Guimarães de fora da aposta na ferrovia

Em 1988, de Lisboa a Bragança eram nove horas de viagem. Os Xutos e Pontapés queriam ter um avião “para lá ir mais amiúde”. Passados 32 anos, segundo o Google, a mesma viagem, de 510 quilómetros, leva quatro horas e 47 minutos. O mesmo tempo que é preciso para chegar de Lisboa a Guimarães, numa distância de 366 quilómetros, de comboio.

A experiência leva em conta um passageiro que apanhe o Alfa Pendular, em Lisboa-Santa Apolónia, às 14h00. Esta composição vai chegar ao Porto às 16h58 e não continua para Guimarães. Como a essa hora não há nenhum comboio urbano para a Cidade Berço, o passageiro terá que se sujeitar a uma espera de meia hora. Às 17h30, finalmente, apanha o urbano para Guimarães e chega ao destino às 18h37, quatro horas e 45 minutos depois de ter saído da capital.




Um amigo deste passageiro que saiu com ele de Lisboa, com destino a Braga, não precisou de trocar de comboio no Porto e chegou à cidade dos arcebispos uma hora antes.

Este nem é o pior cenário, porque se o passageiro tivesse partido de Lisboa no Intercidades das 12h30, demoraria sete horas e 13 minutos a chegar a Guimarães.

A cidade de Guimarães tem atualmente uma ligação direta em cada sentido, por Intercidades (ida às 16h41 e vinda às 11h30), com um tempo de viagem de quatro horas e 19 minutos. Apenas mais 18 minutos que o mesmo tipo de comboio a fazer a linha de Braga. A diferença é que, na linha de Braga, há atualmente três ligações diretas em cada sentido: duas por Alfa Pendular (idas às 5h45 e 17h54 e vindas às 14h00 e 18h00) e uma por Intercidades (ida às 16h41 e vinda às 11h30).




Até 24 de março deste ano, Guimarães tinha uma ligação diária, em cada sentido, à capital, em Alfa Pendular. Essa composição saia de Guimarães às 6h39, para chegar a Santa Apolónia às 10h40 e regressava às 20h00, chegando a Guimarães um minuto depois da meia-noite. Na mesma altura foram foram suprimidos outros comboios. Segundo a CP, foi feito um ajustamento para 54% daquilo que é a oferta regular de comboios Alfa Pendular e Intercidades, em virtude de uma queda de 85% no volume de passageiros. Recorde-se que o Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, decretou o Estado de Emergência a 18 de março.

O problema, no caso vimaranense, é que, retirada a única ligação “rápida” a Lisboa, não ficou nenhuma alternativa válida. “Não é possível ir a Lisboa em trabalho num comboio que sai daqui às 16h41 e leva mais de quatro horas a chegar”, diz Eduardo, um programador que costumava usar o Alfa nas idas à sede da empresa com quem trabalha.

Quando se liga para a linha de informações da CP, a perguntar pela reposição do Alfa para Guimarães, a mensagem é que, “não há previsão para a reposição do serviço. Os horários que temos disponíveis são os que estão no site, deve ir consultando e verificando as alterações.”

O Mais Guimarães dirigiu, por isso, uma mensagem de correio eletrónico à CP a questionar sobre o regresso do serviço Alfa a Guimarães, mas até ao fecho desta edição não tinha recebido nenhuma resposta. Sem resposta ficou também o pedido de esclarecimento ao Ministério das Infraestruturas e da Habitação. Questionamos o ministro sobre se a opção por não trazer o Alfa até Guimarães era por motivos de rentabilidade e como é que explicaria isso aos vimaranenses, num momento em que estamos a salvar a TAP.




Da parte da Câmara Municipal de Guimarães também não houve nenhum esclarecimento sobre se estava a ser feito algum esforço para repor esta ligação.

Já o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV), não tem dúvidas, “o Alfa não vem, o governo já decidiu”, afirmou perentoriamente a deputada Mariana Silva, durante uma conferência recentemente realizada na ASMAV. “Sabemos que há, da parte do governo, uma visão de que não há passageiros”, acrescenta a deputada.

O PEV também dirigiu uma questão ao Ministério das Infraestruturas e Habitação, mas tal como o Mais Guimarães continua à espera. ” A CP diz que não pode ter um Alfa parado em Guimarães um dia inteiro. Se o Município não pressionar o Alfa não vai voltar”, assegura Mariana Silva.

“No ano passado, passou a haver uma paragem adicional em Vizela, isto demonstra que há necessidade do serviço, ao contrário do que dizem”, sustenta Mariana Silva.




A CP já tinha revelado a falta de interesse na ligação do Alfa a Guimarães quando, em 2018, interrompia a viagem no Porto e fazia os passageiros trocarem para o Intercidades. “No passado já tentaram enganar os clientes. O Alfa parava no Porto e os utentes eram convidados a mudar para o Intercidades”, recorda a deputada do PEV. Na altura foram as reclamações dos passageiros, nomeadamente dos juízes do Tribunal de Trabalho, que à quarta-feira usavam o Alfa para ir a Guimarães, que fez com que esta situação se alterasse.

Entretanto, viajar de Guimarães a Lisboa de autocarro demora quatro horas e 55 minutos com preços desde 14,99 euros e com várias carreiras diárias. Dificilmente o velho Intercidades, trinta minutos mais rápido, mas com apenas um horário por dia e com preços a começar nos 26,6 euros (em 2ª classe) ou 38,65 euros (1ª classe), poderá concorrer com isto.

©2021 MAIS GUIMARÃES - Super8

Publicidade

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?