ASMAV assinala 160 anos e reafirma o compromisso com Guimarães, a cultura e a liberdade
Francisco Teixeira, presidente da direção, destacou o percurso histórico da Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense, a sua intervenção na vida pública de Guimarães e a importância do associativismo como forma de construir uma sociedade mais livre e solidária. A sessão solene deste domingo encerrou três dias de comemorações.

@ Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
A Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense (ASMAV) assinalou este domingo, 11 de outubro, 160 anos de atividade associativa, com uma sessão solene no renovado Salão Nobre da instituição, em Guimarães. No discurso comemorativo, Francisco Teixeira, presidente da Associação, evocou a história da instituição, desde a sua fundação até à atualidade, sublinhando o papel que desempenhou na proteção dos trabalhadores, na promoção da instrução pública e na participação cívica e cultural do concelho.
“A história da Associação Artística confunde-se, em muitos aspetos, com a história social, cultural e cívica de Guimarães nos últimos 160 anos”, afirmou Francisco Teixeira, enquadrando o percurso da ASMAV nas transformações económicas e sociais que marcaram os séculos XIX, XX e XXI.
A instituição nasceu num período em que os trabalhadores não dispunham dos atuais mecanismos de proteção social e enfrentavam situações de vulnerabilidade perante a doença, a incapacidade para o trabalho e a perda de rendimentos. A resposta passou pela organização coletiva e pela criação de mecanismos de entreajuda entre associados.

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Francisco Teixeira recordou que a Associação assumiu, desde os primeiros anos, uma missão que ultrapassava o apoio financeiro aos seus membros. Os estatutos contemplavam assistência em situações de doença e incapacidade, apoio às viúvas e às famílias dos associados e a possibilidade de assegurar o percurso escolar dos seus filhos.
“A solidariedade não deveria depender exclusivamente da caridade, mas resultar também da responsabilidade coletiva e de um princípio de justiça”, destacou o presidente, sublinhando a importância de uma organização que procurou responder às necessidades dos trabalhadores através da cooperação e da autonomia associativa.
A ASMAV surgiu ligada às artes manuais e manufatureiras, reunindo trabalhadores de diferentes ofícios. A sua história representa, assim, também um percurso de afirmação da dignidade do trabalho e da capacidade dos cidadãos para se organizarem em torno de objetivos comuns.
Uma associação com intervenção na vida pública
A intervenção de Francisco Teixeira destacou igualmente a participação histórica da ASMAV no desenvolvimento de Guimarães. Ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX, a instituição envolveu-se em iniciativas relacionadas com a formação profissional, a instrução pública e a modernização das infraestruturas.
A defesa da criação de uma escola industrial e a reivindicação de melhores ligações ferroviárias ao concelho foram exemplos dessa intervenção. Para o presidente da Associação, estas posições demonstravam uma conceção de associativismo que não se limitava à assistência social, procurando também criar condições para o desenvolvimento económico e para a melhoria das oportunidades dos trabalhadores.

@ Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Esta dimensão educativa, cultural e cívica permanece, segundo Francisco Teixeira, central na identidade da instituição. Ao longo dos seus 160 anos, a ASMAV atravessou a monarquia constitucional, a Primeira República, o Estado Novo e a democracia contemporânea, mantendo a sua atividade associativa num contexto de profundas mudanças políticas e sociais.
O presidente destacou também o valor histórico do edifício-sede, na Rua de Gil Vicente, projetado pelo arquiteto Nicola Bigaglia. Concebido para acolher os serviços da Associação, o imóvel tornou-se igualmente um espaço de reunião, convívio e atividade cultural, assumindo um lugar próprio na história da cidade.
A história do edifício inclui episódios que ilustram as tensões ideológicas e religiosas de diferentes épocas, nomeadamente a polémica em torno do emblema original da Associação, em 1905. A evocação deste episódio permitiu recordar a defesa da identidade e da autonomia de uma instituição que se afirmou fora do enquadramento religioso.
Da crise à revitalização
O percurso da ASMAV não foi, contudo, linear. Francisco Teixeira reconheceu que a instituição enfrentou, ao longo do século XX, dificuldades financeiras, responsabilidades crescentes e uma diminuição da base associativa, particularmente acentuada entre as décadas de 1970 e 1990.
A expansão dos sistemas públicos de proteção social alterou também as funções tradicionais das associações mutualistas, obrigando-as a adaptar a sua missão a uma realidade diferente daquela em que tinham sido criadas.

@ Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Apesar dessas dificuldades, a ASMAV preservou a sua identidade e continuidade institucional. Atualmente, a recuperação do património edificado e a redefinição da intervenção pública abriram caminho a uma nova etapa, marcada pelo reforço da atividade cultural e cívica e por uma maior abertura à comunidade.
“A continuidade da Associação constitui, por si mesma, um testemunho da persistência de um património associativo que atravessou diferentes regimes políticos e a democracia portuguesa contemporânea”, sublinhou Francisco Teixeira.
Entre as atividades destacadas no discurso encontram-se as comemorações do 25 de Abril, a Marcha Republicana, o Festival de Canto Lírico de Guimarães e o Torneio de Retórica, dirigido a jovens do ensino público do concelho. A programação inclui ainda encontros e debates com protagonistas da vida política, social e cultural portuguesa.
O objetivo, explicou o presidente, passa por fazer da ASMAV um espaço de encontro e discussão, aberto a diferentes perspetivas e capaz de contribuir para uma comunidade mais informada e participativa.
“A solidariedade é uma forma de construir a liberdade”
Na evocação dos 160 anos, Francisco Teixeira defendeu que a longevidade da ASMAV deve ser entendida não apenas como um marco cronológico, mas também como a continuidade dos princípios que estiveram na origem da sua fundação.
“Os trabalhadores que, em 1866, se associaram não procuravam apenas proteger-se das adversidades. Procuravam também afirmar a dignidade do trabalho, a importância da solidariedade e a possibilidade de participar ativamente na construção da sociedade”, afirmou.
O presidente considerou que, apesar das mudanças políticas, sociais e económicas, permanece atual a ideia de que a organização coletiva pode contribuir para uma sociedade mais justa. Nesse sentido, a história da ASMAV constitui uma referência para a reflexão sobre o papel do associativismo no presente.

@ Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
“A convicção de que uma comunidade se torna mais livre, mais justa e mais solidária quando os seus cidadãos se organizam, cooperam e assumem responsabilidades cívicas” continua a orientar a identidade da Associação, defendeu.
Francisco Teixeira aproveitou ainda a ocasião para homenagear as gerações de associados que contribuíram para a preservação da instituição ao longo de mais de século e meio, salientando a importância de assegurar a continuidade do seu património material e imaterial.
A mensagem final ficou sintetizada numa ideia que atravessou o discurso: “A história da ASMAV é, afinal, a história de uma ideia que atravessou três séculos: a de que a solidariedade é uma forma de construir a liberdade. E que a liberdade ganha sentido quando se transforma em responsabilidade perante os outros.”
Três dias de iniciativas encerram programa comemorativo
A sessão solene deste domingo marcou o encerramento do programa comemorativo dos 160 anos da ASMAV, que decorreu entre 9 e 11 de outubro, sob o lema “In Arte Fraternitas”.
As celebrações começaram na sexta-feira, dia 9, com a sessão “A Europa como Utopia Universal”, que contou com Francisco Assis e Miguel Poiares Maduro, com moderação de Helena Fernandes.
No sábado, dia 10, realizaram-se duas sessões de debate. A primeira, às 15h30, foi dedicada à questão “Os homens ainda têm um problema com as mulheres?”, com Eva Cruzeiro e moderação de Inês Salgado. Às 17h30, André Coelho Lima e Ricardo Sá Fernandes participaram no debate “A liberdade está mesmo ameaçada?”, moderado por Tomás Bravo.
O programa terminou este domingo, com a sessão solene de aniversário no renovado Salão Nobre.





