Ai Weiwei trouxe a Guimarães as histórias por trás das três obras da Contextile

Artista falou das três intervenções que criou para a cidade, da relação com os têxteis e da presença da guerra na sua obra.

@ Contextile

Ai Weiwei esteve em Guimarães, a 2 de outubro, para uma conversa pública no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), integrada na Contextile 2026, Bienal de Arte Têxtil Contemporânea, sob o tema «By a Thread». O artista dialogou com Susana Milão, cocuradora e cofundadora da Contextile. A sessão incluiu ainda a apresentação pública da monografia dedicada às suas intervenções na cidade e a projeção do documentário «Human Flow» (2017).

A participação de Ai Weiwei na Bienal desenvolve-se em três locais: CAMOUFLAGE, na praça da Plataforma das Artes e da Criatividade; NET, nos Tanques de Couros; e FABRICATION, no interior do CIAJG. As obras relacionam o património têxtil de Guimarães com memória, conflito, proteção e resistência.

Os têxteis como memória

Colecionador de têxteis chineses antigos, o artista disse ter-se sentido emocionalmente envolvido com a Bienal desde o convite. Recordou que, desde tempos muito antigos, as pessoas valorizavam o que vestiam, “esta outra camada de pele”, sentido que, na sua opinião, se perdeu com a Revolução Industrial.

Lembrou trabalhos anteriores com tecidos, como a fachada feita em Munique, em 2009, com mochilas de estudantes vítimas do sismo na China, e as obras com coletes salva-vidas abandonados por refugiados em Lesbos, apresentadas em Berlim. “Sou um artista têxtil? Não sei, mas uso tecidos”, afirmou.

A guerra na Ucrânia e a rede como paisagem

As intervenções em Guimarães convocam a experiência do artista na Ucrânia, onde esteve quatro vezes, em cidades como Kiev, Kharkiv e Odessa. Perante a ameaça dos drones, veículos, navios e estradas passaram a ser cobertos com redes, que se tornaram, nas suas palavras, “uma paisagem moderna”, usada “pela proteção da vida, por necessidade”.

Sobre CAMOUFLAGE, Ai Weiwei revelou que o padrão não é uma verdadeira camuflagem militar: foi desenhado com gatos, porque não gosta de imagens militares. Descreveu também o processo de BEDDING, apresentada em FABRICATION, em que fardas militares destruídas foram transformadas em fio e depois em tecido. Em Guimarães, a cadeia envolveu a desmontagem das peças por trabalhadores comunitários, a reciclagem das fibras na Valerius 360 e a produção do novo tecido na Lameirinho. O tecido áspero e o motivo do dedo médio repetido aproximam o corpo disciplinado da farda e o corpo em repouso.

@ Contextile

@ Contextile

Fragilidade e território em paz

A conversa deteve-se na fragilidade das obras. Susana Milão lembrou que a chuva e o vento dos últimos dias rasgaram partes da cobertura de CAMOUFLAGE, associando esse desgaste à imagem de uma camuflagem suspensa sobre trincheiras numa floresta ucraniana. Ai Weiwei sublinhou que a vulnerabilidade faz parte do sentido da obra: o sol e a chuva podem destruí-la, “tal como a vida pode ser destruída”.

É nesta tensão que assenta a leitura curatorial do projeto. A camuflagem e as redes antidrone, que na Ucrânia protegem vidas, surgem numa cidade em paz, num espaço público atravessado por visitantes. As instalações não funcionam como dispositivos de proteção militar, mas colocam uma pergunta: queremos cobrir as cidades com camuflagem e redes antidrone? A segurança de quem atravessa a praça não é a de quem vive sob ameaça, e é essa diferença que as obras mantêm presente.

Do espaço público ao património

Em CAMOUFLAGE, o público passa sob a cobertura e habita a sua sombra. Em NET, a rede cobre os Tanques de Couros, antigo bairro de curtumes, hoje classificado pela UNESCO e destinado sobretudo a ser contemplado. Feita para ocultar, a camuflagem torna-se aqui aquilo que se mostra. O artista reconheceu o desafio de intervir neste lugar e explicou que a solução em bambu permitiu uma estrutura temporária e reversível, que não prejudica o património. “A rede é como uma nuvem verde; reflete a luz e o sol”, descreveu.

Em FABRICATION, no CIAJG, apresenta dois conjuntos de têxteis da sua coleção, com cerca de mil e dois mil anos, procurando estabelecer uma ligação entre as emoções antigas associadas aos tecidos e o presente: tecidos para salvar vidas, ligados a memórias trágicas e, também, à guerra em curso.

No final, Ai Weiwei elogiou a exposição internacional da Bienal e o trabalho dos outros artistas participantes, afirmando ver a mostra “a um nível internacional muito elevado”.

PUBLICIDADE
Arcol

NOTÍCIAS RELACIONADAS