E contudo… move-se

Por César Machado.

Quando a morte nos entra em casa pela porta da frente, no nosso reduto mais íntimo, no interior de nós, “escutamos” as palavras que até aí apenas “ouvíamos” em anteriores Missas de Sufrágio: “A morte é a herança comum de todos os homens”. É nesse “momento único” que esbarramos em tais palavras e damos por nós a “ver” e não apenas a “olhar”, como defende Siza Vieira ser obrigação do arquitecto.

A assunção daquela herança comum é uma parte de uma dura etapa das nossas vidas que, invariavelmente, vem ter connosco. E para a vida ficam sentimentos, experimentações, vivências, a real dimensão do pouco que ocupamos. E isto não fica apenas “lembrado” — que não é coisa do intelecto —, mas “recordado”, de re cuore, de guardar no coração, onde estes momentos nos ficam. É o que nos sucede quando nos morrem os nossos, é o que acontece quando vivemos as suas mortes. E quando nos morrem, e uma parte de nós com eles, é com dignidade que asseguramos a sua partida e é condignamente que com eles estamos. Cada um tem “o direito a morrer a sua própria morte”, escreveu Miguel Torga. Cada um tem, igualmente, o direito a “viver a sua própria morte”, dir-se-á. E os seus com ele. Todos temos o direito a viver a morte dos nossos, que é um pouco de nós a morrer também. Nisto residirá um dos maiores mistérios desse mistério maior que é a vida.

Ora, um dos lados mais penosos destes dias de chumbo, reside na dignidade roubada ao acto de morrer. As imagens de Itália e de Espanha, com filas de camiões militares atravessando a solidão nocturna de cidades vazias, carregados de urnas, filas de urnas, sem que um só familiar esteja por perto, nem mesmo na manhã seguinte para a despedida possível, mostram-nos que nem se cumpre o direito de cada um a morrer a sua própria morte, nem o direito dos familiares a viver a morte dos seus. A morte surge anónima, sem rosto, despersonalizada, sem que, quem fica, possa ficar com a última imagem do rosto de quem parte, porque parte em disciplinados grupos de urnas todas iguais, todas fechadas, sem uma referência, sem uma simples flor que ninguém pôde colocar. Todos morrem sós. O que irá na alma dos Italianos e Espanhóis quando pensam “Os nossos morrem-nos sem nós. Nós estamos sem eles na sua partida”? E na China, e…? Tempos de chumbo, estes.

E, contudo… e, contudo, algo se move. Nunca, como hoje se assistiu a uma tão grande aproximação social, apesar do imperioso distanciamento físico. (Esta ideia do “distanciamento social” só pode dever-se a infeliz erro semântico). Nunca, como hoje, percebemos que a sorte de cada um de nós depende tanto de cada um dos outros. E os outros são todos os outros. Neste sentido pode dizer-se que nunca tantos dependeram de tantos para garantir a vida de cada um. E isto, independentemente das condições ou “poder” de cada um. Este cordão humano gigantesco, ainda que de uma varanda para outra, de um país para o outro, é também um momento novo nas nossas vidas. A ideia de que todo o próximo é nosso irmão nunca terá feito tanto sentido. E esse momento é de esperança. A esperança de sairmos disto com a consciência de que todos precisamos de todos, que ninguém, por mais poder que tenha, tem poder suficiente para não depender do mais humilde entre o seu próximo. Nós vamos sair disto. Assim saibamos recordar, para sempre, que valemos o que vale o outro. E que guardemos no coração todas as pessoas dos serviços de saúde, a quem nunca conseguiremos dizer com a dimensão devida- OBRIGADO.

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