Equipas “incansáveis” lutam para dar resposta a “cada vez mais” pedidos de apoio

Por estes dias, para muitos vimaranenses, a pandemia é sinónimo de desemprego e de perda de rendimentos. Por consequência, multiplicam-se os pedidos de apoio. Só na Cantina Social do Lar de Santo António, nos últimos dois meses, passaram a ser servidas mais 100 refeições diárias, enquanto a Refood passou a apoiar mais 50 pessoas.

Voluntários da ReFood Guimarães
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São várias as entidades que nos últimos tempos têm apoiado famílias e pessoas com maiores vulnerabilidades e que já dão sinais de aumento de procura. É o caso da organização 100% voluntária ReFood que, desde o início da pandemia, apoia mais cerca de 50 pessoas, num total de 140. “Além dos beneficiários, foram-nos solicitadas ajudas de juntas de freguesia para famílias que estão sinalizadas”, revela Manuela Mendonça, vice-coordenadora da ReFood Guimarães. Neste aumento incluem-se pessoas “que, ou porque ficaram desempregadas, ou porque eram feirantes, deixaram de ter os rendimentos que tinham”, explica. Manuela Mendonça antevê mesmo que o aumento “não ficará por aqui” e haverá “cada vez mais solicitações”. “Economicamente não vai ser muito fácil. As pessoas mais frágeis são aquelas que sofrem mais”, lamenta.

A procura aumentou também na Cantina Social do Lar de Santo António. Se há dois meses servia 40 refeições (20 ao almoço e 20 ao jantar), atualmente serve 140 (80 ao almoço e 60 ao jantar). “Tem sido uma coisa impressionante. Nesta última semana abrandou um pouco, mas nas semanas anteriores vimo-nos aflitos”, adianta José Castelar, presidente da direção do Lar de Santo António. Neste crescimento incluem-se “pessoas carenciadas que não tem condições para comer noutro sítio”, conta. O responsável acrescenta que se incluem pessoas “da moedinha e do estacionamento”. “Houve um período que não havia quase viaturas na rua e aquela moedinha deixou de existir. Inicialmente, cobrávamos um valor simbólico, de 50 cêntimos. Agora não estamos a cobrar nada, porque as pessoas simplesmente não têm”, acrescenta.

Olhando para o Centro de Acolhimento Temporário para os sem-abrigo, nas instalações da CERCIGUI, Armando Guimarães, presidente da comissão administrativa da Delegação de Guimarães da Cruz Vermelha, declara que a ocupação vai “oscilando” entre as oito e as 14 pessoas. Atualmente, ocupam o espaço nove indivíduos, oito dos quais do sexo masculino. “Uma pessoa do sexo feminino saiu ontem, porque lhe conseguimos encontrar um trabalho e já tem onde ficar. Estamos a tentar encontrar um possível ingresso no mercado de trabalho e a apoiar na organização da vida pessoal de cada um. Já saíram três pessoas com emprego”, anuncia. Armando Guimarães reforça que o aumento da procura tem sido mais evidente no âmbito alimentar. “Temos sido abordados por vários agregados familiares nesse sentido, nas mais diferentes partes do concelho”, revela. Porém, a previsão do responsável é que o “volume de trabalho venha a aumentar também nos centros de acolhimento”. Para Rui Leite, presidente da direção da Cercigui é preciso recordar que “os sem-abrigo são cidadãos como os outros”. “Sendo o nosso espaço no centro da cidade, conseguimos criar um ambiente em que estão bem e sentem-se seguros”, garante.

Centro de Acolhimento Temporário
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Voluntários (e não só) desdobram-se em esforços

Com menos voluntários disponíveis para trabalhar no terreno, as próprias instituições tiveram também que se adaptar e desdobrar para atender a mais pedidos. A Refood teve que alterar o funcionamento e, em vez de recolher produtos alimentares de restaurantes, passou a depender de doações de particulares e instituições para entregar cabazes alimentares. “Os nossos cabazes não são como gostaríamos, mas estamos a dar o que conseguimos recolher”, aponta Manuela Mendonça. Apesar do distanciamento, os voluntários da Refood Guimarães tentam passar aos beneficiários uma mensagem “de esperança”. “É muito complicado, porque infelizmente nesta fase desta vida também temos o distanciamento social. O nosso trabalho também passava por falar com os beneficiários e agora isso não acontece. Para nos protegermos e protegermos os outros, já não existe uma proximidade tão grande. Vamos trabalhando como podemos”, confessa.

A organização conta agora com menos voluntários no terreno, por se tratarem “ora de pessoas com alguma idade, ora de jovens que vivem com pais e avós”, explica Manuela Mendonça. Há, ainda assim, voluntários a ajudar a partir de casa, porque “nem todo o trabalho implica estar no terreno”. “O grande problema é que não pode estar muita gente no nosso centro de operações, pelo tamanho”, adiciona. Porém, há novas pessoas a inscrever-se para ajudar a Refood que, no seu todo, tem tido um trabalho “incansável”, classifica a vice-coordenadora.

Já à Cantina Social do Lar de Santo António chegam pedidos da autarquia, da Fraterna e de juntas de freguesia. “Não há condições de negar”, admite José Castelar. Para dar resposta ao crescimento dos pedidos, o Lar de Santo António tem aguentado “com muito esforço”, revela. “Estamos a pensar pedir apoio ao Instituto de Emprego, para aumentar o pessoal sem custos. Estamos a tentar resolver da melhor maneira”, confessa. As refeições prontas são fornecidas através de embalagens alumínio e “só isso é um custo acrescido”, lembra. “O Lar não tem condições financeiras para suportar este aumento de custos da cantina. Tentamos que não seja um causo da instabilidade financeira do próprio lar, mas a autarquia irá dar-nos uns apoios”, aponta.

Relativamente ao funcionamento do próprio Lar, José Castelar conta que tem trabalhado com equipas espelho que “têm sido de uma dedicação e sentimento de altruísmo altíssimo”. “Não é fácil estar enclausurado num lar. Não é fácil gerir. Estamos atentos e muito gratos pela equipa que temos”, elogia.

Utente do Centro de Solidariedade Humana Professor Emídio Guerreiro
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O Lar de Santo António está ainda a preparar um sistema para que os familiares possam visitar os utentes, no futuro, com tempo, dias e horas marcadas. “Sentimos as pessoas impacientes com a família esta distante. A tecnologia resolve apenas uma parte”, explica José Castelar.
Do lado da Cruz Vermelha, Armando Guimarães fala em dias “muito ativos”, que passam pela gestão de projetos distintos e de uma plataforma com mais de 500 voluntários, dos quais 160 estão no ativo. “A nossa equipa técnica vai-se multiplicando nessas respostas. Damos apoio em dois lares. Temos muitos pedidos de entrega de refeições a crianças que têm direito à cantina escolar e realizamos alguns recados e serviços a pessoas idosas. Na semana passada realizamos mais de mil testes aos profissionais dos lares”, resume.

Já a Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (SCMG) conta com 220 funcionários e 300 utentes. “Em termos de contenção da pandemia é muito difícil. Começamos em contenção máxima no dia 08 de março. A partir desse dia, nunca mais ninguém entrou nas nossas seis valências – cinco lares e unidade de cuidados continuados”, garante Eduardo Leite, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães. O responsável recorda que se trata de “uma mudança de paradigma”, que abrange “toda a logística” e “implica também um gasto de dinheiro extraordinário para a instituição. Segundo Eduardo Leite, em termos alimentares, “não falta nada à Santa Casa”. “Há instituições fortes da cidade que têm feito donativos. Há muita gente a oferecer viseiras à Santa Casa, estamos agradecidos”, declara.

O provedor da SCMG reforça que ter cerca de 300 utentes nas instituições, dentro de quatro paredes, há dois meses “é muito complicado”. “É um desafio que tem sido superado por um trabalho excecional do grupo de animação da Santa Casa, que está todos os dias com os utentes e que se reinventam diariamente”, elogia. “Temos muitos utentes que saíam, almoçavam fora – hoje estão todos lá dentro. Manter toda a gente bem-disposta é complicado. Mas os funcionários e colaboradores têm sido incríveis”, enaltece. A Santa Casa, em maio, vai continuar “a não dar abertura nenhuma”, por acreditar “que ainda é um bocado cedo”.
A Refood solicitou um apoio à SCMG para cerca de seis pessoas, que não têm condições para cozinhar. “Damos de bom grado, somos parceiros e ajudamos no que precisarem. A Câmara também tem ajudado. As pessoas iam ao lar buscar as refeições para o almoço e jantar e agora a autarquia faz a distribuição”, explica. Para o responsável o segredo está “na articulação de solidariedade entre todos”. “Em Guimarães há uma franca harmonia de solidariedade entre todas as instituições. As coisas têm fluído muito bem”, elogia

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