A Lei da Guerra

Por César Teixeira.

O dia 24 de fevereiro de 2022 vai ficar marcado na História da Humanidade. O (aparentemente) impensável aconteceu: a Rússia invadiu a Ucrânia. O símbolo do regresso à lei do mais forte. Que procura subjugar pelas armas outro Povo. Idosos, mulheres e crianças abandonam as suas casas e bens, em busca de refúgio. Arrasam-se infraestruturas. Arruína-se memórias, individuais e coletivas. Soldados morrem.

A Paz e a Liberdade foram colocados em crise. Na Europa Ocidental temos vivido um largo período de paz. Graças à NATO. Graças à UE. Só valorizamos a tranquilidade quando a perdemos. Nos últimos tempos, formos exacerbando divisões e fracionamentos internos. Mas o dia 24 relembrou a importância da Paz e da Liberdade. A reação do Ocidente demonstrou que o apego civilizacional a esses valores é muito mais forte do que o que internamento nos divide.

Muito se tem escrito, e muito se escreverá, sobre este conflito. Cerca de 30 dias após o início da guerra, deixo alguns tópicos reflexivos. Sobre alguns protagonistas e instituições.

Vladimir Putin. Cometeu tremendos erros de avaliação. Sobrestimou as suas capacidades militares. Inebriado pelas intervenções na Chechénia, Geórgia e Síria. Sobrestimou a sua influência sobre o Ocidente, que cuidava submetido aos interesses económicos. Sobrestimou a atratividade que a Rússia exercia no imaginário dos ucranianos. Ao invés, subestimou a resistência dos ucranianos. Do exército e do Povo. Subestimou a liderança do Presidente ucraniano. Subestimou a atração que os valores ocidentais exercem. Subestimou a força da opinião publica das democracias ocidentais. São assim os autocratas. Fiéis aos seus caprichos apenas têm capacidade para ouvir aqueles que os aplaudem. Incapazes de ouvir opiniões diversas. Isolam-se e, em espiral, vão diminuindo a sua adesão à realidade. Acentuando ilusões e devaneios.

Zelensky. Um Chefe de Estado que tem estado à altura das responsabilidades que o momento impõe. Motivou os ucranianos, assumindo a sua responsabilidade. Criou o drama suficiente para influenciar a opinião publica europeia, assim pressionando os líderes europeus. Antes da guerra Putin sorriria de escárnio do antigo comediante. Projetava com felicidade para si e para a Rússia um final glorioso. Mas hoje, mais do que nunca, teme ser o protagonista principal de uma tragédia grega.

NATO. Uma aliança militar defensiva. Constituída por Países que a ela aderiram. Livre e soberanamente. A atual crise demonstrou que a NATO continua a ser tão importante para a Paz quanto o foi após a II Guerra Mundial. Países como a Finlândia e a Suécia estão hoje, a ponderar aderir à NATO. Putin pretendia enfraquecer a NATO. Acaba a reforçar a NATO
Ucrânia: Dias antes da invasão militar, Putin desconsiderou a Ucrânia enquanto Nação. O facto indesmentível é que os ucranianos, mesmo nas zonas russófilas, têm resistido de forma tenaz à invasão. Quer na componente militar. Quer na componente civil. Mostrando que querem seguir o seu caminho e não o caminho que Putin idealizou para eles. Putin cuidava que os militares seriam recebidos como libertadores. Putin queria ganhar a Ucrânia, com os ucranianos. Putin perdeu, de vez, os ucranianos.

União Europeia. Após o Brexit a União Europeia estava com dificuldades. Internas e externas. Perante a ameaça externa, a UE volta a ser o porto seguro. Um garante de paz e desenvolvimento. Por isso mesmo, vários foram os países que manifestaram intenção de avançar com o processo de adesão.

Energia. A fé na globalização fez com que a UE tivesse abdicado de capacidade produtiva. Que tivesse depositado nas mãos de regimes autocráticos os fornecimentos de energia. Hoje, essas dependências são perniciosas e condicionadoras. Não me posso esquecer, neste momento, que a ligação dos gasodutos portugueses aos europeus foi uma batalha de Pedro Passos Coelho. Que esbarrou sempre nas opções do eixo franco-alemão.

PCP. Já se sabe que o PCP tem uma propensão para admirar regimes autoritários. Esta crise, dada a sua dimensão e magnitude, teve o condão de exibir quem está do lado da democracia e quem está do lado da tirania. A incapacidade de condenarem a invasão de um Estado soberano por outro é sintomática da opção. Entre a democracia e o autoritarismo, o PCP escolhe o autoritarismo. Entre o agressor e o agredido, o PCP escolhe o agressor. O PCP e o BE são partidos extremistas. Que advogam a saída de Portugal da NATO. Que colocam entraves na construção europeia. São partidos que atentam contra posicionamentos estratégicos do Estado Português.

ONU. Infelizmente esta crise evidencia também o ocaso da ONU. Sem peso político. Sem capacidade de influenciar. Sem autoridade para mediar. A ONU está atolada num pântano, no qual não se consegue movimentar.

Polónia. Um País até aqui demonizado. Mas que tem tido uma capacidade enorme para absorver o drama de milhares de refugiados. Sem regatear esforços. Sem hesitar. A UE também aprendeu a conviver com a diferença de posições. A diversidade traz riqueza.

Esperemos que aquando da receção do próximo artigo de opinião o clima mundial melhor.

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