CONCURSOS

por MARIA DO CÉU MARTINS
Economista

Nada tenho contra as competições – antes pelo contrário. Se estas forem enquadradas numa atividade desportiva, cultural ou recreativa podem até funcionar como um excelente argumento dinamizador de vontades.

Contudo, diga-se em abono da verdade, assusta-me o formato que algumas competições – concursos – têm assumido recentemente, valorizando ou enfatizando coisas tão pouco nobres como ser o “mais gordo” ou o “mais mal formado”.

Mas não bastando esta perversão do sentido da competição, nos últimos anos tudo o que é domínio social, politico ou económico – de uma ou de outra forma – se vem subjugando às lógicas mais pequeninas da competitividade. As empresas lutam por obter um “PME líder”; os funcionários são sobrelevados a “empregado do mês”, as escolas esgadanham-se por ficarem nos primeiros lugares dos “rankings nacionais” e os meninos têm que fazer parte dos “quadros de honra”. Em suma – a palavra “parabéns” tornou-se tão corriqueira que lhe foi esvaziado o sentido.

Direta ou indiretamente, todos nos vemos submetidos às lógicas do concurso televisivo e seguimos em frente (ainda que discordemos) para sermos os melhores, os mais bem sucedidos – valendo todos os atropelos e muitos desrespeitos pelo próximo. Tudo se relativiza, até os valores de sã vivência em sociedade.

Pior, os concursos funcionam como um fim em si mesmo e não como um meio para nos situarmos no patamar superior.

É assim, também, para a causa pública – aquela que mais nos deveríamos preocupar em dignificar! Já não se faz planeamento estratégico, concorre-se! Concorremos para sermos Capital Europeia da Cultura; Concorremos para sermos Cidade Europeia do Desporto; Concorremos para sermos Cidade Europeia do Voluntariado.

Tudo bons argumentos, sem dúvida! Mas o prémio só é suficientemente relevante se depois da capital da Cultura tivermos mais e melhor cultura no Concelho. (?)

O Plano e Orçamento da Câmara Municipal de Guimarães para 2016 ( e 2017) tem, assim, como principal linha orientadora ganharmos o concurso para sermos Cidade Europeia do Ambiente em 2020. E este poderia – e ainda pode – ser motivo de regozijo para qualquer bom ambientalista que dará de “barato” o sentido de vaidade, de que mais um título nos abona, em troco de termos mais e melhor ambiente.  Mas só, e apenas, se o argumento servir uma verdadeira lógica de Desenvolvimento Sustentado.

Mais não seja porque todos nós temos boa memória das inúmeras aberrações construtivas que se legitimaram, durante anos a fio, porque o empreendimento incluía uma designação “jardim…” na sua denominação.

Parece que vamos ter uma ciclovia, parece que vamos ter iluminação LED, parece que vamos ter reflorestação da montanha.

Aparente boas decisões politicas! Facilmente aferíveis se em 2020 tivermos, realmente, mais qualidade de vida no Concelho. Isto é, se em 2020, os cidadãos do concelho herdarem um Município melhor (ou pelo menos tão bom) como aquele que temos agora, então tivemos Desenvolvimento Sustentado.

Mas o risco aqui, como em todos os concursos que se pretende ganhar, são os atropelos, a falta de respeito pela nossa memória coletiva, a forma como se afere a relação custo/benefício.

Argumentos como “incompatibilidades técnicas” com iluminação LED vai-nos custar os últimos candeeiros públicos tipo “nabo” que ainda existiam na cidade e que são exemplares lindíssimos do melhor que se fez em mobiliário urbano – os últimos dos que iluminaram a nossa infância. O que se vai poupar em energia justifica o que se está a gastar em novos investimentos? E os que se retiram são lixo ou património a preservar? Tratar lixo e/ou preservar património também é muito caro! 

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