1989 O PÚBLICO E O PRIVADO

por ANA AMÉLIA GUIMARÃES
Professora

  1. A semana passada Guimarães acordou com a notícia de que a Torre da Alfândega, aquela que tem escrito o emblemático “Aqui nasceu Portugal”, foi vendida a um particular. Torcato Ribeiro, vereador da CDU, levantou o caso na última reunião de Câmara, fazendo notar que a autarquia se absteve de usar o seu direito de preferência, deixando ao privado um símbolo da cidade e do país. Os responsáveis municipais que deveriam estar atentos e agido de acordo com aquilo que apregoam – a defesa intransigente do cerne da cidade e do seu património – vieram muito lestos desvalorizar o sucedido argumentado que o usufruto público do topo da torre estava garantido. Ou seja, ficou apalavrado com o dono da torre que este faria a gentileza de permitir o acesso aos vimaranenses e visitantes à mesma. E sacudindo a água do capote, desvalorizando o erro cometido, esconde-se debaixo do tapete um erro de palmatória. Vejamos: aquando da requalificação da Praça do Toural projectou-se também uma totalidade envolvente que incluiria a possibilidade de observar a praça e o seu mapa medieval desenhado em calçada portuguesa, bem como a fabulosa vista que aquele local proporciona. Seria pois uma mais-valia turística para a cidade e um espaço que poderia ser aproveitado para iniciativas de animação cultural, um espaço de excelência que suplanta em simbolismo e possibilidades qualquer outro que a Câmara adquiriu no âmbito da capital da cultura. Estranha-se também o silêncio das “elites” vimaranenses sempre tão frementes quando se toca em assuntos de lesa Guimarães, bem como o rápido pano quente que sobre o assunto se colocou. Resumindo: a Câmara e o Pelouro da Cultura foram apanhados a dormir na forma, não velaram pelos interesses de Guimarães, ficando agora na dependência da boa vontade do privado que comprou uma parte insubstituível do património da cidade. Depois da destruição do mercado, depois da compra de edifícios que estão às moscas, depois de tanto auto-elogio sobre a excelência do trabalho cultural que putativamente fazem, vemos agora mais esta nódoa que revela que o Pelouro da Cultura se transformou numa agência de programação e execução de espectáculos, descurando uma visão mais ampla que deveria passar também pela defesa do património histórico e afectivo, como é o caso de que agora falamos.
  2. Ficamos também a saber, na semana que passou, que o responsável pela despoluição do Ave é um dos que mais polui. É caso para dizer: olha para o que digo, não olhes para o que faço. Há mais de uma década a CDU propôs, na Assembleia Municipal, uma carta do Ave e dos seus afluentes de modo que, progressivamente, se fosse fazendo a despoluição do rio e seu aproveitamento turístico por via de praias fluviais e mesmo reintroduzindo espécies piscícolas autóctones. Sabemos obviamente que este é um desafio difícil, complexo e que envolve a necessidade de promover novos hábitos e de apoiar boas práticas. Por isso, na altura, a proposta era para levantar os pontos negros, identificar causas e elencar objectivos a médio e longo prazo. Como seria de esperar a proposta foi chumbada pela maioria camarária. Que não era preciso e que estava tudo a ser tratado, disseram os responsáveis na altura. Uma inverdade, como se vê. Estamos em 2016 e pouco foi feito e o que se vai fazendo é a passo de caracol. Na altura da proposta ainda não estava na moda ser capital verde…
  3. Por questões profissionais tive de entrar em contacto com uma dessas grandes superfícies que, sendo privadas e visando o lucro a todo o transe, dizem estar aqui para servir o público. Fiz o pedido de cedência de um pequeno espaço para mostrar trabalhos relevantes produzidos por jovens no âmbito da semana de promoção da cultura e língua francesas. Apesar da pertinência da exposição e do custo zero para a empresa em questão, não houve por parte desta sequer o que o protocolo da cortesia impõe, nomeadamente uma resposta cabal aos pedidos endereçados. A simpatia e a atenção, no privado, só existem quando abrimos a carteira.

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