O ELOGIO DA FEIURA

por CÉSAR MACHADO
Advogado

“Como se previa, aconteceu o imprevisto”, é o que se diz, normalmente, no rescaldo de grandes eventos com forte mobilização de massas. Assim sucedeu com o Campeonato Mundial de Futebol, realizado na Rússia. Para o fim estava guardado o inesperado bocado. Manda quem manda. E ordenou quem pode que doravante não haverá imagens de senhoras bonitas dispersas pela bancada nos jogos de futebol. É proibido. É discriminação passar imagens de jovens bonitas. “Dura lex sed lex”.  Não são conhecidos os titulares das brilhantes testas de onde isto saíu. Nem tão pouco é sabido se lhes ocorreu pensar no que se passará nas cabeças das mulheres que, de futuro, possam ter o seu rosto destacados pels tv’s, lá bem no meio da bancada, no centro da multidão. Que interrogações poderão formular? – “Porque é que me filmam?” “Estarei assim tão mal, tão feia?” Porquê eu? -Por ser bonita não é, com certeza”. Legítimas as perguntas. Uma ou outra senhora mais ousada pode até perguntar para si mesma- “Quem terá sido o idiota que se lembrou desta ideia?” –Ainda por cima, nem posso chamar-lhe idiota, ainda vão pensar que estou a armar-me em mulher bonita, a queixar-me em causa própria…”. Pois é! Isto anda tudo um bocado baralhado.

À luz destes padrões, seria hoje  censurável e politicamente incorrecta mais de metade da poesia de Vinicius de Moraes e com ela uma enorme parte de toda a literatura. Seria um sacrilégio dizer, como Vininha, “As feias que me perdoem / mas beleza é fundamental”. Esta coisa de quase censurar a beleza feminina traz consigo a chamada “mudança de paradigma”. Torna necessário, desde logo, rever programas escolares, algumas leituras obrigatórias na disciplina de português.  Não é que o Sr. Almeida Garret, por exemplo, ao descrever uma certa janela, no Vale de Santarém,  se põe a imaginar coisas que,  bem vistas as coisas…bem, cala-te boca! Pois é! Não pode. Então vai dizer “Pareceu-me entrever uma cortina branca…e um vulto por detrás… Imaginação decerto. Se o vulto fosse feminino, era completo o romance” Como se fosse pouco, não acrescenta o cavalheiro que a dita senhora, o vulto feminino, teria olhos “verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preço”?  E pergunta ainda “é gracejo isso, ou, realmente, há ali uma mulher bonita? Ai o Garret!!! A valer esta nova moda o escritor pode afirmar que vê um vale, pode dizer que se avistava uma formosa casa  que possui uma linda janela…e “Parou Eliseu!”. Não há cá vultos femininos nem lucubrações que se sabe como começam mas nunca se sabe com podem acabar.  Olhos verdes como esmeraldas orientais? Ó meu menino, tu queres ninhos não queres, ó Garret?

Pois é! Ora o caso,  estas coisas não devem ensinar-se nas escolas, muito menos em livros de leitura obrigatória, homessa! Quando o mundo parece dar sinais de estar tudo ordenado, sem problemas de maior para resolver, liderado por vultos que a divina providência nos enviou para guiar o universo -como está sucedendo um pouco por todo o lado-  sim, é o momento certo para tratar este assunto como deve ser. A tratar é agora, não vá aparecerem por aí uns malucos, aldrabões, tipos perigosos no manejo de botões ligados a mísseis, a mandar no mundo como se fosse deles, é andar e tratar já destas coisas tão decisivas para o futuro da humanidade.

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