1961 – 2021: Proibições & etc

Por César Machado.

Que em 2021 temos um Carnaval proibido por razões sanitárias não é novidade. Já se fala menos da proibição dos festejos públicos da passagem de ano, em 1961, por razões políticas, por luto nacional. Razão? A Queda da Índia Portuguesa a 18 de Dezembro desse ano. A tomada de Goa, Damão e Diu pela União Indiana levou Salazar a tomar esta inédita medida, que hoje se toma por razões diferentes.

Ainda assim, o terrível ano de 1961 ainda reservaria para o velho ditador uma acrescida surpresa na últma noite do ano – a tentativa frustrada de assalto ao Quartel de Beja, com vários mortos, entre os quais o Sub-Seceretário de Estado da Defesa.

Coloca-se hoje muito seriamente a questão –como foi possível Salazar permanecer no poder depois daquele “ano horribilis” de 1961, pese embora a sua reconhecida “arte de saber durar”?

Está a fazer 60 anos por estes dias que os massacres no Norte de Angola deram origem à Guerra Colonial, que um ano decorrido se estenderia à Guiné e Moçambique. E os pacatos dias do “viver habitualmente” nunca mais seriam os mesmos.

Logo em Janeiro, porém, tinha ocorrido o desvio do paquete Santa Maria, da responsabilidade do DRIL – Directório Revolucionário Ibérico de Libertação- comandado pelo Capitão Henrique Galvão. Uma originalidade praticada por portugueses e espanhóis que na época voltou as atenções de todo o mundo para as ditaduras ibéricas. Ao contrário do que previa Salazar, as potências estrangeiras colocaram-se ao lado dos revoltosos, aos quais não faltou apoio internacional, o que constituiu duro golpe no já abalado prestígio de Salazar e do país. O Santa Maria viria a atracar no Brasil com forte apoio do Estado Brasileiro à época, a viver em democracia, que haveria de durar até 1964.

Também no ar a coisa andou mal. A operação Vagô, que consistiu numa das primeiras operações políticas da história traduzida no desvio de um avião da rota comercial, foi praticado por comando também dirigido por Henrique Galvão, com Hermínio da Palma Inácio, e que fez a aeronave, com origem em Casablanca e destino em Lisboa, voar baixíssimo sobre as cidades de Setúbal, Barreiro, Beja, Faro e Lisboa, com regresso a Casablanca, fazendo chover sobre as populações milhares de panfletos com textos contra o regime.

Na Universidade, as Crises Académicas de Coimbra e Lisboa, com graves fracturas expostas, causaram mossa, internamente e no estrangeiro. A entrada dos gorilas na Universidade de Lisboa levou o Reitor a pedir a demissão – tratava-se de Marcelo Caetano. As numerosas prisões de estudantes a que tais rebeliões deram lugar colocaram estudantes presos durante meses e meses, sem qualquer acusação. Uma primeira página de um jornal inglês, The Observer, publicou uma foto de dois desses estudantes, na cadeia. O título era sugestivo – “The Forgotten Prisioners”, Os Prisioneiros Esquecidos. Um Advogado Inglês, Peter Beneson, revoltou-se contra a situação e resolveu agir, criar uma associação que combatesse as violações dos dieritos humanos nos vários lugares do mundo. E assim nasceu criada a Amnistia Internacional.

Pelo meio do ano, Salazar tivera ainda que enfrentar uma tentativa de golpe de Estado, dirigida pelo seu MIniatro da Defesa, o General Botelho Moniz.

Em, “Salazar e o Poder, A Arte de Saber Durar”, Fernando Rosas indica os vários factores estruturais que ajudaram a manter Salazar no poder por tanto. O apoio das Forças Armadas, o apoio e cumplicidade da Igreja Católica, o aparelho repressivo, etc…Aqui, porém, distingue entre o que tal aparelho tinha de objectivo, a PIDE, os bufos, as prisões pelas polícias em geral. Mas salienta, igualmente, a repressão que cada um acabava por impôr sobe si mesmo, o medo, o medo do medo, a interiorização do que O’Neil sintetizaria brilhantemente ao dizer “Num país em diminutivo, respeitinho é que é bonito”. E este é o pior dos aparelhos repressivos. Que ajudou o ditador a continuar até 1968, e na sua senda, Marcelo, até uma certa madrugada de 1974.

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