DAVID DELGADO: “O POVO SÍRIO É EXATAMENTE IGUAL A NÓS”

Depois de já ter passado pela Tailândia e por Angola, David Delgado tem agora como principal missão proporcionar aos sírios o regresso à normalidade, enquanto simultaneamente quer passar a mensagem de que o povo sírio é “exatamente igual a nós”.

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Depois de já ter passado pela Tailândia e por Angola, David Delgado tem agora como principal missão proporcionar aos sírios o regresso à normalidade, enquanto simultaneamente quer passar a mensagem de que o povo sírio é “exatamente igual a nós”. O vimaranense está desde junho de 2019 ao serviço da Cruz Vermelha em Alepo, na Síria, onde lidera a operação de reabilitação de estações de tratamento de água. “Estamos a tentar pôr isto a funcionar o mais rapidamente possível, para que tudo volte ao normal”, conta.

“Quando cá se chega há o impacto visual”, diz David Delgado. © Direitos Reservados

Mais Guimarães (MG): O David esteve sempre muito ligado ao associativismo, mesmo enquanto viveu em Guimarães. Como surgiu a necessidade de embarcar numa aventura solidária?

David Delgado (DD): Não vou ensinar nada de novo a ninguém. Quando fazemos qualquer coisa pelos outros – e isso está provado cientificamente – sentimo-nos melhores. Quando se chega a África e se dá água às crianças e se vê o sorriso nas crianças… é extremamente gratificante. Se além do nosso trabalho, em que nos sentimos recompensados naturalmente, acrescentarmos o fator humano, então temos o melhor dos mundos.

MG: Está a viver sozinho na Síria, estando a sua família em Guimarães. Como é o dia-a-dia em Alepo e que impacto tem tido em si esta experiência?

DD: Quando cá se chega há o impacto visual. Chegamos à capital, Damasco, e percebemos que este é um país que teve uma guerra recente, pois os escombros estão lá. Mas, na verdade, em Damasco já se faz uma vida normal, já não há frentes de batalha e está tudo completamente limpo e pacífico. Depois há a chegada a Alepo, que é ver uma cidade que tem um grau de destruição de 70%. É impossível não perceber que estamos num cenário de guerra. Depois, como a frente de batalha está a quatro quilómetros da cidade, na primeira semana ouvem-se bombardeamentos à noite. Ainda que estejamos a uma distância que a Cruz Vermelha considera segura, estamos próximos o suficiente para perceber e ouvir o que se passa. Mas, depois, é como tudo na vida. Temos que dar a volta a esse stress inicial, ou muito rapidamente vamos embora. Em trabalho, visito os locais a que temos acesso. Na linha da frente não temos acesso, por causa do perigo iminente. Porém, há toda uma zona onde podemos operar.
No fundo, no meu dia-a-dia, sou engenheiro. Faço tudo o que for preciso, de reabilitação de casas, ou até montagens de campos de refugiados, se for o caso. Coordeno uma equipa de seis engenheiros. Vamos tentando acudir as necessidades que vão acontecendo. E temos trabalho para os próximos 20 anos.

David diz que a equipa que coordena tem trabalho para os próximos 20 anos. © Direitos Reservados

MG: Trabalha com pessoas de muitos países, mas também convive com cidadãos sírios… Como é que eles estão a viver esta tragédia?

DD: Para os Sírios é mesmo uma tragédia. É uma catástrofe sem precedentes. Em Alepo particularmente, porque metade da cidade fugiu… A cidade tinha quase cinco milhões de habitantes, agora tem praticamente dois milhões e quinhentos mil. Depois, há os efeitos psicológicos. Não há nenhum Sírio que não tenha perdido um tio, um pai, um primo. Todos os que viveram aqui em Alepo. Estou a trabalhar com pessoas que passaram o que se chama internacionalmente a Batalha de Alepo, que decorreu entre 2013 e 2016. Os Sírios lembram-se perfeitamente da guerra. As marcas ficarão para sempre. Vão demorar muitos anos a curar as feridas do que viram, sentiram e perderam. Mas é a vida. Temos que andar para a frente, temos que reerguer a cidade, voltar a dar cor a isto tudo.

MG: Acha que quem não vive na Síria, ou nunca aí esteve, tem perceção do que realmente aconteceu no país?

DD: Não… de todo. Podem ter uma ideia, sem dúvida. É uma cidade em guerra, com dois milhões de pessoas e 70% destruída neste momento. Isso já dá uma ideia. Mas o verdadeiro sentimento que nós temos no nosso dia-a-dia só vindo cá é que se pode auferir. E isso a Europa não tem nem nunca terá. Lidamos diariamente com crianças amputadas, por exemplo. A Europa não consegue ter a perceção dos números… Não é um caso ou dois ou três. Estamos a falar em centenas, milhares até. E como será este país no futuro? Vai ser complicado. Vai levar tempo.

MG: Acha que essa falta de perceção tem afetado a forma como os refugiados são recebidos?

DD: Esse é ponto que mostra que as pessoas não entendem o que se passa na Síria, mas é normal. Não vieram cá. Quando houve o atentado em França, foram responsabilizados cidadãos da Síria. A partir de então criou-se a ideia de que “a Síria está em guerra e lá é só terroristas”. Criou-se um medo generalizado na Europa. Como devem compreender, a Síria era um país com 30 milhões de habitantes, ou seja, não são 30 milhões de terroristas. São 30 milhões de seres humanos que querem ter uma vida normal como nós queremos e que no meio desses 30 milhões haverá três que são terroristas. Claro que temos que ter cuidado com esses três. A maior parte dos Sírios, se não quase a sua totalidade, são um povo como outro qualquer. Só querem viver a vida, ver os filhos a crescer, ter uma família e viver também num lugar seguro. Isso é o que eles querem. Mas infelizmente isto é o Médio Oriente. Isto é um barril de pólvora sempre prestes a explodir. Cá temos essa noção, que eles são pessoas de bem que tiveram o azar de lhes acontecer isto. Um refugiado é uma pessoa que fugiu de um sítio em conflito. Não pode voltar. Temos que nos pôr na pele dessa pessoa. Basicamente, as pessoas devem descer dos seus castelos de papel e colocarem-se na situação do outro.

Uma homenagem aos colegas da equipa raptados em 2019 na Síria. © Direitos Reservados

MG: Como tenta contornar essas contrariedades?

DD: Para além do investimento físico da Cruz Vermelha em redes de água, na recuperação de reservatórios que vão beneficiar a população, ou nos campos de refugiados que montamos, temos que ter uma paciência enorme. As pessoas são mais suscetíveis, estão mais fragilizadas, sensíveis… Não trabalho aqui como trabalhava na Europa. Na Europa, cada um tem os seus problemas, é verdade, mas cada um tem a sua vida muito facilitada: tem eletricidade em casa e tem água. Aqui não. Aliás, eu próprio nem sempre tenho todas essas condições na minha casa cá. No dia-a-dia, não consigo falar mais alto com uma pessoa de cá, porque sei que ela está numa situação muito fragilizada psicologicamente, por isso tenho que tolerar alguns comportamentos. Aqui temos que ter uma componente humana diferente. Também nisso tento dar o meu melhor todos os dias. Todos os dias damos o nosso melhor, até porque eu tenho sempre um voo para casa, a cada dois meses, e estou com a minha família, nessa grande cidade, e é completamente diferente. Quando estou aqui, estou de corpo e alma porque estas pessoas não têm a oportunidade que eu tenho.

MG: Sente que também é essa a sua missão? Passar essa mensagem para o outro lado?

DD: Sempre. É nosso dever de todos enquanto cidadãos tentar esclarecer o máximo possível os próximos. No período da história da velocidade em que vivemos, com a velocidade da internet, com as notícias falsas, com toda esta desinformação, é dever de cada um de nós, particularmente nós, os expatriados, que estamos no terreno, os que trabalham nas Nações Unidas, nós que trabalhamos na Cruz Vermelha, e todos os outros agentes, alertar para isto. Claro que somos uma gota no oceano a lutar contra interesses instalados, sejam interesses económicos ou políticos e estamos numa luta desigual. É passar informação dentro do possível sobre as coisas que estão menos certas. É alertar as pessoas para que não vejam as coisas assim porque eu estive lá. Eu vi com os meus próprios olhos. Eu senti. Eu estive com as pessoas e, portanto, as coisas às vezes não são tanto como são retratadas nos meios de comunicação social, seja nas conversas de café, que é onde normalmente se cria muitas vezes este estigma, em relação aos refugiados. Às vezes as pessoas estão a dizer completas barbaridades.

Na sede da Cruz Vermelha de Aleppo. © Direitos Reservados

MG: É passar a ideia de que são exatamente como nós?

DD: São como nós: expansivos, expressivos, extremamente educados… A ideia que tinha era que vinha para um país mais atrasado, como a Angola, por exemplo, que é um país que está atrasado 50 ou 60 anos ou 100 anos. A Síria não. Quanto muito, em relação a Portugal, poderíamos dizer que estaria atrasada entre 10 a 15 anos. Neste momento estão mais um bocado, devido ao grau de destruição. Ao nível cultural são como nós. Estamos a falar de um povo extremamente educado, que percebe de cultura, de arte e fala várias línguas. É um país como Portugal, que teve o infortúnio de ter esta guerra. São pessoas exatamente como nós, que gostavam de ir ao cinema ou de ler. Foi uma cidade que perdeu muito. Num cenário de guerra, as pessoas querem sobreviver e esquecem, obviamente, a literatura, a música, pintura e o cinema. Mas está lá. Elas ainda se lembram, têm essa curiosidade e estão ansiosas para que isto volte tudo a ser normal.

MG: O David está aí precisamente para lutar para que tudo volte ao normal… acredita que será possível num futuro próximo?

DD: O mais rápido possível. Estamos a falar de uma cidade com cinco mil anos de história. Literalmente. Como vimaranenses temos o nosso bairrismo, por isso conseguimos imaginar um Alepiano, cuja história tem cinco mil anos. Têm essa identidade cultural e o orgulho de pertencerem a Alepo, de terem nascido aqui, de serem educados cá. Isso nota-se e é genuíno, verdadeiro e entendível. Estamos a tentar pôr isto a funcionar o mais rapidamente possível, para que tudo volte ao normal. Queremos a devolver as infraestruturas, as condições, a água 24 horas, a eletricidade 24 horas e acabar com a guerra de vez, para que o turismo volte. Queremos devolver a normalidade e não tem sido fácil.

MG: Há pouco dizia que tem projeto para 20 anos…

DD: Há trabalho para 20 anos para a Cruz Vermelha, mas eu não fico aqui. Aliás, é política da casa termos quer trocar de sítio com frequência, não só para não nos apegarmos demasiado a isto, mas também porque podemos entrar em colapso mental. Ficarei no máximo um ano. Depois disso, irei para outra missão, para outro sítio do mundo: ou Iémen, ou Líbano, ou sudão, ou Somália, ou Nigéria… um país em conflito.

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