Bruno dos Reis destaca “herança como trampolim” na nova edição dos Festivais Gil Vicente

Os Festivais Gil Vicente regressam a Guimarães entre 4 e 13 de junho de 2026 com uma edição que coloca a ideia de “herança” no centro da programação e da reflexão artística.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Promovido pelo Teatro Oficina, em coorganização com o Município de Guimarães e o Círculo de Arte e Recreio, o festival volta a ocupar vários espaços da cidade, incluindo o Centro Cultural Vila Flor, o Teatro Jordão, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães e a sede do Convívio – Associação Cultural, reunindo criações de diferentes origens, projetos emergentes e obras do panorama nacional.

Em entrevista ao Mais Guimarães, o diretor do Teatro Oficina , Bruno dos Reis, sublinha que a palavra “herança” é o ponto de partida, mas também um motor de futuro. “Neste caso, estamos a falar de várias heranças ao mesmo tempo”, afirma, sublinhando que o festival carrega um peso histórico e simbólico muito significativo para a cidade e para o país.

Segundo Bruno dos Reis, essa herança começa na própria história dos Festivais Gil Vicente, mas estende-se também ao legado literário e teatral associado à figura de Gil Vicente e à sua importância na inovação do teatro português.

“Os Festivais carregam um peso enorme para Guimarães e para o país. Há um ideário em torno de Gil Vicente, ligado à inovação do património teatral português. É um festival que já carrega consigo muita responsabilidade”, explica.

No entanto, o diretor artístico acrescenta que esta herança não se limita ao passado institucional ou artístico, abrangendo também dimensões culturais, sociais e familiares. “Há uma herança familiar, uma herança social, uma herança cultural. E há também a herança do repertório teatral e literário que chega através dos espetáculos. Tudo isto, apesar de parecer pesado, pode ser um ótimo trampolim para o futuro”, sublinha.

Um dos eixos centrais desta edição é a aproximação do festival ao território de Guimarães, reforçando a ligação entre criação artística e comunidade local. “O nosso objetivo é uma maior aproximação àquilo que é o território”, afirma Bruno dos Reis, destacando a participação ativa de criadores locais e jovens da cidade em vários projetos.

Entre os exemplos, refere o espetáculo de abertura, desenvolvido com 12 jovens que vivem ou estudam em Guimarães, alguns deles na Universidade do Minho, bem como leituras encenadas e colaborações com instituições locais. “Há vários espetáculos que serão trabalhados com pessoas da região. Existe um gesto evidente de aproximação à comunidade em toda a programação do festival”, reforça. Apesar desta forte ligação ao território, o festival mantém uma dimensão internacional.

A programação inclui ainda estreias, projetos emergentes e reposições de espetáculos recentes, num equilíbrio entre diferentes gerações e linguagens do teatro contemporâneo. Para Bruno dos Reis, este cruzamento é essencial para o futuro do festival e do próprio setor. “Estamos a experimentar espetáculos em novos horários para perceber o que pode ser o festival de 2027. Não queremos transformar tudo de forma imediata, mas testar o que funciona”, explica, sublinhando que esta edição será uma espécie de laboratório.

“O que estamos a fazer é preparar o futuro.”

Num contexto cultural cada vez mais mediado pela tecnologia, o diretor artístico sublinha a importância do teatro como espaço de encontro humano. “Trazer pessoas ao teatro continua a ser importante. Num mundo cada vez mais mediado pelas novas tecnologias, o teatro ainda consegue ser um dos últimos lugares onde estamos verdadeiramente uns com os outros”, afirma, defendendo a relevância contínua da experiência presencial.

Quanto à forma de medir o sucesso do festival, Bruno dos Reis recusa uma leitura exclusivamente quantitativa. Embora reconheça a importância do público, acrescenta outros critérios fundamentais. “Trazer pessoas ao teatro continua a ser muito importante, mas há outros fatores: a felicidade das equipas, o feedback dos artistas e a forma como todos se sentem neste processo”, refere, acrescentando ainda a importância do bem-estar coletivo. “A felicidade das pessoas que interagem com o festival é um fator de medição muito importante.”

No balanço final, o diretor artístico sublinha o carácter coletivo da programação e o envolvimento de múltiplos agentes culturais. “Mais do que feliz, sinto-me acompanhado. Esta programação resulta de muitas conversas e de um trabalho coletivo com artistas e instituições”, afirma. E acrescenta: “Sinto que estamos no início de alguma coisa. E não há nada mais potente do que isso.”

A edição de 2026 dos Festivais Gil Vicente assume-se como um momento de encontro entre memória e futuro, tradição e experimentação, comunidade e criação contemporânea.

Entre 4 e 13 de junho, com uma antecâmara que decorre entre 28 de maio e 04 de junho, marcada por ensaios abertos e projetos colaborativos, Guimarães volta a transformar-se num espaço de partilha artística, reflexão e celebração coletiva.

Entre os destaques da programação encontram-se “Ivu’kar”, de João Grilo, um espetáculo sobre amor e eternidade; “Espalhar Fel”, de Mickaël de Oliveira, um audiowalk pelos jardins do Palácio Vila Flor; “Tudo em Avignon e eu aqui”, criação da nova direção artística do Teatro Oficina; “Gatilho da Felicidade”, de Ana Borralho & João Galante, agendado para 4 de junho na Black Box do CIAJG; e “Pela Boca Morre”, de Tomé Nunes Pinto, uma performance interativa sobre a crise existencial.

Para Bruno dos Reis, o objetivo passa por reforçar a ligação entre o festival e as pessoas, experimentando novos formatos e preparando o futuro sem perder a identidade histórica do evento. “Queremos que as pessoas venham conversar connosco, ver os espetáculos, debater, dançar e celebrar o teatro”, afirma o diretor artístico, deixando o convite para que o público faça parte “deste lugar comum” que os Festivais Gil Vicente procuram continuar a construir em Guimarães.

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