CAPELA MIGUEL: “AINDA NÃO FIZ NADA. O QUE EU FIZ É UMA GOTA NUM OCEANO EXISTENCIAL”

Fernando Capela Miguel não é homem de usar “cartões que se põem nas paredes para sair dinheiro”. Tem telemóvel, mas não se esbarra “em candeeiros”. Prefere a luz da liberdade — a sua maior bandeira. Filho de pais algarvios, o professor, animador cultural e gestor de projetos recorda uma vida em que a maior bandeira foi — e sempre será — a da liberdade.

Capela Miguel chegou a Guimarães com 26 dias. É filho de pais algarvios. © João Bastos/ Mais Guimarães

Descobri que, afinal, não é vimaranense…

Sou vimaranense! A questão é essa: não interessa o sítio onde nascemos, interessa o sítio que escolhemos para viver. Já o Sancho dizia isso ao Afonso Henriques. Isso é um complexo vimaranense. Interessa onde escolhemos viver, partilhar, criar relações, conhecer pessoas, fazer amigos. Vim para cima com 26 dias. Fui feito ali na Alameda, que era mais cidade do que o centro da cidade. O meu pai veio de Lagoa, a minha mãe de Portimão. O meu pai encontrou um sítio para trabalhar aqui, vinha ganhar 17 vezes mais do que ganhava em Silves. Estava a pensar emigrar para o Brasil, veio para cá.

O que começou por fazer em Guimarães?

Comecei por ir à escola primária. Uma escola muito interessante, a de São Francisco. Entretanto desapareceu. Influenciou pelo menos três gerações e ainda hoje nos encontramos na primeira quinzena de outubro, sempre. Ganhamos amizade muito interessante, independentemente das diferenças sociais, opções políticas ou religiosas. O que importa é a camaradagem. As asneiras, as coisas boas que fizemos durante esse período.

Recorda-se de muitas?

Claro, claro. Mas essas situações são para recordar quando estamos juntos, não em situações particulares! (risos)

Mas, da infância, tem algumas brincadeiras pela cidade que possa contar?

Olhe, por exemplo, as corridas que tínhamos de fazer para convencer e arranjar para o Borges nos libertar para tocarmos ao sino, tínhamos de subir à torre. Lembro-me de uma freira com uns olhos lindos, azuis, uma freira muito bonita que, para nós, era um autêntico anjo. Ela cantava na missa e muitas das vezes ia à igreja espreitar só para a ver cantar. Era a nossa enfermeira, também. Quando dávamos cabo dos joelhos a jogar à bola no recreio, tínhamos de ir à enfermeira. São algumas imagens dessa época.

O animador sociocultural é da opinião que a região está presa a mitos, “muitos desses falsos”. © João Bastos/ Mais Guimarães

E quem é o Fernando Capela Miguel?

O Fernando Capela Miguel é um cidadão que tem um grande orgulho de ser vimaranense. Que tem noção de que a sua cidade é extremamente polémica e que merecia mais oportunidades. Que vive momentos extraordinários de mudança, mas que ainda não é assumida por todos, há muita gente que vive na sombra da boa memória, mas também da má memória. É uma região que vive muito de bairrismos doentios. Atualmente está melhor. Mas prende-se muito com mitos, muitos desses falsos, criados de propósito para manipular o próprio conhecimento que as pessoas deviam ter. Precisávamos de fazer atualizações à nossa história. A gente diz “o rei de Guimarães”. E o rei de Guimarães não é, como toda a gente pensa, o D. Afonso Henriques, mas sim o D. João I. Como é que agora se muda uma comunidade que vive à sombra do rei e do mito construído e se diz que o Afonso Henriques não é o rei de Guimarães?

Como é que isso afeta o território?

Parecendo que não, os mitos manipulam aquilo que pode ser a verdade que ajuda a andar em direção ao futuro com mais ou menos pressa. O nosso território precisa de transformações urgentes. Senão, vai parar no tempo e acomodar-se no presente. E isso paga-se no futuro. Há três exemplos a nível de desenvolvimento local. O primeiro é o da mobilidade urbana. Ou os nossos políticos pensam naquilo que é o trânsito e os acessos à cidade e como é que se circula nesta terra ou então, no prazo de três anos, estamos completamente parados no tempo. Neste momento, temos a primeira circular que ainda não está acabada e já devíamos estar a terminar a segunda, que devia ligar as vilas que pertencem ao território. Isto é pensar o futuro.

E quais as outras?

Numa outra até estamos bem. Demasiado bem, até. Ultrapassamos aquilo que tem que ver com a cultura. Temos coisas a mais, podemos dizer. Isto tem a ver com o perfil do nosso território: não foi preciso chegar a municipalização cultural para termos atividade cultural, não foi preciso chegar a Capital Europeia da Cultura para a partir daí fazer-se cultura. Já existia. Tínhamos 372 associações que ao longo dos tempos fizeram atividade cultural. Este concelho era pródigo nas dinâmicas culturais, mas não estavam organizadas. Agora, estão municipalizadas. O município, neste sentido, e este em especial, o atual, tem feito um planeamento conjugado com associações que tem permitido consertar alguns assertos socioculturais que eram necessários. Depois, outra das carências é o trabalho social. São capazes de me dizer: “Ah, mas isso é em todo o lado!” Está bem, mas eu interesso-me pelo meu território… tem-se feito um trabalho nesse sentido, mas temos muitas diferenças. Precisávamos que se fizessem parcerias com alguns construtores para construir bairros sociais, em vez de casas com os preços brutais que se estão a fazer. Esta cidade não vai ter só gente que pode pagar apartamentos com os preços que se fala. Precisamos de bairros para a classe média. E, depois, o exagero em opções no que diz respeito com modalidades. A relação que temos com o futebol nos dias de hoje é uma doença. Não é uma prática desportiva. Futebol não é rei, para muita gente é, mas é para quem não conhece mais nada. Mas quando olho para as dezenas de jovens na academia de ginástica aqui em Guimarães, que é muito boa e que precisa de andar pelas páginas dos jornais mais vezes… e temos páginas de futebol medíocre quando existem campeões mundiais de quatro e cinco e seis anos consecutivos, como os jovens da CERCIGUI e que nunca aparecem nos jornais. É uma injustiça. Não consigo entender como é que se alimentam claques, com as consequências que têm e com os prejuízos que trazem. Não precisamos de claques. Precisamos que esses jovens vistam a camisola e que vão ao futebol de uma forma sã e para respeitar a competição. Quando o adversário marca e é um bom golo, deve ser aplaudido e não tratado abaixo de cão. Ao nível da cidadania, há muito a ensinar e há muito a aprender. Nunca tive cartão de sócio, nem de partido político, sequer. Acho que a relação, quer com um quer com outro, nunca é saudável.

“Ao nível da cidadania, há muito a ensinar e há muito a aprender.” © João Bastos/ Mais Guimarães

E porque é que nunca teve nenhuma filiação política? Ou partidária?

Quem fez Abril teve formação político-ideológica. Participamos no quotidiano da revolução. O meu partido é a liberdade. Foi isso que eu vivi na rua com o 25 de Abril. Nós, que tivemos a oportunidade de vivê-lo, temos memórias únicas. Um dos mestres de Abril acabou de morrer. Presto-lhe aqui a minha homenagem, José Mário Branco. Quiseram apagá-lo da memória de Portugal. É uma das figuras incontornáveis, quer da cultura quer da defesa e da grande sementeira que é a de Abril: a liberdade, o livre pensamento, o critério, o desejo de se fazer melhor e de defender a dignidade humana. Quando se começaram a organizar os interesses, já o Zé Mário Branco estava a criticá-los. Foi ele o primeiro a ter um instrumento cultural e musical proibido em Abril. Chamava-se “FMI”. Hoje, as gerações mais novas deveriam ouvir mais novas. Estão a perder a grande oportunidade de existir porque não têm opinião. Hoje, cada vez mais, temos menos liberdade. Até porque as próprias invenções não estão ao serviço da condição humana, mas sim de grupos organizados. Basta termos um aparelho nas mãos para não termos liberdade nenhuma. Toda a gente sabe onde estamos. Com um cartãozinho de colocar na parede para deitar dinheiro fora, toda a gente sabe das finanças de toda a gente. A liberdade está subjugada. Eu não tenho cartão nenhum. Pelo menos aí não sou controlado. Tenho telemóvel, mas não ando a esbarrar-me contra os candeeiros. Só o utilizo quando é necessário.

Estamos a caminhar para onde?

Para uma civilização muito mais elitista. Mais avançada, mas, em alguns segmentos, com muito menos consciência e menos respeito pela condição humana. E isso vê-se em coisas tão simples como a saúde, as relações humanas, familiares.

“O meu partido é a liberdade”

Politicamente, em que área se sente mais identificado?

Ó meu caro, eu espero que ninguém duvide que sou um indivíduo de esquerda! Esquerda moderada. Não sou radical nem de manifestações. Essa fase já a passei, nos meus 20, até aos 30 anos. Gosto de refletir escrevendo, hoje. Eu combato os exageros impróprios de uma civilização de qualidade praticado pelo mercantilismo, pelas multinacionais e pelo capitalismo selvagem.

Num estudo recentemente publicado há duas questões que são apontadas à democracia portuguesa, que está bem posicionada, mas há dois problemas identificados: falta de participação nas eleições e a pouca participação da sociedade civil na coisa pública.

Há duas questões que justificam esse resultado. E posso falar porque tenho 40 anos de ensino a vários níveis. Há gente que não sabe o que é democracia, que se identificam com os maus momentos tirânicos. Não sabem o que é a tolerância, a inclusão. Identificam-se com extremismos. A seguir a Abril tivemos alguma participação das comunidades, como os bairros sociais, as creches populares. Logo depois, apareceram interesses organizados e que tiraram esse direito de participação. Depois, outro problema é aquilo que é a educação para a cidadania. É uma carência extraordinária. Chegou a haver esta disciplina na escola, mas, logo depois, foi substituída, porque achavam que não era preciso. Foi substituída pela religião, indevidamente. A nossa escola pública é laica. A igreja tem uma grande força e conquistou espaços no nosso país.

Mas fale-me, então, um pouco do seu percurso profissional.

Em Portugal, fiz parte dos primeiros animadores socioculturais. E na década de 80 fui para França para o Instituto Nacional de Educação Popular fazer o curso de animador cultural. Trabalhei cá muitos anos na secretaria de Estado de educação e juventude. Depois, fiz, na Universidade do Minho, o curso de Educação para o Desenvolvimento, para fortalecer conteúdos. Sou um técnico de desenvolvimento cultural. Trabalhei muitos anos da educação de adultos, deram-me um autêntico curso de educação superior. A primeira turma que tive era constituída por 14 reformados da indústria do calçado de Guimarães. Toda a turma continuou a estudar e pelo menos seis ou sete fizeram o 9.º ano, dois ou três fizeram o 12.º ano e um inscreveu-se em Direito na Universidade de Coimbra. Está a ver que se pode aprender, como eles diziam, até morrer. Ou morrer sem nada saber. Assim diz o povo. Esta condição da educação permanente deveria manter-se viva.

“O C.A.R era uma associação republicana, mas eclética.” © Mais Guimarães

O Capela Miguel é muito conhecido em Guimarães pela sua ligação ao associativismo. Pode falar um pouco sobre isso?

O meu avô era republicano e foi ele quem me influenciou nas minhas opções primárias. E sempre me ensinou que os espaços coletivos eram os melhores para a nossa existência. Os espaços coletivos primordiais são as associações. É nelas que a diversidade dos cidadãos se encontra. E eu, com sete anos, ia pela mão do meu pai para uma associação chamada Ritmo Louco, que passou a ser o Círculo de Arte e Recreio. E foi uma escola para mim. O C.A.R era uma associação republicana, mas eclética. Nesse sentido, e pela minha formação, ajudei a fazer muitas associações, a dar contributos para o desenvolvimento através dessa criação. Na década de 80 fiz a ÂNIMA, associação de desenvolvimento dos territórios rurais das periferias urbanas, que ainda hoje está aí a fazer o seu trabalho. No território de Guimarães, o meu contributo foi dado em São Torcato e era um dos técnicos na luta contra a pobreza.

Já esteve para ocupar algum cargo político?

Já, mas rejeitei todos os que me foram propostos. Eu sou, como se diz, um militante de base e quero sê-lo até morrer.

Escreveu à volta de duas dezenas de livros. A sua obra incide sobre algum tópico em especial?

Os meus livros são muito diversos. Tenho alguns sobre contos e lendas da fundação, gosto de refletir as origens e percebê-la. Tenho história local, técnicas de animação, cinco de poesia, um de antropologia. E outro sobre emigração. Na década de 1990 saía daqui em julho e ia como voluntário ensinar português às associações portuguesas em Paris.

E neste momento, o que anda a fazer?

Tenho dois trabalhos: o segundo volume do Contos e Lendas da Formação de Portugal e um trabalho sobre História, Contos e Lendas da Penha. Há muita gente que ainda não percebeu a verdadeira importância da Penha na nossa condição, enquanto povo, ao longo dos séculos. E uma grande obra, sobre os 80 anos do C.A.R.

O que lhe falta fazer?

Tanta coisa. Ainda não fiz nada. O que eu fiz é uma gota de água no oceano existencial.

Mas há algum plano próximo?

Gostava que me saísse uma maluqueira do Euromilhões e tenho um plano para gastar 150 milhões. Primeiro, pegava numa fábrica destas abandonadas e fazia um restaurante para quem não tem dinheiro para comer. Com a qualidade que qualquer um merece. Eu vivi momentos do género como professor: gente que chegava à escola sem comer, com o pai a perseguir o Vitória até ao fim do mundo e sem dar dinheiro à mãe para que houvesse o que comer… Não vou à bola de ninguém.

O que mais o marca em termos culturais? Tem uma ligação muito forte com as Nicolinas.

Já tive mais. As Nicolinas precisavam que a juventude gritasse menos e pensasse mais, que estudasse mais as origens e o papel que as festas desempenham. No desenvolvimento local, podem ser uma imagem de marca da qualidade da própria juventude com orgulho e não com borracheira.

Qual a manifestação cultural mais importante para si, na cidade?

Os festivais de Gil Vicente. Que estão subalternizados e que têm um programa que é tudo menos gil-vicentino. Os CEOs da moda dizem que o teatro da modernidade, as novas linguagens, é que estão a dar. O teatro é para o povo e não para a elite. O teatro gil-vicentino foi feito para se dizer nas praças, nas ruas, ir ao encontro das pessoas. E estando muitas infraestruturas municipalizadas, as pessoas não participam, apenas consomem e limitam-se a aparecer. Está tudo organizado, pensado. E esse não é o melhor modelo de democracia.

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