Estreia absoluta no GUIdance convoca a humanidade na sua fragilidade e risco

O pequeno auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, recebe este sábado, 14 de fevereiro, às 18h30, a estreia absoluta de “Quando Vem a Taciturna de Limiar em Limiar o Presente Frágil”, a nova criação de Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristóvão, integrada na programação do GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea.

© João Octávio Peixoto

O espetáculo parte de um universo denso de referências filosóficas e literárias para confrontar o “frágil vazio do agora”. As Mahavydias, deusas ferozes da sabedoria impura “que dói e que ri”, cruzam-se com Fernando Pessoa delirando “Oriente a oriente do Oriente”, com a melancolia rarefeita de Camilo Pessanha entre lençóis de linho, com o medo destilado em éter poético por Al Berto e com a sombra invocada por Paul Celan na sua “Canção de uma Dama na Sombra”. É nesse território de encruzilhadas que a dupla de coreógrafos constrói uma peça onde a dança se afirma como lugar de tensão entre passado, presente e futuro.

Em palco estarão quatro bailarinas, todas com percursos distintos, tradições de treino diferentes e identidades muito próprias. Não há um único momento em uníssono. “São quatro partituras, são quatro espetáculos dentro de um que têm que se encontrar por mistério, milagre”, afirma Hugo Calhim Cristóvão. A sincronização nasce da diversidade e não da repetição, numa conjugação que exige um rigor extremo na construção coreográfica e espacial.

Essa complexidade estende-se ao desenho de luz, elemento central na perceção do espetáculo. “É extremamente importante porque na construção de um espetáculo para palco a luz é fundamental pela maneira como é percebido. Ou seja, nós ensaiamos muito num espaço de estúdio”, explica Joana von Mayer Trindade. O desafio está em preservar a crueza e a presença que caracterizam o trabalho da companhia. “Temos um trabalho que vive muito da interpretação e da crueza e da presença. É muito difícil fazer luzes que deem caráter central aos performers, aos bailarinos, e não apenas à construção de um espaço cénico.”

Para os criadores, a complexidade é assumida como valor. “Amar a complexidade, não ter medo da complexidade humana”, defendem. Se a complexidade técnica é trabalhável e controlável, a humana, feita de relações, conflitos e diferenças, exige outro tipo de coragem. É também contra a redução dessas relações que a peça se posiciona, reivindicando espaço para a fragilidade e para o confronto.

O público pode esperar uma experiência intensa. “Acho que podem esperar uma dança de entrega e de risco e de dádiva e de transcendência”, afirma Joana. Hugo acrescenta: “É um espetáculo muito físico, longo, exigente em termos técnicos e de construção. Interpela o espectador, cria uma relação que tenta quebrar uma certa quarta parede, sem facilitismos.” A intenção é criar um “terceiro espaço”, que não pertence exclusivamente aos intérpretes nem ao público, mas que emerge da situação partilhada da apresentação.

Arriscar a falha é parte integrante do processo. Esta é a quarta presença da dupla no GUIdance, e cada vez, garantem, se torna mais importante “arriscar os momentos da fragilidade, arriscar não ter o controlo”. Não se trata de catarse fácil, mas de procurar a humanidade na dança “na sua fraqueza e na sua dádiva”.

Embora os ensaios da peça tenham começado no final de setembro, o projeto remonta a dois anos de investigação no âmbito de “Dança e Filosofia, Ética, Raízes e Horizontes do Presente Frágil”, ciclo de que esta é a segunda criação. Ao longo dos últimos meses, a equipa realizou residências no Porto, Aveiro, Pombal e noutros locais onde o espetáculo será apresentado. Depois da estreia em Guimarães, a digressão passará por Aveiro, Pombal, Famalicão, Porto e Coimbra.

Essa prática de residências em diferentes contextos é assumida como parte do processo criativo. A intenção é permitir que o espetáculo se impregne dos espaços, das culturas e das especificidades de cada território, deixando-se transformar por eles.

Sobre o GUIdance, Joana e Hugo destacam a solidez da programação e a forma como o festival conjuga dimensão local e projeção internacional. Consideram-no “extremamente local” na relação que constrói com o território e com o público, mas simultaneamente aberto ao mundo, ao cruzamento entre companhias nacionais e estrangeiras. “É sólido na sua maneira de pensar e de ser programado”, afirmam, defendendo que gostariam de ver festivais desta natureza multiplicarem-se pelo país.

No sábado, o convite é para assistir ao “desengolhar da obra” e partilhar um momento de risco e pensamento. Entre fragilidade e força, diversidade e encontro, “Quando Vem a Taciturna de Limiar em Limiar o Presente Frágil” propõe uma dança que não evita o conflito nem a incerteza, antes os transforma em matéria viva de criação.

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