Capela de Nossa Senhora da Conceição: recuperar o passado para devolver um património à comunidade
Uma das mais relevantes expressões do património religioso, artístico e cultural de Guimarães está a ser alvo de um exigente processo de conservação e restauro.

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Depois de uma primeira intervenção estrutural, a recuperação entra agora numa fase decisiva, dedicada à valorização do recheio artístico da Capela de Nossa Senhora da Conceição, em Azurém. Um projeto que nasceu há mais de uma década e que tem sido construído com o envolvimento da Paróquia, do Município e de uma comunidade mobilizada para não deixar desaparecer um legado com séculos de história.
Entre paredes que testemunharam batismos, casamentos, celebrações e momentos decisivos da vida de muitas famílias vimaranenses, permanece um dos mais ricos exemplares do património religioso do concelho. Um espaço onde a arquitetura, a pintura, a talha dourada, o azulejo e a música se encontram numa composição artística singular.
Durante anos, porém, a passagem do tempo deixou marcas profundas. O avançado estado de degradação do edifício ameaçava a preservação deste património, tornando inevitável uma intervenção de fundo. A resposta começou a ser preparada há mais de uma década e, hoje, a recuperação aproxima-se de uma fase decisiva.

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O Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, visitou os trabalhos, acompanhado pelo Arcebispo Primaz de Braga, D. José Cordeiro, do pároco de Nossa Senhora da Conceição, Padre Leonel Cunha e de Rui Machado, presidente da Junta de Freguesia de Azurém. A visita permitiu perceber a dimensão do trabalho já realizado e, sobretudo, aquilo que ainda está a ser feito para devolver à comunidade a totalidade da beleza deste espaço.
“Projetar o futuro e construir o futuro passa por conhecer o nosso passado, honrá-lo e dignificá-lo”, afirmou Ricardo Araújo, resumindo numa frase o sentido de uma intervenção que ultrapassa a simples recuperação de um edifício.
Para o autarca, a Capela de Nossa Senhora da Conceição representa um dos exemplos maiores de um património religioso que é parte integrante da identidade vimaranense.
“Guimarães tem uma grande riqueza, um grande património material que resulta muito da nossa história, da nossa atividade social, económica, mas também religiosa. E, de facto, temos esse privilégio de ter um grande património religioso por todo o nosso concelho que precisa de, progressiva e faseadamente, ser recuperado”, destacou.
Uma obra iniciada há mais de uma década
A ideia de recuperar a Capela não nasceu agora. O processo começou há mais de dez anos, ainda durante o período em que a paróquia era conduzida pelo Padre Queiroz, que, juntamente com uma equipa e com o apoio dos paroquianos, lançou as bases de uma intervenção que viria a ganhar dimensão ao longo dos anos.
O atual pároco, Padre Leonel Cunha, assumiu posteriormente a condução desse processo e encontrou uma vontade já instalada na comunidade. “Esta ideia surge já há mais de 10 anos, com uma equipa anterior a mim, com o Sr. Padre Queiroz, que teve a bela ideia, juntamente com outra equipa, de começar toda esta recuperação, muito por força, também, de todos os paroquianos”, explicou. É uma história de continuidade. Uma geração começou o trabalho, outra deu-lhe seguimento e uma comunidade inteira foi sendo chamada a participar.

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A primeira etapa centrou-se na recuperação estrutural do edifício. Foram intervencionados os telhados, paredes e soalhos, a torre sineira, a sacristia e o anexo de ligação à Capela. Uma intervenção de grande dimensão que permitiu travar o processo de degradação e criar as condições necessárias para avançar para uma segunda fase, mais delicada: a recuperação do recheio artístico integrado.
Os trabalhos contam com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães, da Fábrica da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, dos paroquianos, dos Nicolinos e de particulares, empresas e entidades que se associaram ao projeto.
É precisamente nesta mobilização coletiva que os responsáveis encontram uma das principais razões para o sucesso do processo. “Sente-se abraçada por essa força também de querer dar uma resposta que é, no fundo, devolver um espaço que é de todos, que é de todos”, sublinhou o Padre Leonel Cunha.
O desafio de recuperar a arte que está dentro das paredes
A atual fase é particularmente exigente. Não se trata apenas de reparar ou substituir elementos degradados. Trata-se de intervir sobre património artístico de elevado valor, onde cada detalhe pode esconder séculos de história.
O projeto “Valorização e Promoção do Recheio Artístico Integrado da Capela de Nossa Senhora da Conceição” foi aprovado para financiamento através do Programa NORTE 2030, no âmbito da medida dedicada ao reforço do papel da cultura e do turismo sustentável no desenvolvimento económico, na inclusão social e na inovação social. O investimento global ascende a 417.165 euros, contando com um apoio financeiro da União Europeia de 285 mil euros.
O valor revela a dimensão da intervenção, mas também a sua complexidade. “Todo esse cuidado é como mexer no nosso interior. E, quando nós vamos mexer no nosso interior, tem que ser com o bisturi certo, que não pode ser nem mais ao lado, nem mais para outro lado. Tem que ser no local certo”, comparou o pároco. A metáfora traduz a delicadeza do trabalho.
A recuperação de um edifício desta natureza exige conhecimento técnico, rigor e uma intervenção minuciosa sobre peças que não podem ser tratadas como elementos comuns de construção. “Porque é tão minucioso, porque é tão cuidado, porque é tão delicado, a obra torna-se extremamente cara, porque estamos a falar em arte, em arte valiosa”, acrescentou.

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A Capela, de origem no século XVII e posteriormente ampliada e remodelada no início do século XVIII, conserva no seu interior uma extraordinária conjugação de elementos artísticos. A talha dourada e os azulejos historiados do século XVIII assumem especial destaque, numa composição que inclui ainda pinturas, escultura e um órgão de tubos.
Para D. José Cordeiro, Arcebispo Primaz de Braga, a primeira visita ao interior da Capela revelou uma realidade que superou as expectativas. “Foi uma bela surpresa, foi a primeira vez que entrei aqui nesta capela e estou verdadeiramente fascinado”, confessou. O responsável pela Arquidiocese de Braga considera que o conjunto artístico funciona quase como uma “catequese integral”, na medida em que a beleza do espaço transmite uma mensagem que ultrapassa a dimensão estética. “Quem entra aqui sente-se abraçado pelo mistério de Deus expresso na Imaculada Conceição”, afirmou.
“Limpar o pó da História”
A intervenção não pretende congelar a Capela num passado distante. Pelo contrário, a intenção da Paróquia é que a recuperação permita reabrir o espaço à comunidade e estabelecer uma ligação entre a sua memória histórica e a vida contemporânea. A Capela deverá continuar a ser um lugar de culto, mas poderá também assumir-se como espaço de cultura, acolhendo iniciativas que dialoguem com o património que existe dentro das suas paredes.
Concertos, apresentações literárias, declamações de poesia e outras manifestações culturais poderão encontrar aqui um cenário particularmente singular. “Queremos dar um sinal de que aquilo que é passado também está inscrito no hoje, no presente, e queremos que isso, de facto, não seja apenas um passado, mas que esse passado tenha história, tenha vida, e que a cultura se continue a fazer a partir da vida que nós hoje vivemos”, explicou o Padre Leonel Cunha.
É uma visão partilhada por D. José Cordeiro, que falou numa “nova cultura da valorização do antigo, tornando-o sempre novo”. “É nesta hermenêutica da continuidade que nós conseguimos dar memória à História e, sobretudo, dar memória ao futuro”, defendeu.
O Arcebispo considerou que a recuperação é também um dever para com toda a comunidade. Não apenas para os crentes, mas para todos os que encontram neste património uma parte da história e da identidade de Guimarães. “A beleza que as pessoas encontram aqui como peregrinos ou como turistas ou como simples curiosos vai-lhes fazer bem à alma, ao corpo, à mente e por isso é também um serviço público, é um serviço ao bem comum”, afirmou.
Uma comunidade mobilizada
Se o projeto avançou, foi também porque a recuperação da Capela nunca foi encarada como uma responsabilidade exclusiva da Paróquia. Ao longo dos anos, particulares, empresas, instituições, associações e entidades públicas contribuíram para o processo. A Câmara Municipal de Guimarães assumiu-se como uma das principais parceiras, mas a mobilização da comunidade foi igualmente determinante.
A Paróquia encontrou na cultura uma das formas de aproximar a comunidade do projeto. Os concertos solidários tornaram-se uma das iniciativas mais relevantes de angariação de fundos e levaram à Igreja de Nossa Senhora da Conceição nomes como Cuca Roseta, Sofia Escobar, Ana Bacalhau e João Pedro Pais. Este ano, a iniciativa regressa a 11 de dezembro, com Tiago Bettencourt como protagonista. A lógica é simples: transformar a cultura em instrumento de preservação do património.

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O Padre Leonel Cunha reconheceu que ainda há trabalho financeiro a realizar para completar uma intervenção tão exigente, mas garante que a comunidade continuará a ser chamada a participar. “Vamos continuar a envolver toda a comunidade, também a partir da cultura, como temos feito até aos dias de hoje”, afirmou.
Os concertos realizam-se na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que entretanto foi também alvo de um projeto de melhoramento acústico, destinado a melhorar as condições para as celebrações litúrgicas e para a realização de eventos culturais. A intervenção acústica permitiu melhorar significativamente a inteligibilidade da palavra e criar melhores condições para concertos e outras iniciativas, procurando conciliar a utilização contemporânea do espaço com a preservação das suas características arquitetónicas.
Um património para voltar a ser vivido
A recuperação da Capela não se esgota na obra física. Há uma segunda dimensão, talvez mais difícil de medir: devolver o espaço à vida quotidiana da comunidade. O Padre Leonel Cunha falou com particular emoção da vontade de recuperar o hábito de os vimaranenses entrarem naquele espaço, não apenas para visitar um monumento, mas para o viver. “Este espaço seja retomado, seja habitado novamente por essas gentes que viram aqui nascer a sua vida a partir dos batismos, a partir dos casamentos, a partir das celebrações”, afirmou.

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A intenção é que quem regressar encontre não apenas uma Capela recuperada, mas um lugar que continue a transmitir familiaridade e pertença. “Quando eles chegam aqui e veem esta Capela nesta forma já assim, sentem-se como que em casa, abraçados por alguém de quem gostam muito”, acrescentou. É também essa relação entre memória e futuro que Ricardo Araújo considera essencial. “Preservar o futuro passa por recuperar o passado”, afirmou o Presidente da Câmara Municipal de Guimarães.
O autarca espera que os trabalhos possam estar concluídos em breve, permitindo devolver a Capela à comunidade religiosa, aos vimaranenses e a todos os visitantes.
Um “ato de amor” ao património
Para D. José Cordeiro, aquilo que está a acontecer em Azurém pode ser resumido numa expressão: um ato de amor. “É possível reerguer, como que reconstruir a beleza deste lugar. Num ato de amor”, afirmou. Mas é também um dever cívico, acrescentou o Arcebispo, porque o património não pertence apenas a quem o administra no presente. É uma herança recebida e uma responsabilidade perante quem virá depois.

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A Capela de Nossa Senhora da Conceição é, nesse sentido, uma espécie de ponte entre séculos. Nas suas paredes permanecem referências ao universo artístico e religioso dos séculos XVII e XVIII, mas a recuperação procura garantir que essa linguagem continue a ser compreendida no século XXI. O próprio D. José Cordeiro encontrou no espaço elementos que considera particularmente raros, incluindo representações de anjos associados a pautas musicais e um conjunto artístico que, no seu entendimento, permite “ver a voz do Cântico dos Cânticos”.
“Há aqui uma linguagem que perpassa todos os séculos, aquilo que falávamos, a linguagem da beleza, a linguagem do amor, a linguagem do modo como o ser humano tenta expressar aquilo que é indizível”, descreveu.
O objetivo: abrir as portas no primeiro semestre de 2027
O calendário apontado pela Paróquia é ambicioso: concluir o processo e inaugurar a Capela recuperada no primeiro semestre de 2027. Será o momento de fechar um ciclo iniciado há mais de dez anos e, simultaneamente, abrir outro. “Esse é o nosso desejo, de que, de facto, no primeiro semestre de 2027, nós consigamos estar aqui, a inaugurar e a contemplar a vida escondida nestas paredes, que se revelará a todos os vimaranenses e continuará a dar vida a toda a comunidade da Nossa Senhora da Conceição”, afirmou o Padre Leonel Cunha.
Quando esse momento chegar, não estará apenas concluída uma obra. Estará cumprida uma parte de uma responsabilidade coletiva. A Capela de Nossa Senhora da Conceição não é apenas um edifício religioso. É memória, arte, devoção, identidade e comunidade. É um testemunho de diferentes épocas e das pessoas que, geração após geração, encontraram ali um lugar de encontro com a fé e consigo próprias.
A sua recuperação é, por isso, mais do que uma operação de conservação. É uma forma de garantir que aquilo que foi construído, vivido e transmitido ao longo de séculos não termina no presente.





