Dia Internacional do Enfermeiro: A arte de cuidar

O dia a dia de quem cuida.

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A propósito do Dia Internacional do Enfermeiro, que se assinala a 12 de maio, a Mais Guimarães esteva à conversa com sete dos 800 profissionais de enfermagem do Hospital Senhora da Oliveira de
Guimarães (HSOG). Fomos perceber quais os principais desafios e motivações da profissão.
Nas diversas especialidades, há um sentimento que é comum a todos: o sentimento de pertença, entreajuda e dedicação.

© Joana Meneses

Ana Luísa Bastos é enfermeira diretora do HSOG e é um rosto muito familiar na unidade hospitalar. “Sempre me fascinou poder fazer a diferença na vida das pessoas”, apontou Ana Luísa Bastos como o principal motivo que a levou a abraçar a profissão há 30 anos.

É um cargo que classifica como “muito desafiante” e “muito exigente”, pela constante “análise do desempenho dos profissionais, a garantia da segurança e qualidade dos cuidados de enfermagem que prestamos”, lembrando que “tudo isso implica uma gestão diária e um planeamento estratégico”.

“A enfermagem é uma profissão que além da base científica e da importância do tratamento, prevenção e promoção da saúde, tem também um lado humano muito importante”, explicou.

Os desafios da profissão são muitos, entre eles a gestão com a vida pessoal. Os horários rotativos são o principal motivo de desgaste, até porque, na maioria das vezes, “tanto se trabalham tardes, como manhãs ou noites”, o que faz com que “o ciclo circadiano fique comprometido”.

Ana Luísa Bastos / © Cláudia Crespo

Admitindo que os enfermeiros têm uma vida um pouco “louca”, não pode deixar de existir espaço para “a família, os amigos, as saídas e tudo aquilo que é inerente à vida social”.

Durante as três décadas de carreira diz ter vivido “muitos momentos felizes, mas também muitos momentos tristes”. Entre os mais positivos destaca “ter participado da notícia de um jovem, com menos de 18 anos, que fazia hemodiálise, e que ia receber um transplante de rim”. “Foi um episódio emocionante porque eu tinha uma ligação de doente/enfermeiro de longa data”, acrescenta.

“Os profissionais de saúde são, atualmente, pessoas altamente qualificadas, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista humano”

Mas se há pequenas alegrias diárias que dão um novo fôlego, há também momentos que marcam pela negativa. É a prova de que assistir ao sofrimento do outro também deixa mazelas. “Houve algumas mortes de meninos que me provocaram alguma dor. Há sempre uma forte ligação com os miúdos porque acontece de estarem muito tempo internados”, começa por explicar.

Dos muitos episódios que viveu, destaca um: “Uma família, uma mãe e um menino, vieram à urgência. O menino ficou cá internado e, quando esta se dirigia para ir buscar roupa para o filho a casa, acabou por falecer num acidente de carro. Nós tivemos que transmitir essa notícia ao menino, que tinha o pai emigrado”, contou, visivelmente abalada pela memória.

Elencando que a pandemia da covid-19 veio “enaltecer a importância da profissão”, a responsável garante que “os profissionais de saúde são, atualmente, pessoas altamente qualificadas, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista humano”.

Ana Rita Eusébio / © Cláudia Crespo

Ana Rita Eusébio é enfermeira do Serviço de Pediatria, mas esse nem sempre foi o seu lugar. Antes de chegar ali chegar passou pelos adultos, no serviço de medicina, depois pela neonatologia.

O sucesso na “capacidade de conseguir tratar” e a “ligação com as crianças e com as suas famílias” são aquilo que a apaixona na profissão e na área da pediatria.

Nos momentos mais difíceis, diz envolver a “família e os amigos” porque “é mais forte que nós”, apontou. Ainda assim, na generalidade, “consegue-se interligar tudo e corre muito bem”.

“Os meninos que nos tocam mais são aqueles que agravam muito o estado e precisam de ser transferidos para unidades de cuidados intensivos, especialmente quando voltam e nos procuram para dar o feedback”, explicou a profissional de saúde, acrescentando que “não há explicação, mas toca-nos”.

Para Ana Rita Eusébio, ser enfermeira é a “arte de cuidar e a empatia”.

Bruno Pinto / © Cláudia Crespo

Do outro lado do corredor, cruzamo-nos com Bruno Pinto. Nas suas palavras, ser enfermeiro do Serviço de Neonatologia, do qual faz parte há 19 anos, “é um privilégio”.

“Costumo dizer que este é o sítio onde a taxa de sucesso é mais elevada no hospital, daí ser tão gratificante trabalhar aqui”, revelou.

Destacando que as dificuldades da profissão “são transversais a quase todas as áreas hospitalares”, não esconde que a conjugação de horários é a pior parte.

“Quando começamos a ter filhos, as coisas tornam-se mais complicadas”, explicou o enfermeiro que, por ser casado com alguém que partilha a mesma profissão, tem dificuldades redobradas. No serviço de Neonatologia, “aprende-se a gerir as emoções”, ainda que nem sempre seja fácil. Mutas vezes, tratam-se de “internamentos longos e acabamos por construir relações com os pais que duram para o resto da vida”.

A seu ver, “desafiante, estimulante e recompensadora” são as palavras que melhor definem a profissão.

Olga Castro / © Cláudia Crespo

Olga Castro acompanha, diariamente, novas vidas. Enfermeira no Serviço de Obstetrícia há 19 anos, refere que a “mística relacionada com o nascimento” foi aquilo que mais a atraiu na área.

“Já tive a oportunidade de trabalhar em todas as áreas de obstetrícia, desde a consulta, à sala de partos e internamentos de gravidezes de risco. Agora, estou de regresso ao pós- -parto”.

Trabalhar nesta área “é de uma nobreza que salta à vista de todos porque acompanhamos um momento muito importante – o início de vida”.

A profissional de saúde explica que o “desafio é constante”, porque, enquanto que na área da prestação de cuidados lidava mais com as necessidades dos utentes diretamente, agora lidera uma equipa e “é importante responder às suas necessidades e ambições”.

Na sua perspetiva, ser enfermeira é “ser privilegiada, é ser e estar na vida das pessoas, desde que nascem até que morrem, e é estar ao serviço da comunidade”.

Fernando Rocha / © Cláudia Crespo

Prestes a completar 35 anos de carreira, Fernando Rocha está na linha da frente do Serviço de Urgência. Quando escolheu a profissão “as expectativas eram muitas” e desde cedo entendeu que “é uma profissão digna e que merece ter um outro relevo no enquadramento daquilo que são os profissionais de saúde, até porque está presente em todo o ciclo vital”.

Conta-nos que o “gosto pela enfermagem nasceu na infância” e isso refletia-se até nas suas brincadeiras de criança.

“A área de urgência sempre me despertou interesse. É algo que me motiva no dia a dia e me faz chegar à instituição com energia para mais um dia. Acaba por ser um desafio constante porque nunca sabemos bem o que vai acontecer”, contou.

Para Fernando Rocha, ser enfermeiro “é gratificante, é estar disponível, é ser útil e fazer parte da vida das pessoas em todo o seu percurso”.

Céu Antunes / © Cláudia Crespo

Céu Antunes não teve dúvidas na hora de escolher a sua carreira profissional. A enfermeira da Unidade de Cirurgia de Ambulatório revela que sempre sentiu dentro de si uma “necessidade de ajudar, de estar com o outro e ser amiga”.

Entre as principais dificuldades no seu dia a dia destaca o “elevado número de atividades que desenvolve num curto espaço de tempo”.

Com a consciência que “o enfermeiro tem sempre uma palavra amiga”, Céu Antunes refere que os enfermeiros são aqueles que estão “mais próximos das pessoas” e, mais do que “ouvintes”, chegam a ser “confidentes”. “

Ser enfermeiro é ser pessoa que cuida de pessoa, é trabalhar com a vida humana e promover a saúde”, conclui.

© Ana Margarida Costa / Cláudia Crespo

Ana Margarida Costa sempre teve a profissão presente na sua vida, através da sua mãe. Desde cedo percebeu “o impacto que um enfermeiro pode ter, não só como agente facilitador, mas também como educador nas mais diversas situações”.

A seu ver, a motivação para a profissão “é um processo contínuo” do qual fazem parte “as pessoas que contribuíram para a formação base, o apoio das chefias, os colegas, o exemplo dos pares e as relações que se criam com as pessoas”. A escolha do Serviço de Urgência, que integra há quatro anos, surgiu da perceção de que estes profissionais podem realmente fazer a diferença. “Neste serviço não temos um acompanhamento prolongado da pessoa, mas somos o seu primeiro contacto numa situação de doença, muitas vezes aguda”.

“Enfermagem é empatia, humanismo e dedicação”, classifica Ana Margarida Costa.

© Joana Meneses

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