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Fechados em casa, a (tentar) aprender e ensinar

O novo coronavírus revelou fragilidades e apanhou todos de surpresa. Na educação, aposta-se no ensino à distância, mas nem todos os alunos têm acesso às novas tecnologias. E os professores começam já a ficar “exaustos”.

© Direitos Reservados

As diferentes divisões de casa servem, agora, de sala de aula e recreio. As aulas virtuais podem ser o futuro, mas “ninguém estava a contar com esta situação” e que o futuro chegasse acompanhado pelo isolamento social para combater um vírus. As escolas estão despidas de gente há semanas, faz-se o possível para contornar a situação e providenciar o melhor ensino que a distância permite. Entre reuniões, dúvidas que chegam em forma de e-mails, aulas por preparar e uma adaptação a um (temporário) modo de viver, os professores desdobram-se em trabalhos para que tudo decorra com a normalidade possível.

“Tem sido muito complicado”, desabafa Maria do Rosário Vieira, professora na EB 2,3 Abel Salazar, em Ronfe. Este ano, a vimaranense leciona História a quatro turmas do 5.º ano de escolaridade. Saídas do ensino primário, são muitas as crianças que ainda não conseguem fazer-se valer das ferramentas da internet para aprender — e nem todas têm os pais em casa, em regime de teletrabalho. A professora diz mesmo que há “muitos meninos sem facilidade de acesso à internet e muitos deles sem telemóvel”, sequer. “Não tem sido muito fácil, a gestão com pais e alunos. Muitos meninos não conseguem abrir e-mail, alguns apagam a informação sem querer. Diria que 40% dos meus alunos não dão feedback ao trabalho que estão a realizar. Há miúdos que não têm forma de trabalhar”, conta.

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Foi repentino e apanhou todos de surpresa. Por isso, Maria do Rosário Vieira explica que a escola tentou resolver a situação com a criação de um e-mail para cada turma. Só que também há pais que não sabem usar o e-mail. Aí, cabe ao professor fazer o melhor que pode para dar a volta ao problema e explicar, também aos pais, o que fazer. As reuniões entre professores são realizadas por videoconferência, e agora serão ainda mais frequentes. Preparam-se fichas para que as crianças trabalhem em casa, estuda-se a melhor forma de ensinar. E, como numa sala de aula, há sempre dúvidas por parte dos mais novos: “Estamos constantemente a receber e-mails dos miúdos porque não conseguem responder a certa questão.” Por isso, defende que “os pais devem ser os primeiros a receber as tarefas”, já que as crianças, em casa, também precisam “de ter alguém que as oriente”.

Trabalhos dobrados

Entre todo o trabalho, o cansaço acumula-se. A exaustão dos professores é já assunto em diversos níveis de ensino. “Estes dias valeram mais do que um período inteiro. Foram dias muito exigentes, houve muito trabalho e muitos sacrifícios”, disse Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), citado pela Lusa. “Os professores estão a trabalhar muito mais. Há muito cansaço, já se começa a notar que estão a ficar exaustos”, contou à Lusa o presidente da Sindicado Nacional do Ensino Superior (SNESup), Gonçalo Leite Velho. Por cá, a Universidade do Minho fez a transição para o ensino digital e anunciou medidas para o decorrer deste segundo semestre. E Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, frisou que “os professores foram confrontados com um trabalho diferente para o qual não têm formação”, já que a classe docente portuguesa “é das mais envelhecidas da Europa”. De acordo com um relatório anual sobre educação da OCDE apresentado em setembro do ano passado, apenas 1% dos professores portugueses tem menos de 30 anos.

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E a vimaranense tem de orientar, também, o filho. José estuda numa outra escola e está no 6.º ano. “Nos primeiros 15 dias não foi muito fácil. Como o ritmo não é o mesmo da escola, demorava muito mais tempo para realizar as tarefas. Claro que na sala de aula é muito mais dinâmico”, conta. Contudo, da parte da escola do filho, desde o início que os e-mails com as tarefas são encaminhados para os pais — e não foram poucos os trabalhos que José teve de fazer. “Nem sempre foi fácil gerir o meu trabalho com o dele. Ele está no 6.º ano e, nesta idade, eles precisam de orientação. Muitos achavam que já estavam de férias e que não tinham de cumprir certas horas.”

Contudo, Maria do Rosário Vieira perspetiva que, agora, os professores acabarão por perceber como se organizará o 3.º período. Ainda não há decisão tomada pelo Ministério da Educação quanto à avaliação do final do terceiro período. Contudo, Tiago Brandão Rodrigues disse, em entrevista à Renascença, que “tudo indica” que as aulas do 3.º período serão à distância. O anúncio sobre a conclusão deste ano letivo acontecerá, certamente, a 09 de abril, data indicada por António Costa.

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Para resolver a situação de alguns alunos sem acesso a novas tecnologias, o ministro da Educação adiantou que há soluções em análise: “Estamos a trabalhar para mitigar esta questão. Quando não é possível, temos de aceder a meios mais tradicionais, como a utilização de canais que estejam na TDT.” Para os alunos do 9.º, 11.º e 12.º ano, sujeitos a exame nacional, não há, para já, alterações às datas fixadas. Mas as inscrições são realizadas online.

Para a vimaranense, “os miúdos não terem aulas” não é uma opção viável. “Ainda não tive muito tempo para pensar nesta situação, mas não acho favorável que a escola encerre. Ou se antecipariam as férias grandes ou, até maio, saberíamos se as coisas voltariam mais ou menos à realidade. Não sabemos como vai ser, mas sabemos que vamos ter de trabalhar”, diz. E mesmo as aulas digitais podem ser complicadas: “Já em reuniões com professores, por videoconferência, é complicado e nem toda a gente se ouve. Com 20 meninos, a dinâmica não é fácil. E a nossa internet tem de aguentar todo esse trabalho.” Ainda assim, Maria do Rosário Vieira garante: “Estamos a fazer o nosso melhor.”

Respostas a nível municipal

Por cá, ficou a garantia de que a autarquia irá apoiar os alunos que necessitem de material tecnológico para que o ensino à distância se efetive, desde que a situação económico-financeira o justifique. A novidade foi dada por Domingos Bragança, presidente do município, na última reunião de câmara. Pelo menos dez situações foram resolvidas na semana passada, assegurou, na altura, a vereadora da Educação ao Mais Guimarães. “Os agrupamentos conseguiram resolver algumas situações por disponibilidade de meios tecnológicos que eles próprios dispõem ou por que encontrara na comunidade quem ajudasse: Juntas de Freguesia, IPSS, etc.”, explicou Adelina Paula Pinto. De acordo com a também vice-presidente, a autarquia tem 500 tablets disponíveis caso as aulas presenciais não se iniciem no terceiro período. Adelina Paula Pinto assegurou que garantir o acesso dos alunos à internet não será “particularmente difícil”. A Plataforma +Cidadania também é apontada como uma boa opção pela Câmara Municipal de Guimarães. “É um espaço seguro de aprendizagem, colaboração e partilha, destinada ao 1.º ciclo”, lê-se numa partilha nas redes sociais do município. “Na Plataforma +Cidadania estão disponíveis jogos, atividades e desafios, dinâmicos e lúdicos, relacionados com as temáticas de Currículo Local, Educação para a Cidadania e Conteúdos Curriculares”, acrescenta.

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