Fernando Daniel: “O segredo é desfrutar daquilo que está a acontecer”

Encontramo-nos no Tio Júlio com o músico Fernando Daniel.  Este foi um regresso a Guimarães e voltar a este lugar estava nos planos desde que a decisão de vir ao Multiusos foi tomada. À Mais Guimarães, falou do seu percurso enquanto artista e confessou-nos qual a música que mais gosta de cantar nos concertos.

© Claúdia Crespo / Mais Guimarães

Quem é o Fernando Daniel e como é que te descreves?

O Fernando Daniel é um rapaz super divertido, tímido q.b.. Gosto muito de comer, por isso é que cá estamos.

Disseste uma vez, numa entrevista, que a guitarra andava contigo para todo o lado. O gosto pela música já existia antes ou foi quando a tua irmã te deu a tua guitarra que passaste a gostar?

A música veio um bocadinho antes dessa guitarra. Essa guitarra foi um bocadinho “deixa-me cá aprender mais coisas e não ser só cantar”. A música vem aos 10 anos de idade, a guitarra vem aos 14. Foi juntar o útil ao agradável, aprendi a tocar e aprendi piano também. Hoje em dia são os instrumentos que toco em palco.

Também disseste que eras muito teimoso. Foi essa teimosia que te fez chegar onde estás hoje?

Prefiro dizer que sou uma pessoa persistente do que teimosa. Isso ajuda porque é sinal de que nunca estás satisfeito, queres sempre procurar por mais e vais trabalhar sempre para mais.

Em 2013 e 2014 participas no Fator X e acabas por ser eliminado. Em 2014, ficas em quarto lugar. Como é que se lida com ou não aos 16, 17 anos?

Confesso que o choro é inevitável. Chorei, estava triste. Mas deu-me força e acho que puxou mais pela persistência que já era notória. Saí, chorei, mas no dia a seguir pensei “vou mostrar que eles estavam errados”. Depois aparece, mais tarde, o The Voice.

Mas também já tinhas feito um casting para uma banda onde foste o único candidato.

[risos] Fui o único candidato. Hoje dia ainda me dou com uma dessas pessoas, é o meu melhor amigo, o Mendoza. Isso também revela que é importante mantermos sempre as pessoas que nos acompanham desde o início por perto, porque são pessoas que nos querem ver crescer e que querem crescer connosco.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

E tal como disseste, em 2016, vais ao The Voice, a tua prova cega a cantar Adele, When We Were Young, torna-se a mais vista a nível mundial. Como é que foi sentir isso?

A partir do momento em que começo a perceber que se está a tornar viral, ao mesmo tempo que me deu alguma confiança para continuar no programa, deu-se um acréscimo de responsabilidade. Não queria defraudar as expectativas que já estavam a ser criadas com aquilo que eu ia fazer. Foi um misto de responsabilidade acrescida com um descansar que nunca deu para descansar.

Ao venceres, há um contrato com a Universal. Como é que vem o “Espera”, o teu primeiro single e depois, posteriormente, o teu primeiro álbum, “Salto”?

O “Espera” nasce quase de uma insistência minha. Estava em casa e a partir do momento que percebi que tinha uma editora comigo, eram constantes as chamadas para eles a dizer “eu quero trabalhar, quero fazer música, não quero que as pessoas se esqueçam de mim”. E eles sempre naquela de “ok, mas temos que perceber para onde é que vamos, que tipo de músicas é que vamos à procura”. Tinha que surgir com alguma naturalidade e o produtor tinha que gostar, também, daquilo que estava a fazer. Mostram-me a guitarra de espera, não tinha letra, não tinha nada, era só mesmo uma guitarra e eu gostei. Comecei a escrever em cima daquela guitarra e a cantar. Entretanto, há ali uma fase do refrão em que bloqueei um bocadinho, chamamos a Carolina Deslandes para se juntar a nós. Começamos a trabalhar o “Espera” em abril de 2017, sai em julho. O álbum sai quase um ano depois, em março de 2018. Foi logo, nas primeiras semanas, top de vendas. Foi um início brutal. Fomos lançando singles que nos foram dando matéria para trabalhar e foi um ano ótimo em concertos.

Estavas à espera dessa receção tão boa por parte dos portugueses?

Não estava. Sabia que, à partida, como o meu estilo de música é o pop é mais comercial, toca nas rádios, é uma forma de chegar às pessoas e em maior número. Mas daí a gostar… As pessoas podem não se identificar. Há várias coisas que te podem levar a não gostar de um artista ou das canções desse artista. Faz parte. É bom existirem artistas para todos os estilos.

E depois vais a Sevilha, a um evento da MTV, e falas muitas vezes daquilo que viveste, desde a passadeira vermelha, que sentiste muita pressão, o facto de ires numa limusine. Sentiste um alívio, digamos assim, por teres visto portugueses na própria passadeira vermelha, estás com a Dua Lipa, tens a Pablo Vittar atrás de ti, acabas até por encontrar o Cristiano Ronaldo… É fácil um artista deixar-se deslumbrar?

Acho que faz parte, acho que um artista deve-se ir deslumbrando. Acho que te deves deslumbrar, mas deslumbrando sempre com os pés bem assentes na terra. Deves pensar “isto está a acontecer hoje, mas para o ano pode não acontecer”. Na verdade, não aconteceu no ano seguinte, apesar de ter vencido o prémio. Mas faz parte deslumbrar-se, porque é um mundo em que tu trabalhas imenso. Acho que o segredo é mesmo desfrutar daquilo que está a acontecer, com os pés na terra.

Já tiveste outro trabalho, e, uma vez, falaste do “ser feliz e ser útil”. Sentes que, neste momento, és útil e feliz?

Exatamente. Sou útil e sou feliz. No outro trabalho que eu tinha, sentia-me útil, mas não me sentia feliz. Sentia que estava a fazer o meu trabalho enquanto trabalhador, mas eu não estava a ser feliz. Só nos dão a garantia de que vivemos uma vez, por isso acho que é aproveitar a oportunidade que temos de nascer. Parece uma coisa tão básica, mas é uma oportunidade de uma vida para fazermos aquilo que a gente gosta, ser útil, ajudar, e, ao mesmo tempo, sentirmo-nos felizes.

Acho que falar em Fernando Daniel é, inevitavelmente, falar em fazer feliz por todas as coisas que vamos vendo…

Sinto que, uma vez que eu estou feliz, tenho uma vida feliz, uma família feliz, estou a fazer aquilo que gosto, acho que tenho estabilidade suficiente para poder fazer as outras pessoas felizes. Não se trata só de chegar ao palco e cantar e aí já estou a fazer as pessoas felizes. Fora isso, acho que é importante ajudar. Se eu tenho a possibilidade de ajudar, se tenho tempo para ajudar, não custa fazer outra pessoa feliz. Às vezes um simples vídeo, uma simples ida a casa de alguém, uma prenda num momento especial, acho que ajuda alguém a ter um dia melhor.

Falando um bocadinho agora do teu novo álbum, “Presente”, que, entretanto, já teve uma reedição, o que é que mudou?

Fui aprendendo cada vez mais coisas. O “Presente”, não de prenda, mas de presença, é quase como um grito de “eu estou aqui”. Muitas vezes, as pessoas, e os críticos, principalmente, olham para o pop como um estilo de música fácil de fazer. As composições se calhar são um bocadinho mais fáceis, mas depois, como há tanta concorrência, nem sempre consegues fazer pop. Foi quase como um grito de “eu estou aqui, estou a fazer música, aquilo que gosto, há espaço para o pop”. E o “Presente” ficou seis semanas seguidas em primeiro lugar no top nacional, ficou também durante 54 ou 55 semanas no top geral das vendas em Portugal.

A reedição veio numa de “não tocamos o disco, não deu para viver o disco”. Portanto, fiz uma reedição para poder continuar a saborear o disco e fazer estrada. Fiz algumas colaborações com o Carlão, a Carolina, o Piruka, já tinha feito co o Jimmy P e com o Agir. Acredito que no próximo disco possa surgir mais uma outra outra parceria.

Sinto que ouvir as tuas músicas é conhecer-te. Em quê ou em quem é que te inspiras?

Inspiro-me nas minhas histórias e nas histórias das pessoas que me odeiam. Tento é não tornar  as letras muito pessoais nem muito objetivas. Acho que a partir do momento que escreves músicas demasiado objetivas ou demasiado pessoais, crias uma barreira de compreensão na outra pessoa. Se eu for demasiado objetivo numa letra minha, a pessoa deixa de se identificar, porque, não passou por aquilo específico.

Qual é, das tuas músicas, a tua preferida?

Depende do estado de espírito. Se me perguntasses qual era a música que eu não me importava de cantar para o resto da minha vida, eu diria a “Melodia da Saudade”.

É a que mais gostas de tocar nos concertos?

É a que mais gosto. Acho que é um momento especial, fico sozinho em palco, sentado ao piano, com uma luz sobre mim. É um momento em que, além de eu me estar a relembrar do meu avô e a cantar para ele, sinto que as pessoas que ali estão, estão a relembrar alguém ou estão mais próximas de alguém que já partiu. Acho que esta música é mesmo isso. É levantarmo-nos a nós até ao céu, ou então trazer as pessoas do céu um bocadinho até nós. São seis ou sete minutos em que as pessoas estão ali a preencher um vazio que não se sabe se se pode ou não completar, mas que eu faço por isso.

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