Canil da Póvoa de Lanhoso já funciona mas recolha de animais abandonados não existe
Investimento de mais de 608 mil euros não resolve o problema de fundo: autarquia não recolhe animais errantes.

@ Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso
Duas décadas de espera, mais de 608 mil euros investidos e, ainda assim, o problema dos animais abandonados na Póvoa de Lanhoso continua sem resposta. O novo Centro de Recolha Oficial de Animais (CROA) do concelho já está a funcionar, mas apenas em parte. Segundo informações obtidas junto do gabinete da Câmara Municipal, a componente do canil está operacional, enquanto o gatil ainda não entrou em funcionamento, estando a autarquia a tratar dos últimos pormenores antes da sua abertura. O equipamento, com capacidade para 150 cães e 50 gatos, surge depois de quase 20 anos de espera por instalações adequadas. No entanto, apesar do investimento, o problema de fundo mantém-se: o município não faz recolha de animais errantes.
Em conversa informal com o veterinário municipal, foi possível apurar que o serviço recebe diariamente chamadas de munícipes sobre animais abandonados. Da conversa resultou ainda a conclusão de que não existe qualquer campanha de captura, esterilização e devolução (modelo internacionalmente conhecido como CED, ou “trap-neuter-return”), em que voluntários ou associações ficam responsáveis pelo acompanhamento de colónias de animais abandonados, garantindo que não se reproduzem descontroladamente e recebem cuidados básicos mesmo sem serem recolhidos. Não foi possível apurar, junto das fontes contactadas, qualquer medida concreta em curso ou planeada para resolver esta situação. Questionado sobre este ponto, o gabinete da Câmara Municipal esclareceu que existe, de facto, uma campanha municipal de apoio à esterilização, mas com um funcionamento particular: se for a própria pessoa que encontrou os animais abandonados a querer tratar deles e recorrer à ajuda do município, tem de colocar o chip de identificação do animal e custear inicialmente a intervenção veterinária, para só depois submeter uma candidatura de comparticipação ao município, que pode ou não ser aceite. Ou seja, é quem encontra e acolhe o animal que assume o processo e o custo inicial, ficando o município apenas responsável por avaliar e decidir sobre o reembolso a posteriori.
Fonte da Câmara Municipal confirmou ainda que o canil, apesar de recente, já está com a capacidade esgotada.
“Nunca há solução”
O problema é sentido de forma direta por quem vive no concelho. Uma moradora de uma das freguesias da Póvoa de Lanhoso, residente há mais de 10 anos na zona, descreve à nossa reportagem uma situação que, segundo diz, não é a primeira vez que acontece. Há vários anos que recebe animais abandonados junto de sua casa: “Abandonam-nos na rua onde vivo. Eu, com pena, dou-lhes de comer, e eles ficam por ali, na área da minha casa.” Segundo a moradora, nem a junta de freguesia nem o município têm qualquer resposta para estes casos: “Não há nada que a junta ou o município possam fazer.” Para ela, a situação repete-se sem que exista alguma vez uma solução: “Nunca há solução.”
Um problema que não é exclusivo da Póvoa de Lanhoso
A situação identificada no concelho não é um caso isolado. Uma reportagem recente do jornal O Mirante dá conta de que o Centro de Recolha Oficial de Benavente está também completamente sobrelotado, segundo a associação Refúgio Vital, cuja presidente, Cátia Gonçalves, considera que a estrutura já não tem capacidade suficiente para responder às necessidades do concelho. Segundo a responsável, o fim do abate obrigou os centros de recolha a adaptar-se a uma nova realidade, mas nem todos acompanharam essa mudança com investimentos em instalações e infraestruturas. A dirigente aponta o abandono como uma das principais razões para a entrada de cães e gatos nas estruturas de acolhimento, considerando que o problema se agrava durante o período de férias.
A gestão dos animais recolhidos no concelho da Póvoa de Lanhoso está protocolada com a associação zoófila CAPA – Clube de Adoção e Proteção de Animais da Póvoa de Lanhoso, cabendo a esta associação o maneio dos animais, enquanto a gestão técnica é assegurada pelos serviços veterinários municipais.





