Diogo Silva | Futuros de mobilidade em Guimarães

Artigo de opinião. “As crianças já não brincam na rua”. Com que frequência ouve este desabafo? As nossas cidades foram pensadas para os cómodos automóveis e estão de costas voltadas para as crianças que têm nas nossas ruas um obstáculo intransponível. Guimarães é um caso exemplar.

@ Diogo Silva

Na Capital Verde Europeia é raro ver crianças chegar à escola pelos seus próprios meios. Em vez disso, continuamos a dar prioridade ao transporte individual automóvel.

A recente petição em defesa da ecopista de Guimarães relançou o debate da mobilidade. O aumento do número de veículos particulares, as limitações nos transportes públicos e a dispersão urbana – fruto da construção desordenada – têm levado ao colapso gradual das vias rodoviárias. A percepção do problema pela população leva à urgência de medidas e é compreensível que neste contexto surja a ideia da construção de novas estradas. No entanto, a discussão não pode começar por onde vai passar uma nova estrada. Antes disso, é fundamental questionar se uma nova via vai resolver o problema. Qualquer proposta neste sentido deve ser bem sustentada, pesando tanto factores económicos como sócio-ambientais de longo prazo. A construção de novas vias rodoviárias para aliviar excesso de trânsito é uma medida de curto prazo que tradicionalmente falha o objectivo, podendo gerar o efeito oposto.

Este fenómeno está bem estudado e tem nome: Tráfego Induzido. Quando se alarga uma estrada ou se abre uma nova, o trânsito flui melhor durante algum tempo, mas essa melhoria atrai mais carros: quem antes ia por outro caminho ou a outra hora passa a usar esta via, quem andava de transportes públicos passa a usar o carro, e surgem viagens desnecessárias que antes não se faziam. Vale a pena conhecer o estudo The Fundamental Law of Road Congestion (2011) de Duranton e Turner que demonstrou que expandir estradas gera um aumento proporcional no trânsito automóvel – o que confirma a hipótese de Anthony Downs já em 1962. No Reino Unido, o tráfego induzido é reconhecido oficialmente desde os anos 90 e tem de ser tido em conta antes de se decidir aumentar a capacidade de uma via.

O consenso actual é claro: num contexto urbano congestionado, como é o caso de Guimarães, a expansão rodoviária tem o efeito de, em poucos anos, reverter de forma parcial ou total a vantagem imediata de oferecer aos automóveis um novo caminho.

E o problema não é só o tempo perdido nas viagens. O ruído, a poluição, a insegurança, os efeitos do sedentarismo e a perda de qualidade do espaço público devem ser levados a sério. O ruído aumenta os níveis de stress e provoca distúrbios de sono, e a fraca qualidade do ar está associada, segundo a Agência Europeia do Ambiente, a cerca de 4.200 mortes prematuras por ano em Portugal – perto de doze por dia.

A Directiva Europeia (UE) 2024/2881 estabeleceu valores limite mais exigentes para o dióxido de azoto, o poluente mais associado ao tráfego rodoviário, cujo valor passa a metade do actual. Portugal tem até 11 de Dezembro de 2026 para transpor esta directiva para lei nacional e tem até 2030 para cumprir com os valores limite. Está Guimarães preparada?

A mesma lógica surge no planeamento urbano. Estão previstos 700 novos fogos na zona do hotel de Guimarães. Partir do princípio de que cada um traz dois carros, ou seja, 1400 novos veículos na rua, é tratar como inevitável o que pode ser uma escolha. Devemos questionar o porquê de haver dois carros por casa em zonas centrais. Que alternativas estamos a dar para deixarem de ser necessários? E onde, para quem e a que preço construímos?

Uma grande parte do espaço público está ocupado por automóveis que estão parados 95% do tempo. Esse espaço seria útil para criar espaços verdes, áreas de convívio e esplanadas, e devolver às nossas crianças a sua indispensável autonomia urbana, recuperando a sensação de segurança.

Não é preciso inventar nada de novo. Existem vários exemplos de sucesso que podem e devem ser copiados. As cidades europeias estão a adoptar, cada vez mais, um urbanismo centrado nas pessoas, revertendo décadas de domínio absoluto do automóvel. Não se trata de ser contra o automóvel. Quase todos o utilizamos e precisamos dele. A questão é: quantas viagens precisam mesmo do automóvel e de que forma a nossa cidade nos pode ajudar a mudar hábitos?

A gratuitidade dos transportes públicos pode ser um bom caminho se for acompanhada de reforço da oferta, prioridade viária para reduzir tempos de viagem, reforço da intermodalidade e simplicidade de utilização. Combinar transporte público de qualidade, bicicleta e caminhada para distâncias curtas, mobilidade partilhada e políticas que tornem estes meios mais convenientes no centro são as estratégias mais comuns. Em 2026, com uma crise climática à porta, uma cidade preparada já não se mede pelas estradas que inaugura, mas pela forma como melhora a vida da sua comunidade a longo prazo, com efeitos duradouros na saúde e coesão cívica, fomentando o espírito de pertença. Guimarães merece estar na vanguarda europeia, potenciar o encontro humano e colher os seus frutos no futuro.

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