Do populismo à perceção: Uncover regressa para questionar a forma como vemos o mundo
A apresentação da segunda edição do festival Uncover decorreu na tarde desta segunda-feira, 12 de outubro, nos Antigos Paços do Concelho, no Largo da Oliveira, em Guimarães. A sessão contou com a presença de Isabel Ferreira, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães, e de Tiago Sigorelho, presidente do Gerador, entidade organizadora do evento.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Durante a conferência foram reveladas as linhas curatoriais, os convidados nacionais e internacionais e as iniciativas comunitárias que vão marcar o regresso do festival, que acontece entre 12 e 15 de março de 2026, em vários espaços da cidade.
Na apresentação do festival, Isabel Ferreira sublinhou a dimensão crítica e estratégica do Uncover no contexto das políticas culturais do Município:”Vivemos num tempo em que a imagem deixou de ser apenas representação para se tornar um instrumento de persuasão, de poder e de construção de realidades e identidades. O Uncover afirma-se como um território de reflexão exigente e aberta, onde se questiona o que a imagem revela, mas também aquilo que oculta.”
A vereadora destacou ainda a importância da parceria entre o Município e o Gerador, entendendo-a como uma aposta estruturante na cidadania cultural: “Esta parceria é mais do que organizativa, é estratégica. Representa uma forma de pensar as políticas culturais e educativas como políticas de cidadania, assentes no pensamento crítico, na participação ativa da comunidade e na capacidade de convocar vozes nacionais e internacionais para nos ajudar a olhar o mundo com maior complexidade e responsabilidade.”
Segundo Tiago Sigorelho, o Uncover regressa como “um espaço de reflexão crítica sobre o poder das imagens na criação de perceções”, reforçando agora uma programação que cruza pensamento, arte, tecnologia e participação cívica. “O debate sobre o estado do mundo e sobre a noção que temos dele”, sublinhou.
Entre os principais destaques da programação está a rapper Capicua, que abre o festival no dia 12 de março, mas não num concerto. “Ela não vem cantar. Vem fazer uma masterclass sobre a importância da voz da mulher no mundo atual, num tempo que parece ocupado pela figura do homem forte. Qual é, afinal, o papel da mulher?”, explicou Tiago Sigorelho, acrescentando que a artista “tem muito para dizer”.
Outro dos nomes centrais é o filósofo italiano Franco Berardi, de 79 anos, considerado uma referência mundial no pensamento contemporâneo. “É uma oportunidade incrível estarmos na presença de alguém que provavelmente já não veremos muitas vezes em Portugal”, afirmou. Berardi irá falar sobre a imagem como arma de desinformação, tema central do seu mais recente livro, lançado no ano passado.
O investigador britânico Bobby Duffy, professor de políticas públicas e diretor do Policy Institute do King’s College de Londres, é outro dos convidados de destaque. Autor do livro Os Perigos da Perceção, Duffy irá apresentar, pela primeira vez, um estudo inédito sobre perceções em Portugal, desenvolvido especificamente para o Uncover. “Quando falámos com ele percebemos que não havia dados portugueses no livro. Então decidimos preencher esse vazio”, explicou Sigorelho. O estudo, com 1.200 entrevistas representativas da população residente, compara perceções dos portugueses com dados estatísticos reais e será apresentado em estreia no festival.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
A programação inclui ainda uma forte componente comunitária, com almoços comunitários nos dias 13 e 14 de março, na Pousada da Juventude e na Casa da Memória, seguidos de percursos performativos conduzidos pelos artistas vimaranenses Catarina Braga e Max Fernandes. “Para nós, esta dimensão da comunidade é mesmo muito importante”, frisou Tiago Sigorelho.
No campo das artes visuais e da tecnologia, o festival recebe o coletivo alemão Froh, que apresenta uma instalação dedicada ao céu noturno de Guimarães, cruzando a observação astronómica com uma reflexão crítica sobre a ocupação do espaço público pelos satélites da constelação Starlink.
O Uncover acolhe ainda um workshop do coletivo londrino Forensic Architecture, referência mundial no uso da tecnologia para a defesa dos direitos humanos, e uma sessão dedicada ao People’s Planet Project, que utiliza ferramentas digitais para proteger territórios indígenas.
A programação integra também a presença do cineasta palestiniano Alla Aliabdallah, realizador do filme Palestine Comedy Club, que estará em Guimarães para falar sobre humor como forma de resistência. “Pode parecer estranho pensar em comédia na Palestina, mas é possível, e o filme retrata isso mesmo”, destacou Sigorelho.
Antes do festival, entre janeiro e março de 2026, o Uncover promove o ciclo de conversas “Singularidades de Guimarães”, com curadoria de Pedro Silva e Natacha Carvalho. As sete conversas, de entrada livre, abordam temas como trabalho, comunidade, ensino, conhecimento, identidade, periferia e futuro, partindo da pergunta: “Que imagem é que temos de Guimarães, e que imagem é que os outros têm de Guimarães?”, explicou o responsável.
Em termos de bilhética, o passe geral para os quatro dias do festival custa 39 euros, sendo reduzido para 21 euros para residentes em Guimarães. Os bilhetes diários têm o valor de 24 euros para o público em geral e 13 euros para vimaranenses. O festival conta com o apoio do Município de Guimarães, que financia o Uncover em 37.500 euros.





