A liberdade confinada

Por Tiago Laranjeiro

Que desafios enfrenta a nossa liberdade e democracia, celebradas em mais um aniversário da Revolução de Abril, no meio deste “Grande Confinamento”?

O coronavírus apresenta-se como a maior ameaça que o nosso estilo de vida, a nossa liberdade e democracia já viveram. Vivemos há um mês em estado de emergência, inédito desde os tempos quentes da Revolução. Estamos todos confinados ao espaço das nossas casas, dos nossos circuitos quotidianos mais curtos e imprescindíveis. E confinados, também por isso, ao nosso espaço interior – e para o qual o confinamento físico representa, efetivamente, um grande desafio. Condicionados na nossa capacidade para trabalharmos, circularmos, participarmos na vida coletiva, até para convivermos com a nossa família.

Temos aceite de uma forma globalmente positiva este confinamento. Ainda sem pararmos para pensar no impacto que está a ter, nem no que é preciso mudar, nas nossas instituições, nas empresas, no trabalho, na democracia.

Porque vemos o mundo a falhar à nossa volta. Das lojas e empresas fechadas, o comércio internacional parado, transportes vazios, os mercados financeiros num rápido colapso, inédito na sua velocidade. Destruição de valor numa escala nunca vista.

Assistimos impotentes ao terror que se vive em países com os quais partilhamos inúmeras afinidades, mesmo de regime, como é o caso de Espanha e Itália. E surpreendemo-nos com falta de reação em tempo útil das instituições da União Europeia, para as quais temos cedido parte da soberania, num processo nem sempre democrático e transparente. E como parte da nossa vida democrática foi “suspensa”, principalmente no poder local, com adiamento das assembleias municipais e de freguesia, e nos partidos e associações cívicas – sem que houvesse, até agora, um impacto significativo na vida dos cidadãos. Por cá, a Assembleia da República deu o exemplo durante umas semanas, mantendo-se a trabalhar com “serviços mínimos” para aprovar a legislação urgente para responder à crise, mas falhou-lhe o pé ao manter as comemorações da Revolução praticamente nos mesmos moldes habituais, como se o país e o mundo não estivessem fechados.

E ao mesmo tempo que vemos toda esta fragilidade à nossa volta, vemos também que as respostas mais sólidas, rápidas e eficazes estão a vir de países muito pouco democráticos, como a China. Daí que seja importante pensarmos no que é preciso mudar, se queremos manter a nossa liberdade, a nossa democracia e o nosso estilo de vida.

Precisamos de nos reinventar. No modo como vivemos, nas nossas famílias e em comunidade. Nas nossas instituições, algumas delas com séculos de existência, e atualizá-las a um novo normal. Com novos meios de participação e ação, capacidade para se adaptarem a uma realidade muito mais volátil e rápida.

Correndo o risco de, se não o fizermos por vontade própria, vermos essa mudança imposta pelas ameaças que enfrentam, desde os populismos a outros extremismos. Ou simplesmente a ruírem de velhas, ou por se tornarem incapazes de dar resposta ao que motiva a sua existência. A liberdade e a democracia são exigentes, dão trabalho para manter, e esse trabalho não é um exclusivo nem uma particular responsabilidade dos políticos eleitos. Da mesma forma que os portugueses aderiram massivamente à Revolução de Abril, precisamos de aderir massivamente à discussão de como mantermos a democracia viva e capaz de responder aos desafios do presente.

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