FLORA (Parte2)

por JÚLIO BORGES

Docente

– Boa noite filha. – o pai viera tentar resolver o conflito da tarde. – Eu e mãe conversámos, peço desculpa por termos ocultado parte da verdade. Se tivéssemos contado tudo sobre esta cidade, a mudança teria sido tão fácil?

Flora manteve-se em silêncio. Sabia que se não falasse aquela conversa terminaria rapidamente, podendo ela regressar à sua leitura.

Tal não aconteceu. Depois de algumas justificações para a mudança, lições de vida e frases feitas sobre compreensão e amor familiar, o pai terminou:

– Agora minha querida, está na hora de descansares. Por favor apaga a luz que amanhã iremos conhecer a nova escola.

Pela manhã Flora entra no recinto da escola acompanhada por seu pai. Todas as atenções se viraram para si. Uma sensação de desconforto apoderou-se dela. Estava habituada a ser o centro das atenções, na sua antiga escola, por ser tão segura de si, aluna brilhante e determinada. Mas ali, naquela escola de uma pequena cidade do interior, tudo era diferente. A sua segurança tinha fugido, talvez com o vento, talvez perdida na viagem, talvez com o medo.

Depois do sacrifício da apresentação a todos os professores e colegas de turma, chegou a hora de almoço. Apenas neste curto intervalo teve tempo para reabrir o Diário de Florindo Flores.

Subi a vereda onde um tufo de papoilas, com as suas belas e delicadas camisinhas vermelhas, bailavam ao sabor da ligeira brisa que se fazia sentir. Poças de água, porventura criadas pelo aguaceiro que caiu durante a noite, refletiam os raios de Sol fazendo brilhar as pequenas gotas de água que vivem suspensas das folhas de árvores e arbustos. As cegonhas sobrevoavam o prado lá ao longe, talvez procurando o pequeno-almoço. No lago as rãs coaxavam alegremente, acompanhadas de perto pelas cigarras e grilos. O Sol começara a aquecer e toda a natureza parecia disfrutar com este verão antecipado. Cansado do saudável e prazenteiro esforço sentei-me à entrada do bosque, recostado a um velho castanheiro.

Perto do local onde me encontrava avistei um singular fungo. Todo ele apresentava uma textura rugosa, embora o toque nos transmitisse o contrário. Há minha frente, uma rocha coberta de musgo com umas marcas gravadas a ferro e pedra. Mais um código.

 

VGXG U ZKYUAXU KTIUTZXGXKY HGZK TG XUING G JOLKXKTIG KTZXR U JUHXU JK YKOY K ZXKY (-6)

 

Mais um código! Quem seria este Florindo Flores? Qual seria o objetivo de tantos códigos?

Decidida a colocar um ponto final nesta história tão estranha, Flora chegou a casa e avisou a mãe que ia passear, conhecer os vizinhos.

Subiu pelo carreiro das traseiras que levava ao bosque, quase sentiu o cheiro das margaridas. Viu já seco, morto, o velho carvalho, marcado na sua pele enrugada pelo tempo, pelos líquenes e pela erosão algumas marcas que se assemelhavam à primeira mensagem. “PARA A AVENTURA COMEÇAR, O CÓDIGO DEVES DECIFRAR.

Subiu pela vereda, não se viam quaisquer papoilas, era impensável encontrá-las no mês de fevereiro. As poças de água também faltavam, a seca dos últimos meses deixava a sua marca na paisagem, até o lago secara!

Malditas alterações climáticas, pensou.

Na cidade falava-se e sentiam-se as consequências da falta de água, do calor extremo, mas era ali, no campo, onde a natureza é livre e não engarrafada, envidraçada, que se observa o resultado da nossa pegada ecológica.

Absorta pelos pensamentos aproxima-se de um marco geodésico que recortava a paisagem para a transportar para mais um belo monumento da civilização, um pequeno pilar de cimento, e na sua base uma rocha com a mesma inscrição do diário.

O que deveria fazer?

Teria primeira que descodificar aquela mensagem, o código era diferente do anterior!

Um pensamento relampejou na sua mente, algo se passara naqueles dois dias. Flora estava no campo, no meio de nenhures e não detestava ali estar. O passeio havia sido agradável, o ar fresco e puro libertara-a da necessidade de teclar, de postar palavras vãs. Não sabia o que iria descobrir com aquele diário, mas já havia ganho algo.

 

 

Ilustração: Bárbara Correia da Silva 

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