Isabel Ferreira: Vereadora explica a nova visão da Câmara para a cultura em Guimarães
As declarações foram proferidas durante a conferência de imprensa de apresentação do Fest'In Folk Corredoura, realizada no Teatro Jordão, onde respondeu às questões do Mais Guimarães sobre as recentes mudanças na política cultural do concelho.

© CMG
A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães, Isabel Ferreira, defendeu esta segunda-feira que o município está a implementar uma nova visão para a política cultural da cidade, assente numa maior valorização do espaço público, na diversidade das expressões artísticas e na construção de uma cultura mais participativa e transversal.
Questionada sobre a discussão pública que tem surgido nas últimas semanas relativamente ao rumo da cultura em Guimarães, a autarca considerou que as diferentes reações fazem parte da normalidade de uma sociedade democrática.
“Para mim é natural. É a sociedade a funcionar, é o sistema social a funcionar”, afirmou, defendendo que qualquer processo de mudança gera inevitavelmente diferentes posições. “Quando há mudanças, é natural que haja reação. O grande desafio é compreender essa complexidade e perceber porque é que ela acontece.”
Isabel Ferreira explicou que a atual estratégia cultural pretende romper com uma visão mais compartimentada das artes, defendendo uma abordagem integrada, onde coexistam todas as linguagens artísticas, desde as manifestações tradicionais às formas mais contemporâneas de criação. “Todas as áreas são fundamentais, porque todas fazem parte da nossa identidade. A cultura deve olhar para todas as expressões artísticas, do mais popular ao mais clássico e erudito”, afirmou.
A vereadora considera que a construção da política cultural deve resultar de um trabalho colaborativo entre município, instituições culturais, associações, escolas e comunidade, sublinhando que o executivo tem privilegiado uma fase de diagnóstico, escuta e envolvimento dos diferentes agentes culturais antes de concretizar novas medidas. “Estamos a ouvir, a conhecer, a observar e a envolver quem trabalha no território. É assim que se constroem as políticas públicas.”
Cultura como instrumento de transformação social
Isabel Ferreira enquadrou ainda esta estratégia na preparação de Guimarães para os desafios dos próximos anos, nomeadamente enquanto Capital Verde Europeia 2026 e nas comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede.
Na sua perspetiva, a cultura deve desempenhar um papel central na transformação social da cidade. “O grande desafio é criar laços afetivos entre todos nós no espaço público. A cultura é exatamente essa camada que acrescentamos ao espaço público através das diferentes expressões artísticas.”
A responsável considera que preservar a identidade vimaranense não significa fechar-se sobre si própria, mas antes integrar tradição e inovação. “Nós carregamos uma identidade até muito anterior aos 900 anos. Temos a responsabilidade de valorizar tudo aquilo que faz parte do nosso ADN cultural.”
Saída de Rui Torrinha “é natural”
Sobre a saída de Rui Torrinha da direção artística da A Oficina, depois de mais de 16 anos de funções, Isabel Ferreira classificou o processo como “natural”, recusando qualquer associação a uma mudança de orientação política da Câmara Municipal. “A saída do diretor artístico é normal. Houve uma intenção da parte do diretor artístico de sair e essa decisão foi acordada por ambas as partes.”
A vereadora fez questão de esclarecer que, desde a tomada de posse do atual executivo, nunca existiu qualquer intenção de substituir a direção artística por iniciativa política. “Não houve preocupação, quando este executivo tomou posse, de fazer mudanças. As coisas aconteceram com naturalidade.”
Isabel Ferreira destacou ainda o contributo de Rui Torrinha para a afirmação cultural da cidade ao longo dos últimos 16 anos, desejando-lhe sucesso nos projetos futuros. “Teve um trabalho importante na cidade durante 16 anos. Também é natural que os diretores artísticos procurem novos desafios e outros projetos. Esta circulação faz parte da vida cultural.”
Ao mesmo tempo, garantiu que a futura direção artística continuará a beneficiar de total liberdade criativa. “Nunca houve interferência naquilo que a direção artística deve ou não programar. Tem de existir liberdade de pensamento, liberdade de criação e liberdade para sermos diferentes.”
Caso João Baião: espetáculo resultou do aluguer do espaço
A vereadora esclareceu igualmente a polémica em torno da realização do espetáculo de João Baião no Centro Cultural Vila Flor, sublinhando que a iniciativa não integrou a programação artística da A Oficina nem da Câmara Municipal.
Segundo explicou, tratou-se simplesmente do aluguer do equipamento por parte de um promotor privado, ao abrigo do regulamento municipal de utilização dos espaços culturais. “O Centro Cultural Vila Flor é utilizado por diversas entidades externas que solicitam a utilização do espaço mediante o pagamento das respetivas taxas. Foi exatamente isso que aconteceu neste espetáculo.”
Isabel Ferreira recordou que universidades, empresas, associações e outras entidades recorrem regularmente aos equipamentos municipais para congressos, espetáculos e outros eventos, distinguindo claramente essas utilizações da programação oficial da A Oficina.
“O Centro Cultural Vila Flor mantém a sua missão de programação e produção cultural. Nunca houve qualquer interferência nessa programação. Este foi apenas um aluguer de espaço por uma entidade externa.”
A autarca acrescentou que o teatro de revista, género em que se enquadra o espetáculo protagonizado por João Baião, “faz parte da identidade cultural portuguesa”, defendendo que os equipamentos municipais devem continuar disponíveis para acolher diferentes iniciativas, desde que enquadradas pelos regulamentos existentes.
Ao concluir, Isabel Ferreira reiterou que a atual política cultural pretende construir uma cidade mais aberta, plural e participativa, onde todas as formas de expressão artística possam coexistir. “A maior riqueza é sermos todos diferentes. É essa diversidade que queremos respeitar e continuar a construir em Guimarães.”





