Feios, porcos e confinados

por José da Rocha e Costa

Se há coisa que me cansa são os chavões. E esta pandemia do Covid-19 tem sido prolífica em termos de novos chavões com que somos importunados todos os dias. O primeiro chavão de que me lembro (durante a pandemia) foi relativo às máscaras, das quais se disse repetidamente serem desnecessárias além de trazerem uma falsa sensação de segurança. “Falsa sensação de segurança” – expressão usada até à exaustão como se quem usasse uma máscara se sentisse de repente invencível, como uma espécie de super-herói. Passado um mês e tal, afinal de contas, a máscara não só é útil como passa a ser obrigatória. Quem diria? Se fôssemos mal-intencionados, poderíamos dizer que o que levou na altura às máscaras serem consideradas desnecessárias, foi o facto de não existirem em quantidade suficiente e que o governo, esse sim, é que nos quis transmitir uma falsa sensação de segurança. Assim como transmitiu uma falsa sensação de segurança a muitas empresas, quando anunciou as linhas de apoio ao lay-off dos funcionários. Dos pedidos de apoio que foram feitos até agora, cerca de 70% foram rejeitados, ou porque as empresas não souberam preencher a papelada como deve ser, ou porque se encontravam à data em situação de incumprimento, etc.

Outro chavão que tem sido muito utilizado é o dos “profissionais da linha frente”. Numa clara alusão a um cenário de guerra que não é bem comparável. Claro que ter que colocar aquela “artilharia” toda de protecção e ter que lidar com uma afluência acrescida aos serviços de saúde é uma situação desagradável para quem tem que o fazer diariamente, mas não é bem o mesmo que ter de amputar um indivíduo a sangue frio, como muitas vezes acontece em num cenário de guerra.

Nestes últimos dias, os chavões mais ouvidos são os do “desconfinamento” e o do “regresso à normalidade”. Eu confesso que não noto grande normalidade em nada. O vírus continua por aí à solta e a única mudança é que o Estado, depois de decretar o estado de emergência e mandar toda a gente para casa, decidiu que em alguma altura isto tinha que acabar (se calhar, quando descobriu que o dinheiro não chegava para financiar os pedidos de lay-off na sua totalidade) e decretou que estava na altura de sair de casa. Para as pessoas se sentirem mais seguras nesta sua nova missão, decretou também o uso obrigatório de máscara em diversas situações, o que apenas deveria ser feito caso as máscaras fossem distribuídas gratuitamente pela população. Afinal de contas, as máscaras não estão baratas e há quem já esteja em dificuldades suficientes para ter que fazer frente a mais esta despesa.

Outro dado curioso foi a prioridade definida quanto aos estabelecimentos que deveriam abrir primeiro. Por exemplo, os barbeiros e cabeleireiros já reabriram, enquanto os restaurantes ainda vão ter que esperar mais duas semanas. Dá a sensação que o governo olhou para a sua população e o que viu foi um grupo de indivíduos “feios, porcos e confinados” e por isso resolveu desconfiná-los e mandá-los aos salões de beleza para tratar do seu aspecto e recuperar a imagem.

PS – Nos tempos que vivemos é cada vez mais actual a frase popularizada por Pimenta Machado: “O que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”.

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