Agruras do Zé Privado venturas do Zé Público

por Esser Jorge Silva Sociólogo

Zé Privado é assim conhecido porque a sua vida profissional se faz na atividade económica civil. Trabalha para outrem apesar da linguística o trair quando afirma que trabalha “por conta de outrem”. Faz toda a diferença porque na vida civil o “outrem” não toma conta de ninguém. Pelo contrário. Se Zé não servir, não tiver resultados e desempenho positivo; se Zé não contribuir para o aumento da faturação e o seu desempenho não ajudar ao aumento das margens de comercialização, Zé não serve para o ofício. Logo, se Zé não tem préstimo, não tem emprego. É tudo muito simples.

Desde que se instituiu esta estranha forma de vida confinada, Zé Privado passou a andar com o coração nas mãos. É que o “outrem” que dele devia tomar conta deixou de ter atividade. Alguns empresários, os tais “outrem”, ainda se esforçaram corroendo as poupanças assim esperando que a solução para a pandemia viesse rápido. Mas, com a atividade parada e sem solução à vista, foi-se o cash-flow e nem para si o empresário passou a ter.

Na empresa onde trabalha Zé Privado viu instalar-se o layoff, figura que Zé, tal como a maior parte dos jornalistas da praça, sabia existir mas desconhecia o que era na prática. Agora Zé Privado sabe: layoff quer dizer suspensão temporária do trabalho e redução do salário por determinado tempo em que não há atividade. Zé Privado já sabia que quando tudo corre bem na sua empresa há lucros a distribuir para acionistas. Quando tudo corre mal cabe-lhe contribuir para a desgraça reduzindo ao seu contrato de trabalho.

Mas Zé Privado sabe que na esfera económica em que trabalho há essa coisa de “mão invisível”, uma mão que tira e nunca põe. Se a isso se juntar um bicho invisível que instalou o pânico e fez refugiar a população em casa, Zé Privado sabe que só lhe resta entrar para as estatísticas do desemprego. Ainda não se passaram dez anos desde que por lá andou. Teve que se readaptar, tirou um curso, passou a servir à mesa e até já fala algum estrangeiro. Viu os rendimentos reduzirem brutalmente mas, ao fim de alguns anos, deu graças a ter trabalhinho que é coisa sagrada nesta sociedade. Por isso Zé Privado prepara-se para mais uma travessia do deserto. Literalmente. Mas Zé Privado é calejado. Vai perder a casa, o carro e, provavelmente, os filhos já não irão para a universidade. Mas Zé sabe que a vida é assim, cheia de imprevistos. Uma desgraça.

Zé Público anda preocupado; um espectro ronda o mundo, o espetro da pandemia. Todo o mundo atira-se a esse bicho e, Zé Público sabe-o, mais tarde ou mais cedo uma solução parecerá. É necessário esperar que tudo mude para que tudo volte a ficar como era dantes. Entretanto é preciso resguardar-nos de qualquer tormenta. A solução é não sair de casa, contactar com o menor número de pessoas. Não nos expormos. São precisas medidas para proteger os servidores públicos. Sim, porque todo o Zé Público é um servidor que contribui para o Estado funcionar. Pode haver Estado, mas se não funcionar de nada serve. Por isso é o funcionário quem dá atividade Estado.

Se é o funcionário a peça mais importante na atividade do Estado então proteja-se o funcionário. Separe-se a sua órbita das outras órbitas. Afaste-se qualquer hipótese de contacto de uns com outros. Inclusive dos outros funcionários. Nesta pandemia há que manter cuidados e se há quem saiba cuidar é Zé Público. E a melhor forma de defesa do Zé Público é… encerrando as portas do que é público. Limitar esses encontros perigosos e indesejáveis com pessoas que andam por aí de um lado para o outro em atividades civis é imperioso. Portanto encerrem-se os Centros de Saúde, diminuam-se as consultas de especialidade no Hospitais, reduzam-se os julgamentos nos tribunais, afaste-se a possibilidade de contactos nas escolas. Quem precisar de passaportes, cartões de cidadão, certidões, cédulas, comprovativos, consultas de rotina nos médicos de família, serviços de segurança social ou centros de emprego que faça marcação para ser tele-atendido.

Sim, tele-atendido, qual é a dúvida! Não vamos expor o Zé Público assim sem mais nem menos. Além de funcionário Zé Público é património do Estado. E o Estado não se delapida assim sem mais nem menos. Aliás, é dos cânones: todo o Estado protege os seus, certo. Portanto é compreensível o teletrabalho, o tele-atendimento, as teleconferências, as telereuniões. Assim, para além do permanente clean-safety das instalações, diminuem-se os riscos de contaminação dos espaços. Deste modo se um Zé Público se infetar em sua casa, um sem número de Zés Públicos salvam-se da contaminação.

Surge aqui uma razão escondida. Já era tempo do Zé Público ter um aumento salarial que se visse. Zé Público, experimentou e percebeu que as atividades à distância fazem desaparecer uma série de despesas. Já não é preciso combustível e manutenção para o carro; fazem-se as refeições no ninho, não se gasta roupa, não há custos sola do sapato, poupa-se no perfume e, com jeito, até se ajuda à ecologia reduzindo a água do banho. É por isso que se assiste a tanta defesa do teletrabalho, o ensino por e-lerning, o uso do Teams e do Zoom-colibri como solução do futuro pós-pandémico para o público funcionar. Trata-se do Zé Público a inovar em tempo de crise. Exatamente como mandam a leis gerais da inovação.

Enquanto isso a dívida do Estado aumenta todos os dias. É assim, para proteger os seus que o Estado se esquece de si. É evidente que a culpa é do Zé Privado, esse cidadão desestruturado e incompetente que não se aguenta e abana sempre que há uma tempestade. Um esquizofrénico que não consegue segurar o emprego ao longo da vida, manter satisfeito o empregador, viver em segurança permanente e, essencialmente, fazer como o Zé Público: nunca deixar de contribuir ativamente para o engrandecimento de um Estado endividado.

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