se não ages enquanto funciona é certo que se vai avariar, por isso devias agir antes da avaria; portanto a culpa é da tua inação. Escutei-o maldizendo da minha sorte mas sabendo que ele tinha razão. Mas não aprendi. Continuo a achar que um artefacto vai funcionar eternamente. Azar.

Estou agora mais uma vez sabido que o destino de toda a geringonça é falhar num abrupto momento, exatamente aquele no qual menos se espera. Não avisará antecipadamente da sua doença. Doente já está, sabemo-lo. Mas não o admitimos. Assobiamos para o ar. Viramos a cara para o lado. Cremos em Deus Pai todo-poderoso criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, inclusive a geringonça. Cremos com muito fervor, até nos esforçamos no crer fechando os olhos convocando a serenidade do crer. É profundo e intenso, coisa sentida. Mas não resulta. De todo em todo, doendo o que doer, a realidade cose-se com as linhas das práticas. De acordo com lei geral da geringonça bebida em Murphy, dada a natureza ferrugenta e caquética do equipamento, não resta outra hipótese: se pode correr mal, vai correr mal certamente. A geringonça falhará. É tão certo como a falha das notas de quinhentos de Alves dos Reis. Porque qualquer geringonça habita a antecâmara da morte quando chega ao estado de articulado artificial, modo naturalmente deficiente de funcionamento de um qualquer componente em estado de esforço terminal.

O problema da geringonça são os seus componentes. São engenhos duvidosos para não dizer… vá lá… inverdadeiros para reforçar a natureza eufemística do artefacto. Os excursos geringoncios afirmam ser possível fazer funcionar um todo a partir da ausência de partes em confluência. Balelas! Prometem o que não podem e afirmam-se possuídos de um dom capaz de transformar a realidade introduzindo soluções no mundo que jamais o mundo esperou nem espera. Peças assim surpreendem o mundo não pelo que oferecem mas pelo que afirmam poder vir a oferecer. É todo um universo de diferença. Dão-nos uma esperança efémera, uma negativa surpresa certa e um consequente desânimo que amarga como fel. Abrahan Lincoln entreviu a geringonça: pode enganar toda a gente durante algum tempo. Ou mesmo enganar alguma gente durante todo o tempo. Mas jamais será possível à geringonça enganar toda a gente durante todo o tempo. Vade retro…

Em resumo: as notícias sobre a morte da geringonça do meu carro não eram exageradas. Ele morreu mesmo. Chegada a realidade fui a modos muito humildes e graciosos comprar um automóvel novo. Acompanha-me agora a sensação que onerei a nova compra pagando pela sucata o que ela só vale em sonhos mal sonhados, ou seja, pesadelos. Nos próximos tempos não quero nada com peças da sucata nem quero surpresas desagradáveis no meu percurso. Para mim chega de geringonças. Vou agora trabalhar seriamente para não ser surpreendido outra vez. Chiça, raio de porcaria!

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