Amor e poesia em tempo de pandemia

por António Rocha e Costa
Analista clínico

Os meus amigos e conhecidos estão desaparecidos em combate, no combate contra o Corona vírus.

Entrincheirados nos seus domicílios fiscais, assomam de quando em vez às janelas ou sacadas e gritam canções para acordar a cidade muda e quieta ou quiçá, para espantar o inimigo viral que paira no ar. O mesmo faz o grilo, que sai da toca, mal surgem os primeiros dias de calor.

Impedidos de contactar com o exterior e com a realidade, esta é-nos “servida” pelas rádios, televisões, e redes sociais como quem serve comida ao domicílio, ou não se tratasse do alimento do espírito.

Tal como na alegoria da caverna de Platão, em que os personagens recebem a realidade exterior através das imagens projetadas no fundo da caverna e dos sons que ecoam nas suas paredes, também nós, seres cavernícolas em confinamento, somos obrigados a tomar as imagens pela realidade, com a diferença de que os habitantes da caverna de Platão jamais haviam conhecido a realidade exterior, pelo que, para eles, a realidade confundia-se com as imagens.

Neste contexto, a minha atenção tem-se voltado por estes dias para as notícias ou factos relacionados com a nossa cidade e, de olhos e ouvidos alerta, lá consegui captar duas situações, que, por curiosidade, passo a partilhar com os leitores do “Mais Guimarães”.

Ambas as situações têm a ver, directa ou indirectamente com a cultura, marca distinta da urbe afonsina, que teve o seu ponto culminante em 2012, ano em que Guimarães foi Capital Europeia da Cultura. Que saudades tenho desses tempos, mas também dos eventos culturais que o Vila Flor ou a Plataforma das Artes, nos “serviam” semana a semana e que agora estão suspensos, não podendo ser entregues ao domicílio, via “Ubereats” ou outra plataforma similar. Bem sei que têm sido passadas reposições de espectáculos via on-line mas não é exactamente a mesma coisa.

Vamos então aos factos:

No último sábado, no programa “5 minutos de Jazz”, na Antena 2, Zé Duarte, uma das figuras maiores da divulgação deste género musical em Portugal, confessava a existência de um romance antigo com a cantora de Jazz americana Betty Carter, que tendo começado há uns anos em Nova Iorque, terá tido o seu ponto mais alto num hotel em Guimarães, durante o Guimarães-Jazz, referência maior do panorama cultural vimaranense.

Há dias, no “Governo Sombra”, que vai para o ar nas noites de sexta-feira, numa conhecida estação televisiva, o coordenador do programa, Carlos Vaz Marques citava, a propósito dos tempos que vivemos, um excerto de um poema de Carlos Poças Falcão, poeta vimaranense, cuja obra está longe de ter a divulgação que merece.

Com a devida vénia, como manda a etiqueta social, concluo transcrevendo o poema citado:

“O quarto agora é o mundo todo
nem maior nem menor
que o mundo inteiro

dantes ia eu
aos múltiplos lugares
venham agora
esses lugares a mim.”

P.S : Em tempo de pandemia aconselha-se a substituição do aforismo “tempestade no mar, gaivotas em terra” por este outro mais condizente: “COVIDE no ar, aviões em terra”.

 

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