“A PRECARIEDADE NO TRABALHO TRADUZ-SE EM PRECARIEDADE NA VIDA”

© João Bastos/Mais Guimarães

A psicóloga e deputada de 47 anos volta a ser a aposta da CDU para encabeçar a lista do partido pelo distrito de Braga. Membro efetivo da Comissão Parlamentar de Saúde, Carla Cruz foi ainda professora universitária entre 2001 e 2009. Defende “políticas de saúde” em todas as áreas, a efetivação do acesso aos cuidados na área da saúde mental e alerta para os “riscos” que uma maioria absoluta pode trazer.

Não é a primeira vez que encabeça a lista da CDU por Braga. Sente que voltar a ocupar esse lugar representa confiança no trabalho que desenvolveu?

Penso que demonstra confiança no trabalho que desenvolvi na linha daquilo que tinha assumido há quatro anos e que volto a assumir: um mandato com responsabilidade, de proximidade, mas também com esta ligação ao distrito. De o conhecer e apresentar propostas para resolver os seus problemas. O que nos motiva é servir os interesses dos trabalhadores e do povo. Não há diferenças entre estas eleições e as de há quatro anos. Apenas tenho mais experiência de trabalho parlamentar e isso ajudará. Mas o trabalho de deputado da CDU não é individual e isso diferencia-nos das outras forças políticas. Não há questão que não seja analisada, vista e, muitas vezes, identificada pelos camaradas e pelos independentes que se reveem na CDU.

A CDU realçou, bastantes vezes, a importância de reforçar o investimento na área da saúde mental. E o seu trabalho parlamentar contempla a Comissão de Saúde, para além de ser psicóloga. Insistir neste reforço é um dos eixos centrais da CDU, presumo. 

Temos dado largo relevo a esta questão. Acompanhamos esta matéria e, na assembleia, fizemos audição pública com utentes, doentes, profissionais da saúde e instituições para fazer um levantamento da situação. Temos um Plano Nacional de Saúde Mental muito bem desenhado e delineado que contempla todas as áreas de intervenção na doença mental. Mas, tal como a audição confirmou, continua a existir uma secundarização da saúde mental. Passa pelo financiamento deste programa prioritário, que é com base nas verbas dos jogos sociais. Essas verbas oscilam. Tanto os deputados do PCP como dos Verdes alertam há muitos anos para a alteração do modelo de financiamento dos programas prioritários e da saúde pública. Defendemos que esse financiamento tem de ser decorrente de verbas do Orçamento de Estado. Constatamos que o setor público tem falta de muitos profissionais que possam fazer o acompanhamento, faltam psiquiatras e pedopsiquiatras, também. Faltam psicólogos, terapeutas que façam trabalho comunitário de reinserção. As nossas preocupações não são de agora e voltamos, nestas eleições legislativas, a colocar o enfoque na saúde mental. E tal como a saúde é um direito, também o acesso aos cuidados de saúde na área da saúde mental tem de ser efetivado. O que constatamos é que, apesar de nos últimos quatro anos se ter dotado o Serviço Nacional de Saúde de mais profissionais e de algum investimento, fica sempre aquém. É preciso aumentar o financiamento, apostar em políticas de prevenção. E é necessário uma política de saúde em todas as políticas: na área da educação, no Ministério do Trabalho, mas também na economia, habitação… Defendemos, quando tivemos discussão de Lei de Bases de saúde, que claramente era preciso inverter-se esta visão “hospitalocêntrica” e voltar-se a ter uma visão mais integrada dos cuidados.

“O distrito de Braga tem imensas potencialidades”

A redução do horário semanal para as 35 horas no setor privado anda de mãos dadas com a questão da saúde mental?

Sim, sim. Estão ligados, claro. Creio que está há muito tempo identificado que, hoje, muitas das doenças mentais estão associadas ao trabalho. À instabilidade, à precariedade, aos ritmos intensos de trabalho, às exigências, à impossibilidade de conciliar vida pessoal e profissional. É prioritário, claro. E alargar as 35 horas ao setor privado permitirá a melhor conciliação entre a vida pessoal e profissional. O desenvolvimento tecnológico tem permitido a redução do horário, e é fundamental aproveitá-lo para criar mais empregos de vínculos estáveis. A precariedade no trabalho traduz-se em precariedade na vida e isso significa adiar decisões. Propomos a criação de um programa nacional de combate ao trabalho precário e ilegal. E também a criação do estatuto de desgaste rápido para trabalhadores por turnos. Hoje, muito do trabalho é realizado em trabalhos por turnos, que desregulam a vida destes trabalhadores. Se o resultado das eleições der mais força à CDU, mais capacidade temos para combater normas gravosas e determinar aquele que é o fator central: defender o direito dos trabalhadores, valorizando-os, e valorizar o trabalho.

E votar na CDU, para além de valorizar o trabalho, trava a possível maioria socialista? As últimas sondagens aceleram mais o PS do que o contrário.

Ninguém é dono do voto de ninguém. Cada um dos eleitores decidirá e votará com a sua consciência e ciente dos riscos e dos perigos que é haver maiorias absolutas. É retroceder no que se conquistou: reposição de direitos, valorização dos salários, no alargamento do abono de família, na questão central da gratuitidade dos manuais escolares até ao 12.º ano. Esta foi uma proposta do PCP. Há sinais de que, com notícias e queixas de manuais rasurados, se tentam desvalorizar medidas destas. São os riscos que corremos.

©  João Bastos/Mais Guimarães

Espera eleger mais do que um candidato por Braga?

Partimos com confiança no distrito alicerçada no que nos têm dito sobre o nosso trabalho, como fomos determinantes nestes quatro anos e com esta consciência de que não se foi mais longe porque o Partido Socialista, com a sua obsessão da redução acelerada do défice, impediu que propostas apresentadas pelo PCP não fossem aprovadas. Partimos com determinação de que qualquer um dos que estão na lista da CDU tem plena capacidade para representar o distrito. A questão não é se a CDU elege mais um, porque tradicionalmente tem sido assim. Caberá ao povo decidir e estamos que poderemos progredir e ter mais mandatos. As pessoas perceberão a importância de ter deputados da CDU pelo distrito de Braga. Não avançamos com nenhum número, temos dito que decidirá o povo. E estamos todos disponíveis.

Independentemente do que o povo decidir, que questões poderão ser levadas de Braga à Assembleia da República, para representar os interesses da população deste distrito?

O distrito de Braga tem imensas potencialidades que são desaproveitadas há muito. E há aspetos que estão nos compromissos eleitorais: a valorização da produção nacional, da indústria têxtil, por exemplo. Sabemos, porque temos feito intervenção, que grassam as dificuldades dos trabalhadores neste concelho na indústria têxtil, nomeadamente em empresas subcontratadas por outros grupos. E também o calçado: encerrou uma empresa de calçado há pouco neste concelho, levando para o desemprego mais de 40 trabalhadores. Estamos na linha da frente da defesa destes setores, e também da cutelaria ou metalomecânica. Outro dos temas que priorizamos é reafirmar a necessidade de o programa de alojamento universitário se tornar numa realidade. Falamos com estudantes da Universidade do Minho e a verdade é que a capacidade instalada está completamente esgotada. As camas atribuídas ao distrito, situadas em Guimarães, são insuficientes. É importante que o Governo concretize o programa e que crie mais camas para que os estudantes tenham essa resposta. E eles também são afetados pelas questões de mobilidade. Temos, ao longo de décadas, defendido a necessidade de se avançar com a ligação ferroviária  entre Guimarães e Braga, perspetivando a ligação do quadrilátero [com Famalicão e Barcelos]. Traz impactos positivos, ajuda a região, ajuda o ambiente e defende-o. E é mais barato, também. Como disse, é um distrito cheio de potencial. Falta concretizá-lo.

Entrevista publicada na edição nº 207 do Mais Guimarães (a 18 de setembro de 2019)

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