Da hospitalidade

Por André Veríssimo,
Empresário, Investigador Universitário, Ensaísta

“Aqui só direi breves palavras sobre o que entendo por verdadeiro bem e, juntamente, o que é o sumo bem. Para compreender isso corretamente, note-se que o bem e o mal não se dizem senão relativamente, de maneira que uma mesma coisa pode ser chamada boa ou má conforme as diversas relações, assim como se dá com perfeito ou imperfeito.”

(ESPINOZA, Baruch, TRATADO DA CORREÇÃO DO INTELECTO E DO CAMINHO PELO QUAL MELHOR SE DIRIGE AO VERDADEIRO CONHECIMENTO DAS COISAS Tradução e notas de Carlos Lopes de Mattos, — São Paulo; Abril Cultural, 1983, §12).

A relação política exige laços e vínculos de natureza apreciável entre os cidadãos de um dado espaço territorial.

E mesmo extra-territorial. A noção rousseauniana de espaço de concentração soberana exige a presença múltipla de factores a considerar entre eles o território. O povo, os símbolos e a língua e a pertença histórica a um agregado que seja minimamente identitário.

Problema maior é a aquisição de modelos de identidade que derivem desse profícuo feixe de elementos que sendo isodinâmicos e heterodinâmicos desconcertam qualquer unidimensionalidade de leitura.

A prática pode ser salutar na identificação firme e esclarecedora dos modelos de relação política. Pensemos que a relação política se refere à cidade. A cidade que conglomera interesses propriamente políticos, societais, comerciais, financeiros, demográficos, ecológicos, estéticos e religiosos e mais subtilmente, simbólicos.

A base sólida do entrecruzamento na relação estrutural e simbólica de comunicação entre os indivíduos parece ser mesmo a relação política dada a limitação e fragilidade do corpo e da mente humanas enquanto decisão do indivíduo. Daí a necessidade dos estatutos e poderes difusos que estão incorporados em múltiplos temas da vida comum e a desconcentração de modos de agir e de determinações de ser, saber e poder entre as várias esferas, quer corporativas, institucionais ou pessoais.

As comunidades políticas integram famílias e pessoas com estatutos e papéis modelados pelas actividades funcionais mais abertas ou mais herméticas.

Desde o soldado ao comerciante, do funcionário público ao professor, desde o editor ao informata, desde o empresário ao arquitecto, desde o presidente de junta ao eurodeputado, desde o mineiro ao ourives, … todo um rasto de funções, interesses e deveres e poderes se capilarizam e progressivamente se estatuem no sentido de elevar a natureza e valor e limite da relação política de que estamos a falar.

A relação política em abstracto é de tal forma vazia que sem as conotações societais e comerciais e financeiras não haveria no modelo mais contemporâneo forma de ajuízar deste modo de empoderamento que garante substância aos modelos de excelência de uns sobre outros.

Aqui a ideia da axiologia de princípios, limite e fins parece efectivamente estranha. E obviamente a de segurança. Os complexos com que a sociedade humana integra enquanto corpo uma forma diferenciada de harmonia podem reequacionar as forças que dinamizam o todo. E as partes.

A sociedade sendo um todo é sempre um todo pelas partes que o heteroconstituem. A sociedade é reequacionada e reequacionável. Livre e constrangida. Garantidora e devastadora. Nunca é errado numa transductilidade forçar o exergo animal para percebermos o que as outras sociedades irracionais colocam como limite de legitimação e funcionamento.

O poder e direito do mais forte. O desafio colectivo das feras e a capacidade de resistência dos sobreviventes. A luta e a integração. Ou a desintegração e a violência. O que me vem à ideia é a hostilidade versus hospitalidade.

A sociedade poderá viver entre estes marcos. Como reais e fundacionais.

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