CENA TRISTE

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Um livro sobre segredos da vida privada de personagens públicas não é novidade. Segredos íntimos, inconfessáveis, obtidos sabe-se lá como, tudo isto é existe, tudo isto persiste, tudo isto é um fado conhecido e, não é de agora. Com a massificação dos media, a coisa tornou-se um negócio chorudo. Os designados “tablóides”, jornais líderes no negócio, vendem o que vendem e rendem o que rendem. Muito! Também sucede em Portugal.

Escrevem-se textos de apoio a umas fotos que um fulano conseguiu, depois de vários dias empoleirado numa árvore, furtivamente, camuflado, à espera que a sua potente objectiva capte uma vedeta no seu barco, na piscina, em alívio de trajes se possível, de preferência em amanhos amoroso, sem imaginar que a sua intimidade está sendo desnudada a centenas de metros e dela virão imagens em publicações que milhões de olhos irão apreciar.. E que se seguirão programas de televisão com umas figuras especializadas nestes “assuntos sociais”, a comentar os chamados “casos”, acrescentando detalhes que apimentam o enredo, como se sempre tivessem andado enrodilhados naquelas outras vidas.

Isto posto, durante anos foi conhecido o slogan “Acredite se ler no Expresso”. A frase reflectia, uma certa verdade. O jornal conquistou o estatuto de jornal de referência, de respeitabilidade, de confiabilidade. Não era fácil saírem erros factuais graves nas notícias do Expresso, ou sinais de menor seriedade. O Expresso não era um tablóide. Politicamente, o Expresso foi, de muito longe, o jornal que mais opinião criou. Reuniu um conjunto de profissionais que deram corpo a um projecto jornalístico multifacetado, rico em diversas áreas, respeitado, feito de modo competente e plural. (No que toca à pluralidade de opinião, um ou outro episódio, como o de João Carreira Bom, para quem recorda, não abona nada. Mas no melhor pano cai a nódoa) Este respeito existia, mau grado a batota semanal do director, que numa cónica denominada “Política À Portuguesa” escrevia uns textos em forma de aparente silogismo, com premissas botadas como tiros como que ungidas por uma “objectividade” que à falta de outra razão valiam porque eram ditas por quem as dizia, uma suposta “autoritas”, portanto, que tornava claros e intocáveis os pressupostos da elaboração.

Premissa daqui, outra dali, outra dacolá, conjugada a coisa, conduzia- se aquilo a um resultado a que se chegava de modo aparentemente inexorável. O problema é que as premissas nunca foram objectivas. A batota estava na dissimulação óbvia do preconceito que minava os pressupostos, tudo menos objectivos. O ardil desta literatura de justificação consistia em serem textos escritos do fim para o princípio. Para a conclusão a que queria chegar, colocavam-se os degraus que era suposto subir, qual “estrada dos tijolos amarelos” da lógica “política à portuguesa”.

Esta coisa agora dada à estampa pelo ex-director, hoje fora de cena e carente de palco, que até pessoa morta põe a falar sobre a intimidade de um vivo, sem que um ou outro possam defender-se, é uma pulhice que não surpreende. Admira é como foi durante 23 anos director do jornal de maior reputação do país, de como ia à televisão falar de ética, do que “tínhamos de ser”, sempre tão judicioso! De quem o acompanha pouco vale falar.

 

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