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Covid-19: O impacto das restrições aos funerais é “dramático” e pode levar a um “trauma psicológico”

A Direção Geral de Saúde suprimiu os habituais cortejos fúnebres e os funerais, sempre de caixão fechado, são limitados a familiares diretos. Estas medidas podem ter um impacto “dramático” no processo de luto, segundo a Emanuela Lopes, psicóloga do Hospital de Guimarães e o pároco da Igreja da Costa, Carlos Lopes Sousa.

©  CMG

A 12 de março de 2020, Portugal registava 112 casos de pessoas infetadas com o novo coronavírus. Foi nesse dia que ficou decidida a suspensão da celebração de todas as missas, catequeses e atos de culto. Em comunicado, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) determinava que os sacerdotes suspendessem “a celebração comunitária da Santa Missa até ser superada a atual situação de emergência”. Manteve-se a realização de funerais, com limitação à participação dos familiares mais próximos, durante a pandemia do covid-19. Também a Direção-Geral da Saúde (DGS) sugeriu posteriormente que não houvesse velórios, que os funerais fossem restritos a familiares próximos e que os corpos das vítimas mortais da covid-19, ou de pessoas suspeitas de estarem infetadas com o novo coronavírus, fossem cremados ou “embalados em sacos impermeáveis”, ficando “em caixão fechado, estando as famílias também proibidas de os abrir”.

Para Emanuela Lopes, psicóloga Clínica e da Saúde do Hospital de Guimarães, a questão do luto poderá ser mais difícil de gerir em temos mentais e poderá levar a um “trauma psicológico”. “A perda de uma pessoa, por este vírus e por aquilo que está a acontecer, considero já, por si só, catastrófica. Está a ser muito difícil em termos mentais a questão deste luto que, se não for muito bem gerido, vai tornar-se num luto complicado e que pode levar a um trauma psicológico”, avisa. Numa sociedade “com muito rituais relacionados coma morte, funeral, despedidas” e numa altura em que estes “rituais” estão mais restringidos, “é muito difícil as pessoas fazerem esta gestão”, admite.

Cada bispo é responsável pela decisão, no seu território diocesano, sendo a orientação mais comum, no caso dos funerais, de reservar um espaço para o velório, apenas no dia do sepultamento, seguindo as normas de proteção individual, sem abertura do caixão. O rito – exclusivamente com a presença dos familiares diretos – inclui apenas a Última Encomendação e Despedida (sem Missa) conforme o Ritual das Exéquias, seguindo o féretro para o cemitério, sem o habitual cortejo fúnebre. Para o padre Carlos Lopes Sousa, reitor do Santuário da Penha pároco na Igreja da Costa (Santa Marinha), a Eucaristia “faz falta em todo o processo do luto”.  “Não há ninguém que não diga isso como algo de novo, que nunca aconteceu, é algo que estamos a aprender. Sentimos a falta do luto. A questão do velório, a chamada eucaristia do Corpo Presente, tinha todo um sentido de luto e de esperança em Cristo. Isto está a faltar”, confessa.

Para o pároco ainda “fica muito de interrogação”. “Até pessoas próximas que, em alguns casos, são vítimas de Covid, a própria família está infetada não pode fazer a despedida. Torna-se dramático”, classifica. O padre Carlos Lopes Sousa admite que, por esta altura ainda se vive numa “fase de adaptação”. “Temos agora algumas dificuldades, às vezes, da parte de algumas famílias, há alguma incompreensão. Foi um problema que sentimos que estava longe, não era connosco, mas quando demos por ela, já estava aqui. Foi muito rápido”, aponta.

Tanto Emanuela Lopes com o pároco Carlos Lopes Sousa concordam que, no futuro, será preciso estar atento às famílias que passaram por processos de luto. “É um desafio muito grande a nível técnico e clínico para nós psicólogos. No momento tentamos ajudar quem precisa, mas depois esta será uma das áreas onde vamos intervir. Esperemos que não passemos pelo que se está a passar noutros países da Europa”, frisa. Do lado da Igreja, o pároco explica que, no futuro, quando a situação passar, será necessário “ajudar as famílias, com uma celebração que seja, para que se ajude as pessoas a fazer o luto”.

O pároco da Igreja da Costa confessa que ainda não realizou nenhum funeral com uma vítima de Covid-19, porém, ao saber dos cuidados e precauções dos próprios agentes funerários, funcionários de cemitérios sente que vivemos “um filme, porque eles já vivem esta situação”.  Ao pároco têm chegado relatos de fiéis que sentem falta das celebrações da Eucaristia. “Sentem aquela ausência do lugar onde iam e fortaleciam os seus compromissos, mas estamos a descobrir outras formas. Através da televisão ou da internet se calhar até há mais pessoas a ouvir mais a palavra de Deus. É uma redescoberta”, admite.

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