CARTA ABERTA DO ZEQUINHA AO JOÃO SOUSA

por Carlos Guimarães

Médico

Olá João Sousa, eu sou o Zequinha. Finalmente o ano letivo está quase a acabar e nem sei o que vou fazer nas férias grandes. Não sei se reparaste que já pouco se fala de ti, mas eu quero dar-te os parabéns pela vitória no Estoril Open. Eu sei que o meu reconhecimento não tem qualquer significado, mas lá para o final deste texto talvez compreendas melhor.

Eu sei que do corpo te sai toda essa garra, que o espírito tem dias em que ajuda e outros em que complica, eu sei que suas, que dói, que tiveste de partir para longe e deixar para trás quem amas e quem muito te ama, eu sei que eras pouco mais que menino, que choraste e que te sentiste abalado. Chora quem tem sentimento e estremece quem é humano. Só os fortes e os bons conseguem atingir o nível em que te encontras. Eu sei que só os vencedores contam para a História. Eu sei que se não tivesses vencido serias ignorado. No entanto, acredito que o teu esforço e o teu empenho teriam sido os mesmos, porque a vontade de ganhar também fora a mesma. Acredita que no dia em que sais derrotado, eu continuo a dar-te os parabéns porque foste tu próprio, com o mesmo espírito campeão, a mesma entrega e a tentar superar-te.

Não sei se sabes, mas há muita gente por aí, tão anónima como as pedras da calçada, que se esforçam tanto ou mais do que tu, e em cada dia que passa têm provas duras e difíceis para superar, e superam.

Há esposas que cuidam de maridos dementes e estropiados , e maridos que cuidam da mesma forma, há filhos e filhas que o fazem 24 horas por dia, de sol a sol, durante longos períodos da sua vida. São pessoas que se entregam, sem limite, que abdicam de uma vida “normal”, que cuidam e sofrem sem descanso e que nunca receberão medalhas. Haverá dias em que serão derrotados e outros em que vencerão, mas nunca serão aclamados como vencedores. Tal como tu, caro João, são pessoas que se superam todos os dias.

Há enfermeiros que acumulam horas e horas de trabalho sem descanso, simplesmente porque é preciso, porque trabalham em hospitais com dirigentes desalmados, nomeados por políticos sem alma que lhes coartam a possibilidade de fazer de outra forma. São pessoas que acumulam meses de trabalho extra que não lhes é pago e não lhes são devolvidos esses dias para folgar. São pessoas que se superam todos os dias.

Há assistentes operacionais que fazem o mesmo. São pessoas que se superam todos os dias.

Há professores maltratados, injuriados e agredidos pelos alunos, pelos pais, pelos dirigentes e pelo País que os ignora, os explora e os desautoriza. São pessoas que trabalham horas e horas a fio que não são contabilizadas, que se desgastam, exaustos e deprimidos. São pessoas que se superam todos os dias.

Há médicos, costureiras, gestores, motoristas… trabalhadores. São pessoas que se superam todos os dias.

Acredita João que há imensa gente que se esforça tanto como tu, todos os dias, e nunca recebe um aplauso, um carinho, um colo, um mimo, e jamais serão recebidos em Salões Nobres.

Todo esse mar de gente anónima que se dedica, se entrega e se supera, também tem vitórias, pequeninas vitórias, em sorrisos, abraços, obrigados e até em algumas lágrimas. Mas nunca serão vencedores como tu.

Caro João, no dia em que não venceres, e serão tantos dias, muitos irão ignorar-te, mas o Zequinha sabe que te esforçaste e suaste para saíres vencedor, que a tua mão se deforma pela raquete que empunhas, e que foi mais um dia em que tentaste superar-te e até talvez o tenhas conseguido mesmo sendo derrotado.

No dia 24 de junho quando fores condecorado, fica com a certeza de que todos os que se superam e não podem lá estar te enviam aquele abraço que recebes e retribuis como é apanágio dos grandes homens.

 

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