Portugal 900 Anos 900 Sopas | Sopa da Pedra, Almeirim
Portugal à mesa com Mário Moreira. Quem não conhece o caldo ou a sopa da pedra de Almeirim? Provavelmente, uma das iguarias do género mais conhecidas e consumidas em Portugal.

@ Mário Moreira
A Confraria Gastronómica da Sopa da Pedra de Almeirim organiza todos os anos, em agosto, um evento onde promove esta iguaria. A Confraria estabeleceu, este ano, servir 12.500 doses a cerca de 20 mil pessoas. É dose! São dias de intenso e árduo esforço, à custa do trabalho voluntário dos seus nobres e resistentes membros. Se formos à lenda da sua origem, a sopa teve como protagonistas dois frades cúmplices, engenhosos e convincentes. Tão convincentes que ninguém questionou a sua imaginação. Um dia, apertados com a fome, passava do meio-dia, os dois frades decidiram abeirar-se de uma casinha que ficava à beira da estrada. Suplicaram por caridade, umas sopinhas ou algo que valesse.
Porém, encontraram uma jovem rapariga, que lhes disse:
— O pai e a mãe andavam a trabalhar nos campos. Não tinha nada para lhes dar senão pão seco e água do pote.
— Não importa — respondeu um dos frades, ao deitar olho esperto pela cozinha. Reparou que havia mais que pão seco. Faremos um caldo de pedras para molharmos o pão.
— Caldo de pedras? — exclamou a rapariga, admirada.
— Sim — respondeu o anafado frade de cajado de zambujeiro. — É uma receita milagrosa em nosso poder. Só precisamos de uma panela com água e duas pedras da calçada bem lavadinhas. O resto fica por nossa conta. A rapariga saloia, pasmada, foi buscar dois calhaus ao quintal. Depois de os lavar cuidadosamente, apresentou-os aos reverendíssimos rechonchudos. Encheram a panela de água, deitaram-lhe as pedras dentro e, virando-se para a rapariga, pediram-lhe:
— Deite-lhe umas pedrinhas de sal e um fio de azeite. A rapariga obedeceu. Não se questionam os enviados, os clérigos. Dentro de pouco tempo, a água começou a ferver e o padre zambujeiro pegou numa colher e fez menção de provar o pitéu.
— Estão ainda muito durinhas, não há por aí alguma verdura no quintal? As ervas ajudam a cozer os calhaus.
— Temos couves, repolho, nabos, cenouras — respondeu a rapariga ingénua.
— É exatamente isso que precisamos. A jovem saloia saiu à horta e voltou carregada com duas couves, um repolho, quatro cenouras roxas, batatas, dois opulentos nabos, coentros e feijão catarino. Foi tudo lavado, preparado e deitado pelo frade na panela de ferro a ferver no lume do chão. Dentro de pouco tempo, a panela começou a ferver e a deixar sair um aroma delicioso. Porém, as pedras continuavam muito duras, no dizer do outro frade atento, que as tateou com um garfo.
— Ó servinha de Deus, não nos podereis arranjar uma rodelita daquele lustroso paio, ali dependurado? A gordura vai ajudar a amaciar as pedras num instante.
— Essa é boa, Sr. padre. Voltou a rapariga, na sua boa fé, acedendo a uma formidável rodela de paio, que foi logo para dentro do pote. Mas nisto, o outro reverendo, olhando com angélica expressão para a chaminé, disse para o companheiro cúmplice:
— Para os calhaus ficarem macios como manteiga falta uma aparinha daquele belo presunto.
— Sr. padre, se precisa de presunto para adubar as pedras, pode tirar — disse a rapariga, incrédula. O frade não quis ouvir mais nada, atirou-se ao presunto e cortou-lhe uma taleiga grossa, que mergulhou logo no pote, a borbulhar pingas de gordura pela barriga sebosa do pote.
— Muito bem, esperemos que as pedras cozam — disseram entre si os nédios mentirosos. Volvida meia hora, o reverendo, com a fomita a fazer-lhe nós na barriga, provou o caldo e exclamou:
— Está pronta, vamos para a mesa. As pedras foram servidas num prato, sobre as hortaliças, ladeadas pelo paio e presunto gordo cortados em bocados. No caldo migaram os venerandos pães saloios, e saborearam tudo em louvor de S. Francisco, deixando apenas os calhaus.
— Vossas reverendíssimas não comem os calhaus? — perguntou a pequena devota, na melhor fé!
— Não, menina, a nossa apertada ordem não nos permite senão que bebamos os caldos. São magros, em verdade, mas com a penitência é que se ganha o reino do céu!
— Amén! — resmungou o outro frade seboso, com pingas de gordura nas barbas.
— Louvado seja Deus! — exclamou a inocente camponesa, cada vez mais admirada, ao vê-los partir, exclamando em surdina:
— E engordam estes santos padres com tão fraco alimento. Esta história, com mais ou menos epítetos, encontra-se documentada em diversos livros e arquivos da região de Almeirim. Anualmente, a Confraria Gastronómica da Sopa da Pedra realiza, com a presença de muitos milhares de pessoas de todo o país, um evento que atrai quem ali se desloca para degustar e matar saudades de uma iguaria que ultrapassou a geografia do concelho e de Portugal. São diversos os eventos espalhados pelo mundo com a presença dos cozinheiros da mui nobre Confraria a promoverem a sopa, que o fazem também nas escolas, junto das crianças em idade escolar, motivando-lhes, deste modo, a importância de comer sopa como um ato nobre, social e sapiente de alimentação saudável.
Esta sopa é feita com feijão catarino, carnes de porco — orelha, entremeada, chispe, chouriço de carne e toucinho —, cebolas, hortaliças, batatas e alhos, tudo cortado em pedaços pequenos, folha de louro, coentros picados, sal e azeite. Os ingredientes devem ficar bem cozidos até que a batata se desfaça, para ficar a sopa bem grossa. Retificam-se os temperos com sal, pimenta e azeite e serve-se numa malga ou terrina com uma pedra no fundo.
Muito obrigado à Confraria Gastronómica da Sopa da Pedra de Almeirim.
Bom apetite!
Um abraço gastronómico.





