ELES NÃO SABEM NEM SONHAM

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista clínico

No rescaldo das eleições legislativas, mais do que falar sobre quem ganhou e quem perdeu, seria importante reflectir sobre as causas que levaram a que a abstenção atingisse, em eleições nacionais, o valor mais elevado desde há 44 anos.

Não resisto a apontar como uma das causas para este fenómeno, o facto de nos terem roubado os sonhos, como proclamava recentemente na ONU, perante uma assembleia constituída por centenas de decisores políticos do mundo inteiro, a jovem activista sueca Greta Thunberg.

Recordo que Cavaco e Silva começou o seu declínio como primeiro-ministro, quando decidiu “roubar” aos portugueses o feriado de Carnaval. Também Assunção Cristas, na última semana de campanha foi literalmente escorraçada na rua de Santa Catarina, na cidade do Porto, por uma senhora que a acusava de lhe ter roubado os feriados.

Referia-se naturalmente aos feriados que foram suspensos durante o governo de Passos Coelho, de que Cristas fez parte e que seriam mais tarde repostos pelo governo da Geringonça, que se esqueceu de usar este facto como trunfo eleitoral, como fez com a reposição dos salários e das pensões, que haviam sofrido cortes no famigerado tempo da Troika. Por aqui se vê que a própria Geringonça, apesar de apregoar o contrário, ao ponto de sonhar com vacas que voam, também ela desvaloriza esta vertente mais poética da vida humana.
Reparem que as pessoas não se queixam de lhes roubarem a reforma, os rendimentos, ou as poupanças que terão confiado à guarda dos bancos. Apenas reclamam que lhes restituam os sonhos e tudo o que com eles se relaciona.
António Gedeão, no conhecido poema “Pedra Filosofal”, já dizia: “Eles não sabem nem sonham/ que o sonho comanda a vida/ que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança.”

Certamente eles, os políticos, também não leram Fernando Pessoa, senão saberiam que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce…”

Muitos dos abstencionistas destas legislativas terão sonhado com “amanhãs que cantam”, com um país solidário e livre de corrupção, mas é provável que tenham acordado com o pesadelo das alterações climáticas, de Tancos, do Processo Marquês, do inferno de Pedrogão e por aí adiante…
Bem ou mal, deixaram de acreditar nos políticos e, o que é mais grave, na própria Democracia e agora ou lhes restituem a esperança e a capacidade de sonhar ou serão cada vez em maior número.

Resta-nos, como contraponto, acreditar que tudo não passa de um período transitório e que Portugal terá cada vez mais poetas como José Tolentino Mendonça, cuja função é semear a utopia num terreno infestado pelo materialismo. Haja esperança…

 

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