DE BEJA A GUIMARÃES, À BOLEIA DO FUTEBOL

“Viagens À Minha Terra”, a rubrica que o leva a conhecer o passado de figuras de Guimarães, vivido longe da cidade-berço. Histórias de vida, de cidades e de terras por descobrir.

O futebol foi fazendo parte do seu imaginário desde muito novo e acabou por ser o “veículo” que o ligou de Beja a Guimarães. Com passagens por outras cidades no seu percurso, foi no Berço que optou por se fixar.

Uma infância ligada à vida no campo, uma perda aos 11 anos, o gosto pelo futebol e a ligação a Guimarães são aspetos marcantes da vida de Firmino Sardinha. Ou Osvaldinho, para que mais facilmente seja reconhecido. Nasceu em setembro de 1945, em pleno Alentejo, e Beja foi a cidade que o viu crescer. Com três irmãos, dois mais velhos e um mais novo, recorda os tempos de brincadeira no campo, as brincadeiras com bolas improvisadas, os banhos no Guadiana.

“Era miúdo de roubar fruta, ir aos pássaros, banhar-me nas poças de água e ir para o rio Guadiana. Depois, ia para o estádio, via os jogadores jogarem e dizia que queria ser jogador”, recordou Osvaldinho. Como forma de praticar e de conseguir jogar à bola com os amigos, tudo tinha de ser improvisado, desde a baliza até à bola, passando ainda pelo calçado, ou pela falta dele.

“Tirávamos os sapatos, para não chegarmos a casa e levarmos porrada por estarem estragados, e fazíamos com eles as balizas. Depois, com trapos e meias, que roubávamos às mães, fazíamos as bolas. Outras vezes, com algum dinheiro que tínhamos, alugávamos ao senhor que lá estava no campo, que era o responsável pelos equipamentos”, explicou o ex-internacional português. É desses tempos que surge a sua alcunha, que praticamente faz esquecer o “Firmino” e afirma o Osvaldinho: “Era muito moreno, de andar aos pássaros e da brincadeira com os outros. Houve um treinador, o António Feliciano, que foi um grande internacional do Belenenses, e que via os miúdos jogar atrás das balizas e escolheu alguns para uma escola. Escolheu-me a mim também e dizia que eu era parecido com o Osvaldinho, que jogava no Sporting, por ser muito moreno, e fiquei Osvaldinho também”.

No entanto, a sua infância foi marcada por uma perda importante. “Aos 11 anos fiquei sem o meu pai, faleceu. Foi um momento muito infeliz para mim”, referiu, acrescentando que a mãe, que ficou com os quatro filhos a cargo, acabava por ter pouco tempo para os “vigiar”, devido ao trabalho do campo.

PERCURSO PROFISSIONAL

De uma bola de trapos e a jogar descalço, Osvaldinho afirmou-se no Vitória e foi mesmo internacional pela Seleção Nacional. “Sonhava ser jogador de futebol, via as fotografias dos meus ídolos, e concretizou-se”. Começou com 11 anos nos infantis do Clube Desportivo de Beja, atividade que ia conciliando com alguma dificuldade com a escola.

“Faltava às aulas, saltava o muro e lá ia eu”, desvendou. Ainda assim, deixou a escola pelos 16, 17 anos. Ainda em Beja, passou pelo Despertar Sporting Clube e, nessa altura, Francisco Assunção, o diretor, “mandou-o” tirar a quarta classe para poder continuar a jogar. “Do Despertar vou outra vez para o Desportivo de Beja, os diretores davam-se bem, os adeptos nem tanto, mas aceitavam. Um era da terceira e outro era da segunda divisão nacional”.

Aos 18 anos saiu de Beja e parte, de comboio, para Lisboa, onde foi encontrar-se com a equipa do Vitória, com a qual viajou depois para a cidade-berço. Depois dos testes, foi aceite e ficou pelo clube. Quanto à sua chegada, já lá vamos, porque o seu percurso ainda conhece outros destinos.

Representou o Boavista, por empréstimo dos Conquistadores, mas entretanto teve de integrar a Polícia Militar e, depois, teve de ir durante dois anos para São Tomé e Príncipe, para o Ultramar. Ainda assim, e mesmo a milhares de quilómetros do seu país, foi jogando e treinando em clubes locais, de modo a conseguir-se manter-se em forma e
tendo em vista um regresso ao Vitória. Essa acabou por ser uma realidade, que depois passou pela chamada à Seleção Nacional.

Finda a sua ligação com o Vitória, ainda foi jogador/treinador em clubes como o Gil Vicente e o Felgueiras, sendo que depois optou por se fixar em definitivo em Guimarães, onde comprou e gere uma pastelaria.

CHEGADA A GUIMARÃES

Foi pela mão do “Sr. Teixeira”, um viajante que trabalhava para o presidente do Vitória, Pimenta Machado, que chegou ao clube do Rei. “Ele levava mercadoria do armazém do Sr. Pimenta Machado para as lojas de roupa”, revelou Osvaldinho, que explicou que quando esse viajante o viu jogar, indicou-o ao patrão como possível jogador para o clube. “Tive alguma dificuldade em habituar-me, não conhecia ninguém, andava muitas vezes sozinho. Havia outros jogadores de fora, na minha pensão estava um brasileiro e um cabo-verdiano”, referiu acerca dos seus primeiros tempos no Berço.

Ainda assim, foi em Guimarães que casou e teve os seus dois filhos, motivo pelo qual não pensou regressar ao Alentejo. “O Alentejo a mim já não me dizia mais nada porque a minha vida já estava feita aqui. Comprei o meu apartamento, montei a minha pastelaria e por aqui fiquei”, concluiu aquele que é considerado um dos melhores laterais esquerdos que já passou pelo Vitória.

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