Evoluir regredindo

por Carlos Guimarães

A proliferação desregrada e selvagem do turismo nos últimos anos fez crescer em mim uma preocupação. Tenho-o manifestado mas nunca fui entendido. A invasão turística devorava tudo à sua passagem e crescia como uma planta invasora num solo que a sociedade oferecia cada vez mais fértil. Era a galinha dos ovos de ouro. A identidade dos sítios e das gentes perdia-se na sua adaptação à voracidade turística. Uma terra sem turismo era considerada uma espécie de terra atrasada e sem processo evolutivo, um sítio onde não passou Cristo. Era evidente que a propagação do mal teria de ser interrompida, mas as atitudes e medidas por parte das pessoas, dos Estados, e da grande mãe economia, ordenava o contrário. A multiplicação do dinheiro comanda as mentes, a inteligência e o desejo das pessoas. Dava-se o cumprimento da regra do mais e mais, quanto mais melhor, está tudo bem e quem diz o contrário não sabe o que diz. Por nossa vontade e disciplina não fomos capazes de ver o erro, de parar para pensar e definir um novo rumo para a atividade turística. Deixamos a bolha crescer e insuflamos a bolha muito além do tolerável. Não fomos capazes de o fazer de forma controlada e a coisa fez-se com estrondo segundo as regras da natureza e da pior maneira, o colapso. Agora sabemos que o futuro do turismo e da nossa maneira de ser e estar na vida será obrigatoriamente diferente. A natureza definiu o rumo sem deixar livro de instruções, cabe a nós escrever o guião e cumprir. Hoje exibimos fotos da nossa horta com orgulho e felicidade, ontem as fotos eram de praias exóticas. As atitudes moldam-se, os hábitos ajustam-se e a felicidade adapta-se. Não vamos ficar todos bem, já aprendemos muito, falta agora concretizar. Temos tempo.

As flores existem para serem apreciadas presas ao solo, onde nascem, crescem e morrem para voltar a nascer, mas nós teimamos em metê-las em jarras onde definham até morrer e não germinam de novo. Temos de evoluir regredindo e se não conseguirmos dar esse passo atrás seremos enganados ao seguir para diante. Está na hora de olhar e meditar em nós próprios, de ajustar as nossas vidas centralizando-as naquilo que é verdadeiramente importante, o nosso bem estar focado no essencial e refutando o acessório. Fechados em casa tivemos de nos reinventar, arrumamos o nosso espaço para criar mais espaço e libertamo-nos do entulho. Apercebemo-nos que também fomos vítimas do consumismo selvagem e prometemos que adiante será diferente. Se já o fizemos em casa, teremos de o fazer connosco, arrumar o lixo que acumulamos ao longo da vida para ganhar mais espaço para receber e dar o que é fundamental. Se assim for, não só ficaremos bem, mas ficaremos melhor.

 

 

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