A IRREQUIETA REVOLVE ESPALHA A DESORDEM SONORA HÁ 10 ANOS

Foram aprendendo sozinhos, lançaram-se ao vazio da cena cultural vimaranense e vingaram — ou, pelo menos, continuam a lutar. A equipa cresceu, veio a parte editorial e hoje chamam público do estrangeiro. A Revolve celebra dez anos de histórias e música para contar.

© Bruno Carreira

A equipa da Revolve é inquieta. “O cérebro não para de trabalhar. Há sempre novas ideias, conceitos, fórmulas, cores ou formas de apresentar algo ao público”, diz Rui Dias, diretor de produção da editora e promotora vimaranense. Entrou na Revolve no final de 2012, ano em que Guimarães foi Capital Europeia da Cultura. Mas Miguel de Oliveira está na Revolve desde o início — ou seja, 2009.

Fazendo as contas, são dez anos de Revolve e de inquietação. Duas mãos cheias de programação cultural, de estrear bandas em solo vimaranense, de desafiar o público a abraçar sonoridades que testam convencionalismos. E, mais tarde, desde 2014, de edição musical. “Eu digo muitas vezes que não estávamos à espera e que não foi pensado. Mas o que nós fazemos é pensado e é com intenção, só que, na programação, a chegada de oportunidades foi sempre de improviso”, explica o Miguel. Fundou a Revolve com Bruno Abreu há dez anos pelo motivo mais simples de todos: “Queríamos ver concertos em Guimarães.”

A partir daí, a história conta-se ao longo de uma década em que a Revolve decidiu conjugar o verbo “arriscar” e fazer a cidade abraçar a causa. A custo, claro: “Era muito difícil marcar concertos em 2009. As pessoas não faziam nada a não ser estar na Oliveira. Só às 02h00 é que pensavam em ir ver um concerto ao Convívio ou ao Projeto, na altura, ou ao Momentos”, recorda. E foi esse bar, que, entretanto, deu lugar a outro, que acolheu o primeiro concerto com a marca Revolve, com o negrume psicadélico dos norte-americanos White Hills e os portugueses Black Bombaim, maestros do stoner rock. No mesmo ano, chamaram os isrealitas TV Buddhas e os Glockenwise a Guimarães. “Fomos buscar os TV Buddhas ao hotel às 02h00 e eles estavam tipo: ‘Vamos tocar agora?’”, conta Miguel.

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Facto é que tocaram às 03h00, agarrados aos “costumes estranhos” da audiência vimaranense que se prendia “em cadeiras de esplanada”, aponta Rui. “Depois descemos para a 01h00, a seguir para a meia-noite, 23h00. Tínhamos de estar à espera das pessoas para fazer a programação normal”, explicam. Tal como se dobram rotinas para fazer concertos às horas a que hoje nos vamos habituando — não só em Guimarães, como noutras cidades —, a Revolve também testou a abertura do público a novas ideias. Fizeram concertos intercalados com filmes, “em que uma tela onde se projetava um filme descia depois do final do espetáculo”, diz Rui, ou, mais tarde, quando apostaram no Agora Aqui, entretanto findado. “O nome até é bastante básico”, ri-se Miguel, “mas resumia a ideia”. “O Agora Aqui surge para dinamizarmos espaços da cidade, para se estabelecer um diálogo entre o património da cidade com bandas emergentes. Fizemos concertos no Largo da Câmara, no Largo dos Laranjais, no Paço dos Duques… É o que a Revolve faz”, resume Rui.

Amor, carinho e 1.200 euros

E a Revolve fez, como já foi referido, (muitas) coisas de improviso — mas também através da aprendizagem reunida ao longo dos anos. “Começando, foi tudo carolice. Não sabíamos quem alugava o som, a quem pedir licenças, como se fazia programação. Como se fazem as coisas”, recorda Miguel. Hoje, a equipa está estruturada — “é bom quando temos mais amigos a lutar pelos mesmos objetivos que nós”, ressalva o cofundador da associação — e cresceu para os sete membros. Miguel tem a seu cargo a editora e a direção de comunicação, Rui Dias é o diretor de produção (“sou a única pessoa com tempo para isso”, brinca). Na programação e agenciamento, Bruno Abreu. Pedro Ribeiro é o responsável pela direção técnica, ao passo que a comunicação da Revolve é cuidada por Sara Rosa Oliveira. Francisco Novais e Maurício Cunha juntam forças na produção.

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O primeiro Mucho Flow aconteceu em 2012 e decorreu no Largo do Trovador, com a Tasquinha do Tio Júlio ao lado, pregos a deslizar pelo balcão fora e o homem da casa a apoiar a causa da associação. Miguel diz que foi a primeira vez que a Revolve “perdeu dinheiro a sério”. “E continuamos a perder”, acrescenta. O primeiro Mucho Flow, que este ano chegou à 7.ª edição e que se espalhou pela cidade, com dois dias de música pela primeira vez, foi “feito só com amor, carinho e 1.200 euros”. Francisco Novais tocou nessa estreia do festival, que também marcou a primeira vez dos Tolouse, banda vimaranense, num palco. “Eles nunca tinham dado um concerto. Soubemos disso na véspera”, conta Miguel. “Isso diz muito sobre como as coisas são feitas. Tiveram de formar banda, não tinham os membros todos, tiveram de fazer novas músicas”, recorda. “Pelo menos correu bem para eles”, acrescenta Rui.

E se o Mucho Flow continua a dar cartas, expandido a sua audiência para o estrangeiro (houve gente de Madrid, Barcelona e Berlim a comprar bilhetes antecipados) e fazendo-se valer como um festival introspetivo, mas também uma experiência sonora, o Vai-m’à Banda é o verão a terminar e o sol a banhar as notas de música que ecoam por tascas e sítios marcantes da cidade. Foi a uma dessas tascas, a Expresso, que os membros da Revolve levaram os Pontiac. “Estávamos com eles na tasca Expresso… E eles acabaram por dar um concerto bem ‘regado’. Foi incrível, ficamos todos entusiasmados”, recorda Miguel. Depois, o repto: “Temos de fazer mais alguma coisa juntos, vamos lançar um disco!” E a banda respondeu: “‘Bora, ‘bora!” Miguel não pensava que a coisa se materializasse, mas acabou por acontecer — e o disco tem mesmo o nome “Revolve”. Hoje, no plantel há nomes como Chinaskee, PAPAYA, Tolouse, Montanhas Azuis ou Dada Garbeck.

© Bruno Carreira

E quem lhes dera que houvesse mais bandas para editar por cá. Porque, no fundo, tudo na Revolve “é feito com Guimarães como pano de fundo”. E os dois festivais são expressões “diferentes” da mesma organização. Ainda assim, ambos refletem as posições de quem os organiza, mas em dois polos: “a cabeça” (a introspeção, a noite, o frio do outono) no Mucho Flow e a “celebração” (a tradição das tascas, a ida à Penha, concertos no meio da natureza, o calor do verão) do Vai-m’à Banda, já que a Revolve levara artistas, noutros anos, a tascas que já frequentariam, como a Expresso.

A Revolve ainda não emprega ninguém e quem lá trabalha, fá-lo por gosto. “Mas gostávamos todos de trabalhar na associação a tempo inteiro. Toda a gente gostava de tirar algum rendimento, mas isto é dedicar horas de trabalho, depois do trabalho, do fim de semana”, diz Miguel. “Fica em prejuízo a família, as mulheres…”, acrescenta Rui, que diz existir “um futuro a ser preparado”. “Aos 70, se eu me quiser reformar, é bom que existam na Revolve gajos mais novos para dar seguimento”, atira, a brincar. Para já, o presente: são duas mãos cheias de história que, a bem ou a mal, com mais ou menos improviso, ficaram gravadas na memória cultural da cidade.

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