Guimarães anuncia fábrica de satélites na Fábrica do Alto, em Pevidém

O município de Guimarães vai acolher a primeira unidade de produção de satélites ópticos em Portugal, num investimento considerado estratégico para o futuro económico e tecnológico do concelho. A instalação será feita na Fábrica do Alto, em Pevidém, e ficará a cargo do CEiiA - Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, entidade de referência nacional na área da engenharia e inovação.

© CEIIA

A decisão foi aprovada em reunião do Executivo Municipal, nesta segunda-feira, no âmbito de uma nova cedência do edifício ao CEiiA, substituindo o contrato anteriormente estabelecido. Para o presidente da Câmara Municipal, Ricardo Araújo, este é um “momento decisivo para a afirmação de Guimarães num setor emergente e altamente competitivo. É uma grande oportunidade para Guimarães se afirmar na economia do espaço”, afirmou o autarca, sublinhando o alcance nacional e internacional do projeto.

A nova unidade integra-se numa estratégia mais ampla de desenvolvimento do setor aeroespacial no concelho, alicerçada na colaboração entre o município, a Universidade do Minho e o CEiiA, no âmbito do Guimarães Space Hub. Este modelo procura potenciar a transferência de conhecimento, a investigação aplicada e a criação de emprego qualificado, consolidando um ecossistema de inovação com impacto duradouro. Recorde-se que as antigas instalações da Fábrica do Arquinho, na cidade, vão acolher a Escola de Engenharia Aeroespacial e também o projeto Fibrenamics.

Ricardo Araújo destacou que o investimento na Fábrica do Alto, em Pevidém, representa “um passo determinante” na concretização de uma visão assente em três pilares fundamentais: formação avançada, investigação e industrialização. “Em poucos meses fomos capazes de identificar esta oportunidade, mobilizar parceiros e criar as condições para a sua concretização”, referiu, acrescentando que o projeto surge já no atual mandato, reforçando a prioridade dada ao Desenvolvimento Económico.

O autarca defendeu ainda que esta iniciativa posiciona Guimarães como um potencial polo ibérico na área da inovação avançada, com capacidade para atrair novas empresas e investimentos ligados à economia do espaço. “Mais importante do que a requalificação da fábrica é aquilo a que se destina. Estamos a falar de uma indústria de ponta, com enorme potencial no presente e no futuro”, afirmou.

O projeto está ligado ao desenvolvimento da “Constelação do Atlântico”, e enquadra-se num contexto europeu de reforço da autonomia no domínio espacial, bem como no crescimento deste setor. A unidade de produção de satélites ópticos terá aplicações em áreas como a defesa, a monitorização ambiental, a gestão de catástrofes e o planeamento urbano, inserindo-se em cadeias de valor internacionais.

Para além do impacto direto em Guimarães e na freguesia de Pevidém, o investimento é visto como estruturante para o país, contribuindo para a afirmação de Portugal no setor aeroespacial. A instalação da unidade poderá também impulsionar a criação de uma zona de acolhimento empresarial dedicada à economia do espaço, reforçando a centralidade industrial do concelho.

O autarca destacou ainda que, ao contrário da solução anterior, esta aposta não implicará investimento direto do município na reabilitação do edifício, ficando essa responsabilidade a cargo do CEiiA.  “Era um investimento na ordem dos 10 milhões de euros em que havia apenas um um milhão de euros de fundos comunitários. Neste momento, a Câmara não vai gastar dinheiro e encontrou parceiros para assumir a reabilitação do imóvel”, vincou.

A cedência do espaço será formalizada através de um contrato de comodato com duração de 25 anos, permitindo criar condições de estabilidade para o desenvolvimento do projeto e para a fixação de investimento a longo prazo.

Ricardo Costa defende ecossistema industrial e alerta para não abandonar a “Fábrica do Futuro”

Durante a discussão da proposta, o vereador do Partido Socialista, Ricardo Costa, manifestou concordância com a instalação da fábrica de satélites, considerando que o projeto se enquadra na necessidade de posicionar Guimarães na nova economia.

“O que hoje nos foi apresentado parece-nos bem. Concordamos com esta nova economia que temos de trazer para Guimarães”, afirmou, destacando a ligação ao desenvolvimento do setor aeroespacial no concelho, nomeadamente com a aposta na formação nesta área.

Ainda assim, o vereador socialista alertou para a importância de não abandonar projetos anteriormente previstos para a Fábrica do Alto, como a Academia Digital e a chamada “Fábrica do Futuro”. “A única coisa que propusemos ao senhor presidente foi que não deixe cair essa ideia”, referiu.

Ricardo Costa defendeu que o avanço para a economia do espaço deve ser acompanhado por uma estratégia mais ampla de valorização do tecido empresarial local, propondo a criação de um ecossistema de inovação industrial, espacial e da defesa na zona de Pevidém. Segundo explicou, este modelo permitiria aproveitar infraestruturas existentes e integrar entidades científicas e tecnológicas, promovendo a ligação entre conhecimento e indústria.

O autarca sublinhou ainda que setores tradicionais do concelho, como o têxtil, o calçado ou a metalomecânica, podem desempenhar um papel relevante nesta nova economia, incluindo na área da defesa, desde que devidamente preparados e integrados em cadeias de valor internacionais.

“Temos de preparar as nossas empresas para esta transformação, para a economia do espaço e da defesa”, afirmou, defendendo também a necessidade de apoiar a qualificação e certificação das empresas locais para acesso a programas europeus.

O vereador destacou ainda que esta transição representa uma oportunidade para gerar emprego mais qualificado e melhor remunerado, desde que exista uma estratégia que articule empresas, universidades e centros de investigação. “Temos de potenciar o que já existe e reposicionar o nosso tecido empresarial nesta nova economia”, concluiu.

Projeto Constelação do Atlântico reforça ambição espacial portuguesa

A Constelação do Atlântico é um projeto estratégico do setor espacial português, integrado na Agenda NewSpace Portugal e financiado pelo PRR, que aposta no desenvolvimento de satélites de alta resolução para aplicações nas áreas da defesa, segurança e sustentabilidade.

Liderado pelo CEiiA, em parceria com a Força Aérea Portuguesa e empresas como GEOSAT, N3O e CTI Aeroespacial, o projeto pretende posicionar Portugal como fornecedor global de serviços de observação da Terra.

A iniciativa inclui uma constelação de até 16 satélites (óticos e radar), capazes de fornecer imagens de elevada precisão e em quase tempo real, com aplicações como monitorização ambiental, gestão de catástrofes e apoio a missões de defesa.

Reconhecida a nível europeu, a Constelação do Atlântico tem vindo a ganhar relevância estratégica, estando alinhada com programas como o Copernicus e contribuindo para a soberania e resiliência europeias, ao mesmo tempo que reforça a capacidade industrial e tecnológica nacional através de parcerias internacionais.

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