“EU E OS POLÍTICOS”

por CARLOS VASCONCELOS
Advogado

No início de Junho de 2003, José António Saraiva escreveu, no semanário Expresso, um texto em que comentava as ideias defendidas por Álvaro Cunhal numa entrevista publicada nessa mesma edição do Expresso. Na ocasião, o histórico líder do PCP enfrentava, devido à sua avançada idade, graves problemas de visão, a ponto de se encontrar quase cego. Nesse texto, José António Saraiva, comentando as ideias defendidas na entrevista, aludiu ao problema de visão que afectava Álvaro Cunhal, dizendo que as ideias revelavam uma “cegueira face à realidade”.

Muitos anos depois, perguntado se alguma vez se tinha arrependido de algo que tivesse escrito, respondeu que se arrependia de, nesse texto, se ter aproveitado de um problema de saúde, para criar uma imagem em sede de comentário político. No entanto, logo a seguir, não deixou de dizer que, em 2003, não teve problemas de consciência em escrever o que tinha escrito, pois sabia que o visado não ia conseguir ler … Foi pior a emenda que o soneto. Como se os responsáveis por esse mau gosto fossem aqueles que lessem o texto ou comentassem a sua existência a Álvaro Cunhal e não aquele que o tinha escrito. Vem esta introdução a propósito do recente livro de José António Saraiva: “Eu e os Políticos” e serve para percebermos que o mau gosto e a falta de bom senso do seu autor não é só dos dias de hoje.

Não li, ainda, o livro, apesar de já o ter comigo (sem o ter comprado, até porque não penso que se justifique), mas li a entrevista que o autor deu, na semana passada, à revista Sábado, o que é suficiente, tendo em conta o que o autor aí diz, para escrever este artigo de opinião.

Da leitura da entrevista, para além do autor pensar que o livro vai ser um clássico da literatura portuguesa e de que se arrisca a receber o Prémio Nobel da Literatura, resulta, em síntese, que, para José António Saraiva, as confidências sobre a vida privada têm um prazo de validade, que varia entre os dez e os trinta anos e, por isso, todos lhe podem contar confidências sobre a vida privada, pois sabem que só as vai tornar públicas dez, vinte ou trinta anos depois…

Um triste exemplo de como é possível ser-se desleal, para tratar de encher a carteira.

 

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