Francisca Abreu: de Vila Pouca a Vila Flor – o percurso de uma vida

por António Rocha e Costa Analista clínico

Conheci a Francisca Abreu no final dos anos sessenta do século passado, quando ambos fazíamos parte do movimento “Manhãs Juvenis”, que acabava de nascer pela mão do saudoso Monsenhor Ferreira da Silva, professor do Liceu de Guimarães. Formado por jovens socialmente empenhados, a maior parte frequentando o Liceu de Guimarães, o movimento montou arraiais no antigo colégio do Sagrado Coração de Maria, mais conhecido por colégio de Vila Pouca, onde à época já só funcionavam um lar feminino para estudantes e um infantário. De matriz católica, o movimento “Manhãs Juvenis”, cujo nome se deve ao facto de inicialmente as reuniões se efectuarem aos domingos de manhã, congregava jovens de diversos quadrantes e estratos sociais, tornando-se rapidamente um espaço de convívio e de debate de temas considerados avançados para a época, sem descurar a componente lúdica que tinha lugar aos sábados à tarde.

Nessa altura já a Francisca, apesar de ser das mais novas, se destacava pelo seu empenho e participação nas diversas actividades, sempre com um sorriso estampado no rosto, que seria de resto a sua imagem de marca ao longo do tempo em que permaneceu entre nós.

Passados alguns anos, dadas as vicissitudes da vida, cada qual seguiu o seu percurso, indo a Francisca para Coimbra, onde se licenciou na área da linguística.

Mais tarde, regressados a Guimarães, reencontramo-nos exercendo cada um de nós as respectivas profissões. A Francisca dava aulas na Escola Martins Sarmento, assim baptizada após o 25 de Abril, tendo desempenhado durante anos o cargo de Presidente da Comissão Directiva. O seu entusiasmo e a dedicação às causas que abraçava não permitiam que passasse despercebida, apesar da sua simplicidade e desapego do Poder. Por isso não surpreende que tenha sido convidada para integrar a lista do P.S. concorrente à Câmara de Guimarães onde, uma vez eleita, desempenhou até há bem pouco tempo o cargo de Vereadora do pelouro da Cultura.

A ela se deve em grande parte a projecção alcançada pelo Centro Cultural de Vila Flor no panorama da Cultura nacional e além fronteiras. A Francisca teve o mérito de reunir uma equipa de reconhecido valor, que fez da programação do Vila Flor, uma das melhores do País, se excluirmos Lisboa e Porto.

Sempre discreta e avessa à luz dos holofotes, a Francisca foi também uma das principais responsáveis pelo êxito da “Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura”, conseguindo contornar as polémicas geradas na fase de preparação do evento. O seu papel de “formiga” está longe de ser devidamente reconhecido, como seria de inteira justiça, já que foi ofuscado pelas “cigarras cantantes” e, quiçá, por algumas aves de arribação. O tempo se encarregará de repor a verdade para que a expressão popular “o seu a seu dono” seja um facto.

No rescaldo da “Capital Europeia da Cultura”, foi editada uma publicação com o título “Guimarães 2012 – O que fica no coração”. Entre os vários depoimentos ali inseridos, em jeito de balanço, destaca-se o da Francisca Abreu, por descrever exaustivamente as complexas etapas que tornaram o evento possível.

A Francisca deixou-nos no passado dia 26 de Agosto, quando ainda tinha muito caminho para percorrer e tanto para dar.
Dela fica-nos a memória de uma pessoa simples, com um sorriso jovial e um coração grande. A sua grandeza era do tamanho da sua fragilidade.
Vamos ter saudades tuas, Francisca. Terás sempre um lugar guardado no nosso coração. Ficarás para sempre no coração de Guimarães.
 

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