Entre arte, política e tecnologia: Uncover debate o poder das imagens em Guimarães

O festival Uncover regressa a Guimarães entre os dias 12 e 15 de março, com uma programação que cruza pensamento, artes visuais, tecnologia e participação comunitária, convidando o público a refletir sobre o papel das imagens na construção das perceções e na interpretação do mundo contemporâneo.

© CMG

A iniciativa, organizada pelo Gerador com o apoio do Município de Guimarães, volta a assumir-se como um espaço de debate crítico sobre os mecanismos através dos quais as imagens influenciam a forma como compreendemos a realidade.

Na apresentação do festival, a vereadora da Cultura, Isabel Ferreira, destacou a importância do evento no contexto das políticas culturais do município. “Vivemos num tempo em que a imagem deixou de ser apenas representação para se tornar um instrumento de persuasão, de poder e de construção de realidades e identidades. O Uncover afirma-se como um território de reflexão exigente e aberta, onde se questiona o que a imagem revela, mas também aquilo que oculta”, afirmou.

A responsável sublinhou ainda a relevância da parceria entre o município e o Gerador, classificando-a como uma aposta estruturante na cidadania cultural. “Esta parceria é mais do que organizativa, é estratégica. Representa uma forma de pensar as políticas culturais e educativas como políticas de cidadania, assentes no pensamento crítico, na participação ativa da comunidade e na capacidade de convocar vozes nacionais e internacionais para nos ajudar a olhar o mundo com maior complexidade e responsabilidade.”

Também Tiago Sigorelho, diretor do Gerador, reforçou a vocação do festival como espaço de reflexão. Segundo o responsável, o Uncover regressa como “um espaço de reflexão crítica sobre o poder das imagens na criação de perceções”, ampliando agora uma programação que coloca em diálogo pensamento, arte e tecnologia. “O debate sobre o estado do mundo e sobre a noção que temos dele está no centro desta edição”, explicou.

Capicua abre o festival com reflexão sobre feminismos

Entre os momentos mais aguardados está a participação da rapper e escritora Capicua, que inaugura o festival no dia 12 de março com uma masterclass dedicada ao papel da voz das mulheres no mundo contemporâneo.

Ao contrário do que poderia ser esperado, a artista não sobe ao palco para um concerto. “Ela não vem cantar. Vem fazer uma masterclass sobre a importância da voz da mulher no mundo atual, num tempo que parece ocupado pela figura do homem forte. Qual é, afinal, o papel da mulher?”, explicou Tiago Sigorelho.

A sessão integra o arranque oficial do festival, que começa durante a tarde com a inauguração da exposição “Dez ensaios para o futuro”, na Pousada da Juventude de Guimarães, e com a abertura de duas instalações na Galeria Garagem Avenida: “Reclaiming the Night Sky”, do coletivo alemão Froh!, e “Singularidades de Guimarães”, de Rolando Ferreira.

Pensamento contemporâneo em destaque

Outro dos nomes centrais da programação é o filósofo italiano Franco Berardi, referência internacional do pensamento contemporâneo, que participa no festival aos 79 anos. Berardi apresenta uma masterclass dedicada à manipulação da imagem na era dos populismos, refletindo sobre o papel das imagens enquanto ferramentas de desinformação, tema que atravessa o seu mais recente livro. “É uma oportunidade incrível estarmos na presença de alguém que provavelmente já não veremos muitas vezes em Portugal”, sublinhou Sigorelho.

Também o investigador britânico Bobby Duffy, professor de políticas públicas e diretor do Policy Institute do King’s College London, marcará presença no festival. Autor do livro Os Perigos da Perceção, Duffy apresentará pela primeira vez um estudo inédito sobre perceções em Portugal, desenvolvido especificamente para o Uncover. O estudo baseia-se em 1.200 entrevistas representativas da população residente e compara as perceções dos portugueses com dados estatísticos reais, procurando revelar os desfasamentos entre aquilo que as pessoas pensam e aquilo que efetivamente acontece.

Tecnologia, arte e direitos humanos

A programação inclui ainda workshops e debates que exploram a relação entre tecnologia, investigação e direitos humanos. Entre eles está uma sessão promovida pelo coletivo londrino Forensic Architecture, referência internacional no uso de ferramentas digitais e análise de imagens para investigar violações de direitos humanos.

O festival recebe também o projeto People’s Planet Project, apresentado por Abdel Mandili, que utiliza tecnologia digital para apoiar a defesa de territórios indígenas e causas ambientais.

No campo das artes visuais e da reflexão tecnológica, o coletivo Froh! apresenta ainda uma instalação dedicada ao céu noturno de Guimarães, cruzando observação astronómica com uma reflexão crítica sobre a crescente presença de satélites da constelação Starlink e o impacto dessa ocupação no espaço público.

Humor como forma de resistência

Outro momento relevante da programação é a participação do realizador palestiniano Alaa Aliabdallah, autor do filme Palestine Comedy Club. O cineasta estará em Guimarães para discutir o humor como forma de resistência política e cultural, numa conversa dedicada ao contexto palestiniano.

Para além dos debates e das atividades artísticas, o Uncover mantém uma forte dimensão comunitária. Nos dias 13 e 14 de março, o festival promove almoços comunitários, seguidos de percursos performativos pela cidade conduzidos pelos artistas vimaranenses Catarina Braga e Max Fernandes. “Para nós, esta dimensão da comunidade é mesmo muito importante”, frisou o diretor do festival.

Pensar a identidade de Guimarães

Antes do início do festival, o Uncover promoveu ainda o ciclo de conversas “Singularidades de Guimarães”, com curadoria de Pedro Silva e Natacha Carvalho. Ao longo de sete sessões abertas ao público foram discutidos temas como trabalho, comunidade, ensino, identidade e futuro, sempre a partir de uma pergunta central: que imagem temos de Guimarães, e que imagem têm os outros da cidade?

O passe geral para os quatro dias do festival tem o custo de 39 euros, sendo reduzido para 21 euros para residentes em Guimarães. Os bilhetes diários custam 24 euros para o público em geral e 13 euros para vimaranenses. O festival conta com o apoio do Município de Guimarães, que financia esta edição com 37.500 euros.

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