As leituras dos rankings das escolas

Os rankings das escolas, com base nos resultados dos exames nacionais do 9º ano e do secundário, baseados nos números divulgados pelo ministério da educação, referentes ao letivo 2018/19, invadiram a comunicação social, ao longo da semana passada. Além da polémica que sempre arrastam, estes números podem dizer-nos alguma coisa sobre a educação em Guimarães.

Num país com pouco mais de 200 quilómetros de largura, um concelho como Guimarães, a 50 quilómetros do mar,  a pouco mais de meia hora de carro da costa, já fica na fronteira entre o interior e o litoral. Quando se trata do ensino secundário, se compararmos Guimarães com os concelhos que ficam a sul e a leste, Fafe, Póvoa de Lanhoso, Felgueiras e Vizela, os resultados vimaranenses são em média melhores. O caso muda de figura quando nos viramos para oeste e para norte. Os concelhos de Vila Nova de Famalicão, Santo Tirso e Braga apresentam, em média melhores resultados nos exames nacionais do ensino secundário.

Ao nível dos exames do 9º ano, esta tendência este-oeste é menos óbvia. Há uma vantagem de Guimarães relativamente aos municípios a leste, mas, neste caso, as médias dos alunos dos concelhos mais próximos do litoral são até inferiores às dos alunos vimaranenses, embora com números muito próximos.

A interioridade como critério para avaliar o sucesso escolar é muito relativa. Há concelhos no litoral com maus resultados e concelhos no interior com resultados bons. Ainda assim, percorrendo a costa de norte a sul, há quatro concelhos costeiros com média negativa nos exames do secundário: Óbidos, Murtosa, Setúbal e Alcácer do Sal. Se fizermos o mesmo exercício percorrendo a raia, entre Bragança e Vila Real de Santo António, encontramos oito: Miranda do Douro, Mogadouro, Sabugal, Idanha-a-Nova, Portalegre, Elvas, Moura e Vila Real de Santo António.

À nossa latitude, a média dos exames do secundário, analisada do litoral para o interior: Póvoa do Varzim (12,36), Vila Nova de Famalicão (11,97), Guimarães (10,87), Fafe (10,23), Cabeceiras de Basto (9,51), Ribeira de Pena (9,19).  Consistentemente os resultados baixam à medida que nos afastamos do litoral.

Confederação de pais não gosta dos rankings

Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), defende que a importância dos rankings de escolas “é muito relativa”. Para o líder da Confap “é preciso alterar o atual paradigma de acesso ao ensino superior”. As associações de país não concordam que o acesso ao ensino superior possa estar condicionado ao resultado que o aluno obtém numa prova de duas horas. Para a Confap é mais importante medir a qualidade do ensino nas diversas escolas do que conhecer as avaliações dos alunos.

Jorge Ascenção voltou a defender que “é preciso alterar o atual paradigma de acesso ao ensino superior”, que não pode estar dependente apenas do que um aluno consegue mostrar durante uma prova de duas horas. Para os pais, o importante não é conhecer quais as avaliações dos alunos, mas, sim, a qualidade do ensino das diferentes escolas.

Ser pobre e, mesmo assim, ter bons resultados

Há várias ferramentas que permitem  lançar um olhar diferente para os resultados dos alunos. O jornal Público cruzou os resultados dos exames com o número de  alunos abrangidos pela Ação Social Escolar. Neste ranking os “campeões” são outros. Concelhos que tendo um número muito acima da média de alunos abrangidos pelos apoios da Ação Social Escolar (mais pobres), conseguem, nessas condições, aproximar-se ou até ultrapassar a classificação média nacional nos exames. Valpaços, Cinfães, Baião, Aguiar da Beira são municípios de que habitualmente não se fala neste contexto, neste caso são os que melhor ficam no retrato.

Ainda recorrendo à analise do Público, ficamos a saber que, entre os alunos do ensino secundário, em Guimarães, há 27,44% que recebem apoios da Ação Social Escolar. A media dos exames do ensino secundário em Guimarães é 10,66. Comparativamente, Aguiar da Beira, com muito mais alunos carenciados – tem 54,50% a receber apoios da Ação Social Escolar – , faz melhor, uma vez que a média dos exames no concelho é 10,95.

Outro exemplo positivo, neste “campeonato”, é Valpaços. No concelho transmontano, 62% dos alunos do secundário recebem apoios da Ação Social Escolar, ainda assim, a média nos exames nacionais é de 10,43. Um resultado muito próximo de Guimarães, ou de Braga que tem 26,53% de alunos carenciados e uma média em exames de 10,81.

Um outro olhar sobre os rankings

Uma outra forma de encarar a questão é valorizar o percurso dos alunos, ao invés de colocar a tónica numa única prova. A Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência disponibiliza uma ferramenta que compara o percurso dos alunos de uma determinada escola com todos os estudantes do país que, anteriormente, tinham um desempenho escolar semelhante. Neste caso as escolas secundárias de Guimarães andam entre a posição 57,  Escola Básica e Secundária Santos Simões e a posição 412, Escola Secundária Francisco de Holanda. Isto num universo de 506 escolas, em que as três primeiras são escolas públicas. A terceira classificada a nível nacional é Escola Básica e Secundária Dr. Machado de Matos, do vizinho concelho de Felgueiras.

“Os rankings são mentirosos”, Francisco Teixeira

Para o professor de filosofia da Escola Secundária Francisco de Holanda, doutorado em filosofia, com uma especialização em organizações educativas e administração educacional, “os rankings são perniciosos”. Francisco Teixeira lembra que há fatores que um exame não pode avaliar e ilustra com o exemplo dos estudos que demonstram que o nível de educação da mãe é determinante no sucesso escolar dos filhos. Para este professor, é óbvio que os colégios particulares têm melhores resultados, “os alunos são, regra geral, filhos de pais ricos. Mal seria se partindo com vantagem não atingissem melhores resultados!”

Francisco Teixeira afirma que a publicação dos rankings “é uma tentativa de simular que existe um mercado de educação em Portugal. Em que a escola que fica mais bem classificada no ranking é melhor que a outra, mas tal não é verdade”. O professor lembra um estudo que demonstra que os alunos das escolas públicas têm melhores resultados na universidade que os do ensino privado. “Os rankings são mentirosos”, conclui Francisco Teixeira. Para este professor o que acontece em algumas escolas é uma preparação “mecânica” dos alunos para responderem a exames que têm muito pouca variação.

Uma acusação que frequentemente é feita às escolas privadas é a de inflacionarem as notas dos seus alunos. Nos rankings agora publicados, na região, essa acusação não parece fazer sentido. As diferenças entre as notas de exame e a nota interna nas escolas de Guimarães variam entre 2,74, e 3,18: Escola Secundária Martins Sarmento (3,03); Escola Secundária Francisco de Holanda (2,74); Escola Básica e Secundária Santos Simões (3,18); Escola Secundária de Caldas das Taipas (3,09). A diferença entre a nota de exame e a nota interna no Colégio D. Diogo de Sousa (Braga) foi 2,11 e no Colégio João Paulo II (Braga), 1,95. Quer dizer que nesta análise, muito focada na região, houve uma diferença menor entre as notas internas e as notas de exame nas escolas privadas.

Embora nos exames de 9º ano a questão não seja tão relevante, porque ainda não está em causa o acesso ao ensino superior, a tendência mantem-se. É em algumas escolas públicas que se verifica a maior discrepância entre notas internas e externas. É o caso da Escola Básica de Briteiros, com uma diferença de 0,62, contra os 0,11 do Colégio de Nossa Senhora da Conceição ou os 0,14 do Colégio do Ave. No caso dos exames do 9º ano é numa escola pública que as notas internas são mais próximas das de exame, trata-se da Escola Básica Professor Abel Salazar (0,06).

Francisco Teixeira defende que as notas internas têm que ser mais altas que as notas de exame e que “se não for assim, alguma coisa está mal”. O professor lembra que há componentes que não são nem podem ser avaliadas num exame, “como por exemplo a oralidade”. Francisco Teixeira aponta para uma diferença entre 1,5 e 2,5, no caso do secundário, como sendo perfeitamente normal.

Para quem prefere a crueza dos números, o ranking das escolas secundárias diz-nos que a melhor escola de Guimarães em 2018 era a Secundária das Taipas, no lugar 119, nesse ano, a mais mal classificada do concelho era a Escola Básica e Secundária Santos Simões, na posição 455. Em 2019 a melhor escola do município aparece um bom bocado mais abaixo, na posição 186, por outro lado a escola mais mal classificada fica pelo lugar 287. Desceu a melhor subiu a pior, é o copo meio cheio ou meio vazio.

Ao nível do ensino básico, as duas escolas mais bem classificadas de Guimarães, de 2018 para  2019, mantém-se: Colégio Nossa Senhora da Conceição e Colégio do Ave. O Colégio do Ave continua a ser líder, mas caiu, de quinto a nível nacional para 21º, ao passo que o Colégio do Ave subiu vinte posições, de 73º para 53º.

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