A WELTANSCHAUUNG PORTUGUESA

por PAULO NOVAIS
Professor de Sistemas na Universidade do Minho

O que seria de homens como o Infante Dom Henrique, Jules Vernes, Albert Einstein ou Elon Musk, sem esta dose de otimismo e ousadia, que nos leva a ver além da montanha e poder espicaçar o status quo, alterar a realidade e transformar o mundo?

Há muito que se fala e se reflete sobre a metáfora do “copo meio cheio ou meio vazio” e em que medida ela é representativa de uma visão do mundo, que na essência nos leva para uma questão de perspetiva.

A perspetiva remete para a representação tridimensional associada à ilusão de espessura e profundidade das figuras e, em particular, para conceitos como profundidade, ângulo de visão, enquadramento, vista e aparência. Por outro lado, pode ainda remeter para questões como esperança, receio, ponto de vista e previsão. Aponta claramente para uma ideia de que a experiência humana deve ser analisada sob um ponto de vista relativo e não absoluto do seu contexto. Um ponto de vista com o qual um indivíduo (ou uma sociedade) vê o mundo e os seus problemas em um dado momento (tempo), tendo em conta os valores culturais e o conhecimento acumulado daquela época.

Edmund Wilson (século XX) afirmava a este respeito que “duas pessoas nunca leem o mesmo livro”. No fundo quer dizer que a perceção de uma pessoa nunca é igual à de outra, devido às experiências de vida, valores, carácter e, também, do ângulo (ponto de vista e “janela”) pelo qual se observa naquele instante.

Uma outra ideia que se interliga com esta questão, que vem das ciências cognitivas, é o conceito (alemão) de Weltanschauung (Immanuel Kant, século XVIII) que alude a uma “visão de mundo geral” ou “perceção de mundo geral” de um povo, sociedade, comunidade, família. Esta visão resulta da acumulação de experiências e vivências comuns desse coletivo, modelando e configurando uma forma comum de “ver” o mundo.

Numa abordagem (necessariamente simplista), a ideia de copo meio cheio ou meio vazio está associada a uma visão otimista ou pessimista do mundo. A Weltanschauung “portuguesa” é (na minha opinião) uma visão fortemente influenciada pela abordagem pessimista. Normalmente, observamos analisando as limitações, os constrangimentos, as dificuldades e muito pouco pelo lado da oportunidade, do desafio e da expansão. Seremos adversos à mudança ou gostamos mais do “lado negro da força” como diria Skywalker (personagem da saga da Guerra das Estrelas)?

Um interessante estudo de Miguel Real (2011) “O Pensamento Português Contemporâneo (1890-2010) – O Labirinto da Razão e a Fome de Deus” analisa a evolução do pensamento português e em que medida ele é consequência de uma certa repressão exercida pelas instituições: Estado, Universidade e Igreja, bem como pela incapacidade de gerar conhecimento e de inovar. Estas instituições detentoras de “todo” poder político, científico e cultural, não foram, historicamente ao longo dos tempos, capazes de impulsionar, desenvolver e promover a disseminação de novo conhecimento (e ideias).

Evidentemente que, como diria José Ortega y Gasset (século XX), “Nós somos nós e as nossas circunstâncias”. Os Portugueses seguem o seu fado e a sua tendência para ver o copo meio vazio. Aqui se pode levantar a questão: será que ter uma atitude mais otimista é sempre melhor do que ter uma mais pessimista?

Sendo verdade que, por exemplo, os homens do direito têm de analisar os processos e descobrir os possíveis problemas, os profissionais da saúde, ao fazerem diagnósticos, devem sempre procurar os piores cenários, por sua vez, o otimismo joga um papel essencial em profissões que necessitam de grande dose de assertividade, ousadia, criatividade e empreendedorismo, tais como os vendedores, empreendedores, cientistas e escritores.

O que seria de homens como o Infante Dom Henrique, Jules Vernes, Albert Einstein ou Elon Musk, sem esta dose de otimismo e ousadia, que nos leva a ver além da montanha e poder espicaçar o status quo, alterar a realidade e transformar o mundo? Até porque “um artista não é pago pelo seu trabalho, mas pela sua visão” James Whistler (Século XIX) e “um homem que não se alimenta de seus sonhos, envelhece cedo” William Shakespeare (século XVI).

 

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