César Machado: Angrajazz (Entre Amigos)
Com imenso mar a meio, Angra do Heroísmo e Guimarães possuem de comum bem mais do que um fugidio olhar permitiria ver. Belíssimas cidades, ambas, foram a seu tempo Capitais do Reino - Guimarães a primeira, Angra por duas vezes, em contextos bem diferentes e uns séculos depois.

@ César Machado
Já no que respeita à elevação a Património Cultural da Humanidade, Angra foi a primeira cidade portuguesa a obter a distinção, em 1983, qualidade que viria a abonar Guimarães desde 2001. As duas contam com gente justificada e superlativamente identificada com o torrão natal, que sabe bem porque o ama e o que ama, tanto quanto o desamor que para outros sobra – os que às suas terras causam dano; e tudo em conjugação de sentimentos e sem quebras, em ambos os casos sem espaço para modernices como “desenraizamento” ou falta de “cultura do lugar” – a existir seria um problema de “hiper identificação”, o que não sucede, de resto:- ambos os torrões reclamam isso dos seus,nunca menos que uma entrega total e incondicional aos valores da terra e da comunidade, tal é a força com que aquela marca cada um dos seus. Aqui pertence-se mesmo e sem intermitências, não se é impunemente de nenhuma destas cidades, Angra ou Guimarães. O que é muito bom!
Porque é muito bom, do melhor que se pode ter, as gentes de uma e outra cidade partilham com as pessoas de que gostam isso que de melhor têm. Entre o que de melhor têm encontram-se os amigos. E o prazer está nessa partilha do que se gosta com quem se gosta. Com os amigos. Isto de partilhar o que mais gostamos com as pessoas de quem gostamos, essa coisa é que é linda! (diria o poeta Nogueira, com outros sinais).Esta coisa de se gostar de pessoas gera coisas incríveis, quer com os amigos de hámuito, quer com os amigos novos. Com estes partilham-se amigos de sempre, as belezas e tradições da terra, os abraços, os sorrisos, a mesa, um acolhimento caloroso que, ainda assim, não cabe todo na palavra “hospitalidade”, parece curta, anda por lámas não é suficiente.
Amigos anteriores e amores comuns, em torno do que se ama, no fundo aquilo de que são feitos os chamados “amadores”, esses fazem coisas do arco da velha! Unindo a acção ao sentimento, como alguém disse”, dão em abraçar empreendimentos em que o impossível é apenas o que demora um pouco mais. Mas consegue-se! Em união de esforços consegue-se. Porque um homem só não vale nada, por vezes estes grupos de amigos unidos por aspiração comum criam associações. E do que estas são capazes!
Não é de estranhar que em Angra e Guimarães exista um movimento associativo e cultural “per capita” bem superior à média nacional, isto para os fãs da estatística, a mmais elaborada forma de mentir com dados verdadeiros. Haja em vista o exemplo do elevado número de bandas filarmónicas espalhadas pelo país. De 700 a 800, consoante os dados, envolvendo milhares de músicos por todo o Portugal, constituindo escolas de música nas quais aprendem outros tantos. No Arquipélago dos Açores haverá cerca de 100 e na Ilha Terceira 25; se a vida se resumisse a estatística a Terceira teria pouco mais de 3,5 bandas. Como Angra, também Guimarães conta com um forte tecido associativo e cultural, de enorme mobilização, que, em muitos momentos, agregou vontades, uniu cidadãos, apontou caminhos que prosseguiram a sua terra, fazendo-a chegar onde chegou e muito além do que se teria alcançado se sempre aguardasse pelos impulsos dos poderes públicos, mais ou menos adormecidos para as coisas da cultura durante tanto e tanto tempo. E foram inúmeras as iniciativas de grande relevo propostas e realizadas por associações culturais ou por estas com os município em frutuosas parcerias.
Assim nasceu o Angrajazz, por proposta da Associação Cultural Angrajazz, apresentada à Câmara de Angra, com um festival que dura desde 1999. Assim nasceu o Guimarães Jazz, proposto pelo Convívio, Associação Cultural e Recreativa, à Câmara de Guimarães, em 1992, que viria a dar em evolutiva parceria pelo tempo afora. (Se hátentativas de reescrever a história vale pouco a pena – seria “abaixo de estatística”. Esta, pelo menos, tem o decoro de utilizar dados verdadeiros para mentir quando quer mentir).
Sendo certo que Angra acrescenta o seu deslumbrante património natural, ambas as cidades contaram com a felicidade de herdar o que os do passado haviam construído bem como a riqueza da sua história que faria destas cidades Património Cultural da Humanidade. Chegados aí o que fazer? O Património da Humanidade constitui um importante apeadeiro a reclamar que a viagem continue, que se apontem atenções para o modo de “construir património de hoje e de amanhã”. Não se trata tanto de deixar criado, apenas ou sobretudo, “imobilizado” – na coisa cultural activos imobilizados são muitas vezes verdadeiros inactivos, o caso aqui é outro, não tanto o material, físico.Trata-se mais de mexer na forma de cada um crescer e crescer com, de viver com, sendo “com”, obviamente, com os outros, em comunidade, numa área de fruição artística,musical, cultural, de partilha de saberes e de valores, de como e de que somos feitos, do que queremos fazer de nós. Felizmente, nestas duas cidades percebeu-se o passo seguinte, a tarefa inadiável e irrecusável que vinha de seguida, que havia que ser tomada como a verdadeira aventura de dimensão ou medida que lhe deu O’Neil, Alexandre – “Éno mar que a aventura tem as margens que merece”. E assim tem sido. Partindo das nossas singularidades, houve a clarividência de apontar para algo de universal, ou não se tratasse de aposta de matriz cultural. E aqui entra o jazz pelo seu todo. A mais universal de todas as músicas, porventura.
Pois bem, Angra e Guimarães possuem hoje dois dos mais importantes e reconhecidos festivais de jazz do país, e em actividade ininterrupta por mais anos. Em ambos os casos criaram realidades bem maiores que a sua dimensão geográfica e do que o seu peso relativo na realidade do país, marcando terreno no panorama não apenas nacional mas também internacional nesta arte musical. Pelos seus palcos passaram imensos músicos que poderiam bem pisar os mais importantes palcos de todo o mundo. NNum e noutro caso, dispõem estas duas cidades de muitas outras iniciativas que possam afirmar o mesmo relativamente ao seu campo de acção?
Pode perguntar-se se a coisa é assim, se é simples, se um acontecimento da escala de um Angrajazz ou Guimarães Jazz começa numa roda de amigos e se alguém havia futurado que o caminho daria no que se conhece hoje, ocupando lugar de primeiro plano numa música que se apresenta como universal; afinal é deste modo, numa associação,indo ao paço para o passo seguinte, para propor a coisa aos poderes públicos, funciona
assim? E os mesmos continuam a assegurar o andamento das coisas, a um “ritmo amador”? Um certo banco brasileiro -o maior, por sinal- dizia num achado de marketing:-“Crescemos muito porque nunca deixamos de ser pequenos”. Aí está um dos segredos da coisa. O Angrajazz está aí para o provar. O modo amigo como são acolhidos os músicos que passam pelo festival surge bem reflectido nas intervenções que todos, sem excepção, partilham com o público a meio das suas actuações. As palavras de simpatia que todos dedicam a quem faz este festival e ao modo como o faz são bem genuínas,não há ali cerimoniosas saudações de circunstância. Há agradecimentos sinceros e justificados. E sente-se. Aquilo que é feito pela Associação Cultural Angrajazz só pode ser feito assim.
Alguém disse que só há duas maneiras de fazer determinadas coisas -“ou é muito fácil ou é impossível”. Com amor pelo que se faz as coisas parecem fáceis.Sem dispensável burocratização implícita a processos mais complicados as coisas são feitas”erntre amigos”. Para quem pense que a expressão é exagerada recorda-se o nome do mais emblemático programa de jazz da Televisão Espanhola (TVE) “Jazz Entre Amigos”, de Juan Claudio Cifuentes. É deste território que esta música gosta, não tanto de maneirismos ao jeito de superproduções.
Sendo o jazz, porventura, a mais universal de todas as músicas, é hoje consensual que o investimento neste tipo de “bens culturais”, o jazz entre outros, traz um “retorno”incomparavelmente maior do que seria alcançado com o mesmo esforço financeiro direccionado para outro tipo de “acções”. “Gasta-se” menos e obtém-se mais, conclusão muito cara a boa parte dos decisores políticos, por vezes um farol óbvio que beneficia um apoio ao invés de outros. Curiosamente, Guimarães e Angra tiveram a felicidade de contar com cidadãos que, agrupados em associações culturais, vivem pensando no futuro muito antes do futuro chegar. Aqueles fulanos que apresentam propostas aos poderes públicos. Muitos até já as apresentavam antes dos podderes públicos terem os seus próprios serviços culturais. Uma sorte para tais poderes públicos esta felicidade de contar com gente na comunidade que generosamente avança para projectos desta natureza e envergadura, que saem do sofá em prol do bem comum, tudo a poder de horas roubadas à família, ao sono, ao descanso, ao trabalho. Se os poderes públicos -onde quer que se encontrem, têm esta sorte, seria um grave erro não dar a mão a estes que, a troco de nada para si, fazem da cidadania activa a sua forte motivação, sabendo que a recompensa é o enriquecimento comum de um todo mais vasto e a promoção de uma música que amam, no caso que interessa. Que felizes não serão tais decisores políticos! Nem é fácil conceber que podendo contar com estas forças e vontades locais possam os responsáveis desbaratá-las. Não sucederá isto no Angrajazz atento o resultado do trabalho de quem o organiza, quer-se acreditar. “Infelizmência” assim seria penalizar quem faz bem por bem fazer. Não se acredita!
De todo o modo, por vezes só se dá pela falta de água quando ela falta. Um acontecimento que ganhou a importância do Angrajazz -ou do Guimarães Jazz- é mais que um festival. É todo um público que acorre aos espectáculos e esgota as salas, como sucedeu nesta edição do Angra Jazz, é o contributo para uma economia que gira em torno do festival em muitas e diferentes áreas, é o crescimento cultural de imensos músicos que neste festival encontram lugar e momento de partilha de experiências, são inúmeras as perspectivas por onde olhar o que tem o Angrajazz a seu favor. Como o Guimarães Jazz.
Desde logo o impacto nos músicos locais. Jazz at the Philharmonic (JATP), da responsabilidade de Norman Granz, contou com inúmeros concertos, digressões e gravações de jazz realizados entre 1944 e 1983, envolvendo as mais lendárias figuras desta música, com inúmeros pontos positivos. No caso do Angrajazz é a filarmónica que vem ao jazz. A criação e o trabalho sucessivo da Orquestra Angrajazz ao longo destes anos, a possibilidade que proporciona a músicos locais de integrar este projecto, muitos deles vindos de outras áreas musicais, filarmónicas, designadamente, a sorte que constitui ter esse estreito contacto com tantos dos mais destacados nomes da cena jazzística nacional só tem uma tradução:- serviço público. A isto acresce o fantástico rol dos músicos portugueses que passaram pelo festival para apresentar os seus próprios projectos. Praticamente todos. Seria fastidioso enumerar, tantos eles são. Aqui está uma frente em que o Angrajazz, muito provavelmente, não perde para nenhum outro festival nacional. Um serviço inigualável. Se o Festival poderia viver sem isto? Bom, ainda anda por aí muita gente que pensa que a água começa nas torneiras. Pensam que nasce ali,rodando o mecanismo. Parece que não. Se é do mesmo, o O’Neil? Claro. Mas que fazer se o homem tinha razão tantas vezes?
O investimento nestes projectos nota-se mais tarde, mas nota-se. Não é inconfidência recordar que o pai de Ricardo Toscano era músico numa filarmónica e adomecia o filho ao som de um disco de Cannonbal Adderley com Bill Evans, “Know what I mean?”. O próprio já o contou publicamente. Dado que poucos tiveram a felicidade de ter o mestre em casa, como o Toscano, conviria providenciar para suprir as lacunas que daí resultam,”Know what I mean?”
Este lado cá de casa, que representa um serviço púbolico inestimável para o jazz em Portugal, não esgota as virtudes do Angrajazz. É de primeira importância mas há outros créditos. O festival deu a conhecer ao seu público autênticas lendas do jazz de todos os tempos, como Barry Harris, Billy Hart, Louis Hayes, Charles Lloyd, Cecil McBee, Jim Hall,Carla Bley, Steve SwallowN, Jack DeJohnette, Benny Golson, Kenny Barron, Herbie Hancock, Martial Solal, Joe Lovano, Bill Frisell, entre muitos outros. Ou seja, por este lado não fica atrás de nenhum outro festival em Portugal. De gerações mais recentes trouxe valores indiscutíveis como Christian McBride, Dave Douglas, Miguel Zenon, Aaron Parks, Jason Moran, Chris Potter, Esbjorn Svensson, Vijay lyer, Rudresh Mahanthappa,outra plano em que há semelhante nos melhores festivais mas não é fácil encontrar quem supere.
Tem um particular em que o Angrajazz é, muito provavelmente, o mais atento dos festivais nacionais, o mais coerente e consequente cartaz ao longo de todos estes anos – o da voz no jazz. Não ocorre outro palco em que tenham passado tantos nomes fundamentais do jazz vocal como Gregory Porter, Kurt Elling, Sheila Jordan,Karryn Allyson, Samara Joy, Ekep Nkwelle, Mark Murphy, entre tantos outros, para já não falar de Cecile McLorain Salvant, que actuou no Angrajazz, em 2013, apesar da sua estreia ter sido noticiada em Portugal, no CCB, 10 anos depois – escusada e imerecida desatenção.
Este ano apresentou um formidável espectáculo do cantor Tyreel McDole, com que entramos nesta edição de 2026, com o seu incível espetáculo, McDole apresentou-se como representante da música negra norte americana e dele deu excelente conta. Com ele vinha um trio de muito respeito, a ter presente para futuro – o jovem Mehki Boone, na bateria, uma irreverência prodigiosa; um pianista com todas as ferramentas das várias escolas, um incrível swing e um sentido bluesy à antiga, WVilfie Williams; e um baixista de mão cheia, tudo lá, competência excepcional, Dan Finn.!. Pedro Neves e o seu quarteto asseguraram um memorável momento. Sentido melódico e harmónico insuspeitos, composições de muita beleza e uma voz bem original no nosso panorama pianístico. Um concerto em que estiveram a nível muito alto o reconhecido contrabaixista Miguel Ângelo e o sólido baterista José Marrucho, para além do convidado especial José Soares, saxofone,numa incrível actuação, a tocar cada vez melhor. Sob a competentíssima direcção de Pedro Moreira, já a Orquestra Angrajazz entrara a homenagear Miles Davis quando em ligação com Gil Evans, uma enorme demonstração daquela singular parceria que tanto alargou os limites desta música. Muitos e prometedores jovens músicos, entre tantos outros mais experientes, nesta bem abençoada orquestra, que tantos músicos açoreanos traz de outras origens para esta grande música, e que constitui assumida e justificadamente, a menina dos olhos da organização. Grande nível que todos os anos se (re)confirma. Leila Olivesi Octect, com African Rhapsody, trouxe um concerto interessante e seguro, recheado de composições singulares e um aviso à navegação – acompanhar o percurso do sax alto Baptiste Herbin impõe-se. Muito prometedor! O dia mais forte ficou guardado para o fim, com dois enormes concertos. O último coube ao San Francisco Jazz Collective -um grupo sem falhas recheado de números uns, com Chris Potter à cabeça, David Sanchez e outros velhos conhecidos em estado de classe pura. Momento muito, muito alto. Ainda assim, o grande e inesquecível concerto do festival, em modesta opinião do autor, coube a Aaron Parks e Walter Smith III, em revisitação das baladas de ou por Coltrane, uma consagração da arte de bem tratar esta enorme música. Um momento de oração guardado para o derradeiro dia. Como se, à maneira de José Mário Branco, em Canto dos Torna Viagem, “se andasse em busca de um final / para começar…”. Sim, uma óptima maneira de iniciar o rumo do que virá a ser a aventura da próxima edição do Angrajazz, em torna viagem a um lugar feliz.
Como fazer o balanço desta edição (27!) do Angrajazz? Notável, a todos os títulos. Um projecto justificadíssimo, de muito alto nível artístico, salas cheias e público encantado -o que não é defeito como por vezes pode parecer. Lidar mal com o que corre bem pode dar castigo, Porque isto anda tudo ligado, convém recordar que Jazz Entre Amigos, à boa maneira do Cifuentes, é o que sucede em Angra. Logo desde a forma singular da “DAPTO – Direcção Artística e Para Toda a Obra”, com o Presidente a rodar ano a ano entre cinco amigos, ou a superior lição“ de como tornar fáceis as coisas difíceis ou mesmo impossíveis”. Só se faz isto com muita qualidade e amor colocados ao seviço da música que se ama.
É por estas & por outras que o Angrajazz é, seguramente, o meu festival de jazz preferido… depois do nosso, o Guimarães Jazz, como farão o favor de compreender os muitos amigos de Angra para quem fica um abraço de dimensão Atlântica…
e Viva o Jazz Entre Amigos.





